Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > COMUNICAÇÃO E LEITOR

Os dispositivos midiáticos e a representação do mundo

Por Larissa Grau em 06/11/2007 na edição 458

O dispositivo midiático implica algumas limitações ao texto. O configura. Todo ato de comunicação jornalística ocorre em um determinado ambiente físico, seja ele o rádio, a imprensa escrita, os meios digitais ou a televisão. O meio não é a mensagem, mas a sua interface; o espaço de contato entre a informação e o receptor. Ele predispõe a mensagem, conferindo algumas restrições para a sua realização. O discurso nunca está solto no espaço, presente nas condições ‘reais’ do universo, mas em uma relação intrínseca ao dispositivo que o contém. O professor francês Maurice Mouillaud argumenta, inclusive, que a embalagem do produto interfere na maneira pela qual se realiza a aproximação ao objeto. Prepara o receptor de antemão e de maneira familiar para o que ele irá encontrar. É assim com qualquer dispositivo comunicacional, seja ele jornalístico ou não. Se o receptor não conhecesse previamente as formas nas quais o texto informacional se insere, dificilmente haveria de sua parte uma identificação, um reconhecimento, uma leitura e uma particular interpretação do objeto. Tomemos um livro de romance ficcional como exemplo. Ao abrirmos um romance que contenha alguma história inventada por alguém, está implícito em nossa leitura que nada daquilo aconteceu realmente e, assim, estabelece-se um pacto de leitura e não somos enganados. Instaura-se uma cumplicidade entre autor e leitor; um contrato de informação, como define o professor de Ciência da Linguagem Patrick Charaudeau. Ocorre uma identificação sem a qual haveria muito poucas chances de que se estabelecesse entre a instância da produção midiática e a instância da recepção a comunicação desejada. Portanto, o sentido não é fruto somente do texto, mas uma somatória do que está escrito, do dispositivo e – não menos importante – das condições sócio-culturais de sua recepção.

Não é diferente com os dispositivos de informações jornalísticas. O que em um primeiro momento pode parecer óbvio não é, todavia, muito presente nas críticas à imprensa que, muito comumente, é feita de uma maneira genérica, essencialista e simplista. Não raro, a mídia adquire a propriedade de ser uma enorme entidade única, e não um sistema complexo e compósito de formatos diferenciados, de vários dispositivos, de propósitos contraditórios e de gêneros variados. Na maioria das críticas, não se leva em consideração a natureza heterogênea dos produtos midiáticos nem o dispositivo onde a informação se aloja.

O tradicional e o popularesco

Prosseguindo com o raciocínio de Charaudeau, a imprensa escrita, por exemplo, é o domínio do texto escrito. Embora contenha algumas imagens (fotografias), sua seara é a palavra conceitual e a leitura é realizada de maneira linear. O leitor já sabe que a informação estará disposta como um cardápio noticioso e é apto a procurar a informação que deseja nas editorias específicas em que ela se divide. O texto, para cumprir sua finalidade de captação do leitor, deve ser entendido pelo maior número de pessoas que a ele tem acesso. Sua linguagem deve ser simplificada, ao mesmo tempo em que, dependendo do veículo, o público visado para o qual a publicação se dirige possa exigir uma maior sofisticação lingüística (a revista Bravo!, por exemplo). O suporte – o dispositivo – demanda legibilidade e inteligibilidade. É unidimensional e por ele o leitor tem a liberdade de correr a vista randomicamente, mas dificilmente escapará do sentido da escrita, respeitando o contrato de leitura, mesmo que somente passeie pelas páginas, uma após a outra.

Quanto a outro aspecto, a imprensa escrita sustenta-se no mote da credibilidade. Não pode inventar. A informação deve ser minimamente suportada por ditos e fatos que, de alguma maneira, ocorreram. Para isso apela para fontes, relatos, documentos e gráficos. O fato de ser monolocutiva traz as suas vantagens. O jornalista nunca é posto em uma situação de confronto direto quando escreve o seu texto. Pode elaborá-lo; desenvolver o seu próprio desencadeamento lógico. Por isso, conta com uma relativa liberdade, embora seu produto, no processo de edição do material, será disposto em uma seqüência com a qual nem sempre ele irá concordar. Porém, a informação midiática nunca é fruto do trabalho de uma só pessoa, mas de uma máquina operacional. Se for um jornal dito de imprensa tradicional, terá que conter em seus textos o ímpeto dramático, mas se for um jornal dito popularesco, poderá dar asas à sua criatividade teatral e carregar nas tintas da miséria humana.

Seleção entre restrições

Um outro dado importante quanto ao dispositivo midiático. Ele conforma a informação em um determinado espaço físico e na imprensa escrita e aquela se organiza sobre um espaço que é deveras delimitado e restrito. Apesar de sugerir por meio de seu cardápio noticioso que o veículo abarca todos os fatos significativos que ocorrem na comunidade, no país e no mundo, jornais e revistas de informação jornalística têm um espaço que não consegue abranger nem a sombra pálida do mundo. O público leitor – cidadão comum – sabe disso, não há por que desprezar a sua inteligência. Afinal, seus próprios dramas não estão presentes nas páginas dos jornais, a não ser quando ele, eventualmente, se transforma e é testemunha de um fato, ou se encontra na condição de vítima de alguma catástrofe que foi transformada em fato noticioso. Assuntos vêm e vão. Desaparecem e reaparecem fragmentados, sem que haja uma continuidade lógica. Como se o mundo, além dos veículos midiáticos, estivesse congelado à espera de que seus acontecimentos variados possam existir quando forem, finalmente, percebidos pela imprensa.

Esse aspecto é ainda mais visível na editoria internacional, que sofre uma série de restrições operacionais, além do ínfimo espaço físico que costuma ocupar na imprensa escrita nacional. Dividida entre uma ou quatro precárias páginas – isso, quando existe –, os editores se vêem compelidos a fazer a seleção da seleção da seleção dos acontecimentos que serão impressos. Uma seleção que já terá sofrido outras restrições, dentre elas a da ausência de correspondentes internacionais suficientes; a dependência do material fornecido pelas agências internacionais de notícia; um prévio conhecimento, por parte do leitor, do assunto que será noticiado, para que ele possa minimamente compreender sobre o que se está falando; o departamento comercial, que vendeu metade das poucas páginas para a veiculação de publicidade paga, pois o veículo é, além de informativo, uma empresa comercial com características liberais.

O modo de apreender o mundo

Nesta semana que se passou, os principais jornais de veiculação nacional deram prioridade à eleição presidencial na Argentina que ocupou muitas das poucas páginas. O conflito entre o governo turco e o partido curdo (PKK), no norte do Iraque, também obteve a atenção da imprensa e, conseqüentemente, o seu espaço de visibilidade midiática. Os pais da menina Madeleine, desaparecida no litoral português, permanecem em evidência, já que no assunto há elementos dramáticos o suficiente para obter a atenção da mídia noticiosa. O Iraque sempre á notícia com seus infinitos homens-bomba se explodindo em filas de emprego iraquianas e contra soldados da ocupação norte-americana. A Venezuela de Hugo Chávez, tão próxima, também é assunto. Entretanto, o conflito árabe-israelense, que costuma ser vedete da imprensa internacional, momentaneamente ‘desapareceu’. A guerra corrente entre Israel e a milícia do Hamas na faixa de Gaza praticamente não consta na editoria internacional. No momento, os editores têm outros assuntos que ativam outros seletores de notícias e que, por isso, são considerados mais importantes de serem publicados nas parcas páginas. Pois, desde que o Hamas assumiu o controle na Faixa de Gaza, a guerra na fronteira israelo-palestina se intensificou.

O jornal Haaretz do dia 30 de outubro noticia a morte de um soldado já na reserva que, contudo, estava em missão na região para tentar coibir os lançamentos diários dos mísseis Alqassan do grupo extremista em território israelense (http://www.haaretz.com/hasen/spages/918262.html). Ehud Efrati, de 34 anos, foi morto quando deparou com uma unidade do braço militar do Hamas (Ezzedeen Al-Qassan Brigade). Na troca de tiros, uma granada que o soldado carregava foi atingida fazendo com que ele explodisse. A mesma informação é noticiada nos órgãos de informação oficial do grupo, que disponibilizou, inclusive, fotos dos pedaços do corpo do soldado, estendidos sobre uma toalha branca para que fosse melhor percebido pelas lentes da câmera (http://www.alqassam.ps/vb3/showthread.php?t=7432). Entretanto, não é difícil prever que não demora muito para que a imprensa, pelas razões intrínsecas e extrínsecas ao seu funcionamento, volte a cobrir os conflitos árabe-israelenses. Eles surgirão novamente do nada, como se mais um ciclo de violência desproposital se tivesse reiniciado, sem causas e sem motivação aparente. Como se a vida cotidiana não fosse um contínuo de fatos que fazem sentido, embora muitas vezes antagônicos, para aqueles que vivem na região. Ressurgirão fragmentados, descontinuados, mal compreendidos, espetacularizados, dramatizados e simplificados à instância da recepção. Sem que isso, no entanto, seja de todo responsabilidade da mídia, mas de como nós, cidadãos e seres pensantes, construímos o nosso modo de apreender e representar o mundo. Uma construção que pretendemos ser a realidade do mundo, mas que não consegue passar de sua representação imaginada.

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Estudante do 8º período de Jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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