Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > (IN)SEGURANÇA PÚBLICA

Pacificar a polícia

Por Luciano Martins Costa em 03/05/2014 na edição 796

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 2/5/2014

Os principais jornais do país dão ampla repercussão, nas edições de sexta-feira (2/5), à notícia de que o governo do Rio de Janeiro vai ampliar o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). No território paulista, o que se lê são tergiversações em torno do verdadeiro significado de mais um episódio na longa crise da segurança pública, que eclodiu na cidade de Sorocaba, onde uma sequência de assassinatos se segue à morte do policial militar Sandro Luiz Gomes, vítima de um atentado na madrugada de domingo (27/4).

A medida anunciada pelo governo fluminense é definida no meio do conflito entre agentes públicos e moradores de comunidades alcançadas pelo plano de pacificação, em áreas dominadas pelo narcotráfico e por milícias patrocinadas por políticos e policiais corruptos. No Rio, onde grupos remanescentes de traficantes promovem ataques aos postos policiais, provocando tiroteios que eventualmente acabam por atingir pessoas inocentes, o governo age com firmeza, tratando de isolar os líderes do crime em penitenciárias federais de outros Estados, e acelerando a expansão do projeto.

O propósito claro dos traficantes e de seus competidores das milícias, na luta pela exploração das comunidades, é saturar esses locais com uma guerra de guerrilha, na qual, quanto mais efeitos colaterais, maior será o repúdio à presença ostensiva da polícia. Essa tática tem surtido efeito, a se julgar por reações que podem ser captadas nas redes sociais, coincidentemente em grupos organizados para manifestações motivadas por outras questões. Nesses comentários se pode observar como o conflito aberto produz um estado de espírito contrário à consolidação das UPPs.

Evidentemente, desvios de conduta e práticas criminosas de agentes públicos contribuem para esse fenômeno, como ocorreu no assassinato do pedreiro Amarildo Dias de Souza, ocorrido em julho do ano passado, ou na morte ainda não esclarecida do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, cujo corpo foi encontrado no dia 22 de abril junto ao muro de uma creche. Mas não há como escapar à convicção de que, ao serem induzidos a repudiar o projeto de pacificação, muitos moradores estão agindo contra seus próprios interesses.

Crimes de Estado

Em São Paulo, a crise tem características muito distintas. Como ocorreu domingo em Sorocaba, criminosos atacam policiais com o objetivo de vingança e para promover o descontrole dos agentes de segurança pública. Sabe-se que a reação da corporação costuma ser irracional e violenta, o que irá necessariamente produzir vítimas indiscriminadamente.

Desde a morte do soldado Sandro Luiz Gomes, já ocorreram pelo menos 14 assassinatos em sete bairros da cidade interiorana, todos com as mesmas características que transformam o Estado de São Paulo em território das chacinas. Dos 14 mortos, apenas dois tinham algum registro criminal, nenhum deles por ação violenta. Mas os jornais paulistas não parecem interessados em esclarecer esse surto de violência e apenas reproduzem o que as autoridades divulgam.

Entre as vítimas encontram-se um pedreiro e um comerciante, que tiveram o azar de estar no lugar onde os assassinos resolveram agir. Tudo indica que, como em outras ocorrências semelhantes, policiais militares estão promovendo uma ação de vingança contra a morte do colega, mas a Corregedoria da Polícia Militar nem abriu investigações, pois não vê relação entre a morte do soldado e a sucessão de chacinas.

Qualquer jornalista com alguma experiência na área perceberia como o ânimo dos policiais – quase sempre à beira de um ataque de nervos – é impactado por ataques como o que vitimou o soldado Gomes. O efeito pode ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento, como no episódio do 4º Distrito de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, onde um técnico em telecomunicações e um investigador, que estavam de plantão, promoveram um tiroteio no mesmo domingo, dia 27, e acabaram matando o jovem médico Ricardo Assanome, porque julgaram que a delegacia estava sendo invadida por bandidos.

São crimes de Estado, cometidos por agentes públicos despreparados, desassistidos e sem liderança. A imprensa paulista não questiona, não levanta uma dúvida, não escala uma equipe para analisar o fenômeno. Os jornais apenas repetem as platitudes das autoridades, longe de reconhecer que, em São Paulo, a polícia é que precisa ser pacificada.

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