Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > CHUMBO QUENTE

Os anos de sangue

Por lgarcia em 22/01/2015 na edição 834

Editorial do segundo programa da série “Chumbo Quente”, do Observatório da Imprensa na TV nº 765, exibido em 20/1/2015

Consciente de que a história e o jornalismo constituem uma recusa ao ponto final, esta série pretende ser uma convocação para o interminável exercício de lembrar. Cada um dos 7.665 dias que compõem os 21 anos de chumbo oferece algo penoso a ser lembrado. O culto da efeméride, além de enganoso, é simplista e a história por definição é complexa, sutil. Ao limitar os 21 anos de terror às rememorações do golpe, produziram-se lacunas e lapsos. Ficaram de fora os elementos capazes de matizar os personagens e uma tragédia para ser sentida não pode basear-se em toscos estereótipos. A alguns protagonistas não foi oferecido o benefício dos tons do cinza. João Goularte, por exemplo, chorou convulsivamente quando alguns companheiros, aos berros, em Porto Alegre, o acusaram de covarde antes de embarcar para o exílio. A coragem de evitar a guerra não é covardia.

O general Golbery do Couto e Silva, a quem coube a tarefa de preparar o clima psicológico para outro golpe que se pretendia incruento, foi também o artífice do processo de distensão que pretendia ser incruento mas acabou por exacerbar a insanidade dos órgãos da repressão. Arthur da Costa e Silva, o general que converteu a quartelada em ditadura, tentou reverter o AI-5 que ele próprio havia proclamado. Morreu antes. Os tenentes que a partir de 1922 amotinaram-se para acabar com as injustiças sociais e os latifúndios transformaram-se em fiadores das crueldades cometidas por seus herdeiros.

O arbítrio e a tirania numa sociedade que se acreditava e ainda se acredita como cordial e tolerante exige reencontros. Como estes. Sem paixões. Com humanidade. É a única saída para nos livrarmos da diabólica obsessão pelo uso da força e pelo poder absoluto.

Recuo estratégico

Os avanços do autoritarismo se deram a pretexto da unidade das Forças Armadas. A linha dura ganhou todas as paradas porque nenhum militar ousava discordar dela, buscar alternativas, bancar contestações. A imprensa aderiu à ordem unida. Jamais tentou encontrar aquele mínimo de coesão e solidariedade para fazer jus ao seu papel de defensora da sociedade.

Os bravos desempenhos individuais de jornais e jornalistas não conseguiram criar um movimento de resistência política. E os políticos que não se exilaram, não foram cassados e heroicamente tentaram manter uma posição democrática, não contaram com o suporte efetivo dos meios de comunicação.

De 1964 a 68, de 1968 a 73, a ditadura só recuou quando apareceram claros indícios de que não poderia mais se manter. Também este recuo foi uma decisão militar. A abertura levou onze anos para completar-se. Foi mais sangrenta do que os nove anos da construção do terror. No próximo episódio, o chumbo fica, ainda, mais quente quando a imprensa está fria. (Alberto Dines)

 

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