Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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CADERNO DA CIDADANIA >

Os políticos, o mar e a ‘cronometria jornalística’

Por Ana Helena Tavares em 19/05/2009 na edição 538

O aperto de mão na política guarda inúmeros simbolismos e ao mesmo tempo nada vale. Pode significar acordos de paz firmados entre quatro paredes enquanto inocentes morrem nas ruas. Pode ser facilmente trocado entre dois risonhos inimigos que amanhã se insultarão. Pode ser ‘moeda de troca’ para interesses de todo tipo. Até de vitrine ele serve, com acabamento de óleo de peroba.

Observem que até na China os políticos conseguiram desmoralizar o aperto de mão. Recentemente, estive lendo uma matéria veiculada por um dos inúmeros blogs do serviço ‘WordPress’ que falava sobre a visita do vice-presidente chinês, Xi Jinping, a Macau, por ocasião de eleições para o cargo de chefe executivo da chamada RAEM (Região Administrativa Especial de Macau) e dizia: ‘A duração dos apertos de mão enquanto `medidor das bênçãos´ não funcionou, especialmente em relação aos `quatro favoritos´. Xi trocou apertos de mãos pelo menos duas vezes com todos eles e tiveram todos duração semelhante: entre dois a três segundos,de acordo com a cronometria jornalística.’

Vamos por partes… Vejam que curioso… A duração de um aperto de mão cria a expectativa de funcionar como ‘medidor das bençãos’, ou seja, a quem o vice-presidente chegasse lá e apertasse a mão por mais tempo é porque era o favorito dele para o cargo.

Símbolo-mor da hipocrisia

Taí uma das maiores asneiras que eu já li em toda imprensa, brasileira e internacional: ‘cronometria jornalística’ para os apertos de mão! Era mesmo o que faltava. Só que Xi Jinping tratou de frustrar isso. Saiu apertando a mão de todos os candidatos. E o pior: apertou duas vezes a mão de todos e em apertos com duração semelhante! Apertos e cronômetros devidamente desmoralizados.

Entretanto, no aperto de mão, ainda se pode dizer que há uma ‘troca’, pelo menos duas mãos se tocam, ainda que nem sempre se apertem mutuamente… Mas o que dizer do tapa nas costas? Tapinha, para os íntimos. Coitado desse. Tenho até pena. Tornou-se algo totalmente vicioso no meio político.

Há uma fala, cujo autor é desconhecido, mas que circula há muitos anos pela internet e que exemplifica bem isso: ‘Se você receber um tapinha nas costas de alguém na rua, provavelmente será um candidato. Agora, se ele começar a criticar o prefeito ou os vereadores, pode ter certeza.’

Um gesto que, entre duas pessoas que nutrem verdadeira amizade, significa carinho, afeição, e que se tornou símbolo-mor da hipocrisia na política e na sociedade de um modo geral. É aquele ‘tapinha’ debochado que diz: ‘Tô aqui te cumprimentando, mas, ó, tô levando vantagem em tudo, viu?’

Protocolos são protocolos…

É nessa gana do ‘levar vantagem em tudo’ que político brasileiro troca de partido como quem troca de roupa. Fidelidade partidária deve ser considerada uma coisa muito atrasada. A ordem do dia é experimentar… Experiências no melhor estilo ‘quem dá mais’. Quem dá mais dinheiro, quem dá mais cargos e até quem dá mais mídia. Ou vocês não sabiam? Político é um bicho carente. Um ser carente e incoerente. Pois é, são complexos mesmo. Claro que não são todos. Mas a maioria consegue oscilar de opinião mais do que uma mulher escolhendo o vestido de noiva.

O triste é saber que, em muitos dos casos, não foi a opinião deles que mudou. Foi o poder que chegou de mansinho e, sem nem apertar a mão, só lhes deu um tapinha nas costas.

Mas a sede de poder é tamanha que não duvido até de um dia ver apertarem as mãos os ministros da Marinha de dois países sem praias. Afinal, protocolos são protocolos e, se aquele acerto der lucro, se trouxer vantagens, para que mesmo é preciso o mar? Bem, talvez a ‘cronometria jornalística’ tenha a resposta.

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Estudante de Jornalismo da FACHA, Rio de Janeiro, RJ

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