Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CADERNO DA CIDADANIA >

Para fortalecer a esfera pública

Por Ana Rita Marini em 15/09/2009 na edição 555

Dois exemplos recentes de organizações que, ao enfrentarem crise interna, desafiam os meios clássicos onde circulam as informações e sugerem reformas na mediação feita pela grande imprensa. Ao não se sentirem contempladas em seus conteúdos pela forma como são abordados pela mídia convencional, instituições como a Petrobras e o Senado resolveram falar de si próprias direto na internet. Especialistas apontam que a prática ajuda a fortalecer a esfera pública e que o ideal, para a boa informação, é combinar ambos os modos de provimento. A tendência vence os limites da produção industrial da notícia e pactua com a democratização da comunicação.


Em meio à crise que assola a Casa, o Senado Federal estreou no mês de agosto, em seu site, uma página específica para o relacionamento com a imprensa e o cidadão, que pretende ‘dar apoio à cobertura jornalística e esclarecer as informações divulgadas pela mídia’. A assessoria de imprensa do Senado explica que costumava fazer uso de um mailing (banco de dados) eletrônico para a cobertura jornalística, mas o método deixou de ser eficaz e a Casa decidiu então criar a página ‘Mídia em Foco‘, realizada pela secretaria de imprensa.


Também em tempos difíceis, no mês de junho, a Petrobras criou o blog ‘Fatos e Dados da Petrobras‘, com a justificativa de apresentar notícias da empresa, garantindo ‘a total divulgação dos esclarecimentos solicitados pela imprensa’. O projeto gerou polêmica. Representantes de veículos tradicionais da grande imprensa ‘gritaram’ contra a forma de atuação da companhia, que ‘se antecipava à mídia’, ao responder através de veículo próprio (o blog) as questões pautadas pelos meios de comunicação.


Afinal, quais são os ruídos na comunicação entre as instituições e a mídia tradicional?


Wilson Gomes, pesquisador e professor de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia, considera que as iniciativas, tanto da Petrobras, quanto do Senado, são excelentes sob todos os aspectos. ‘O Estado e os agentes do campo político têm subutilizado os recursos da internet na sua relação direta com os cidadãos. Dessa forma, têm ficado dependentes da produção industrial da informação, portanto, da lógica da empresa jornalística e dos interesses do campo social do jornalismo’, reflete.


Para o cidadão, conforme Wilson Gomes, é bom que exista a mediação do jornalismo, no sentido de provê-lo de informação política relevante e ao mesmo tempo explicada, contextualizada e interpretada. ‘Mas é bom também que tenha acesso ao que diz de si mesmo o Estado e os agentes públicos, sem intermediários. Caso contrário, a cidadania fica excessivamente dependente’, avalia. O pesquisador justifica que, com duas fontes de informação, é possível se produzir uma opinião ainda mais qualificada e apropriada ao seu próprio interesse, que não necessariamente coincide com o interesse do agente político ou com o interesse do jornalismo.


Wilson Gomes destaca dois dados que considera interessantes no fato: a) o campo político encontrou a forma de driblar a ‘tirania’ dos sound bites ou sonoras (no caso da TV) e das ‘citações’ (no jornalismo impresso e de TV), por meio dos quais a informação industrial materializa a sua organização da voz da política e o seu monopólio da visibilidade da política. Como? No caso da Petrobras, divulgando a totalidade do discurso proferido para que o público saiba qual foi a ‘matéria prima’ (ou bruta!) de onde jornalismo lapidou e esculpiu as suas matérias; b) O Estado brasileiro e as suas autarquias entram, enfim, e já com algum atraso, no universo das mídias sociais. Barack Obama ganhou uma eleição com mídias sociais, o governo brasileiro ainda estava na fase website do uso da internet. Este é o marco, do ponto de vista do professor.


Uso combinado de recursos


‘O sistema industrial de produção da informação, precioso para a democracia, pode se tornar nocivo se funcionar sozinho e controlar o acesso do cidadão a toda e qualquer informação política, ou seja, a informação de interesse da cidadania. O monopólio da visibilidade política pode ser tão ruim quanto qualquer outro’, destaca Wilson Gomes. Portanto, aponta, instrumentos que ofereçam alternativas a este monopólio operam em favor da cidadania. ‘Naturalmente, recursos de comunicação direta com o cidadão são apreciáveis quando combinados com o provimento de informação típicos do modelo da grande imprensa. Qualquer uma das coisas sozinha significaria um empobrecimento da dieta de informação do cidadão interessado em política’, avalia.


Para o cientista social Laurindo Leal Filho, doutor em comunicação, o surgimento dessas novas fontes de informação é resultado das possibilidades tecnológicas abertas pela internet e da falta de pluralidade informativa no Brasil – esta, em função da concentração dos meios de comunicação e do seu alinhamento a pautas noticiosas similares. ‘A internet amplia a possibilidade de acesso do público a fontes informativas que vão além da grande mídia. Só isso é um grande avanço na busca da diversidade de informações necessária para que o cidadão, confrontando versões diferenciadas de um mesmo fato, possa formar a sua opinião’, avalia Laurindo Leal (Lalo).


Lalo destaca que, com o surgimento dos blogs institucionais, a relação entre as fontes e os veículos de informação muda de patamar, tornando-se ‘mais equilibrada’. Até então, explica ele, a fonte, detentora da titularidade da informação, abria mão desse poder, transferindo-o de forma integral para a mídia tradicional, que fazia do conteúdo informativo o que bem entendia. ‘Agora é possível confrontar o informado com o publicado, estreitando-se, dessa forma, a margem de manipulação. E quem ganha é o público, na medida em que as informações tornam-se mais confiáveis – ou pelo menos ‘checáveis’, garante Lalo. Ele considera o blog Fatos e Dados da Petrobras um marco na história da comunicação social brasileira.


Risco na operação


Cético quanto à operação do novo sistema adotado pelas duas instituições, Antonio Carlos Hohlfeldt, professor do Programa de Pós Graduação em Comunicação Social da PUCRS, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom –, acredita que, em tese, todo o esforço de se comunicar é louvável. ‘Parece-me, contudo, que tanto no caso da Petrobras quanto no do Senado, o esforço é de enganar. Mas a culpa não é da ferramenta, e sim de quem a utiliza’, avalia.


Para Hohlfeldt, no caso da Petrobras existe a tentativa de intimidar ou neutralizar o jornalista profissional em sua tarefa e, no caso do Senado, a tentativa de se antecipar à ação da informação, neutralizando-a. ‘Em nenhum dos dois casos é o público quem sai ganhando. Mas isso não significa que a tecnologia em si não seja algo interessante e positivo, se for usada com boa fé’, considera.


Hohlfeldt cita como exemplo a histórica experiência das eleições na Espanha em que Zapatero foi eleito graças ao uso do ciberespaço. ‘Também os zapatistas mexicanos vêm se utilizando desta possibilidade. Isso é altamente positivo. Permite a expressão – coisa fundamental para a democracia – e permite a difusão – que é outro aspecto fundamental da livre comunicação. Contudo, quando usada com má fé, pode permitir o crime’, pondera o professor. E cita um velho dito popular que diz: ‘feita a regra, descoberta a trapaça’. ‘É do homem’, conclui.


Esfera pública fortalecida


Como vantagem do uso desses meios, o presidente da Intercom aponta a transparência, o amplo diálogo, a possibilidade de maior compreensão entre povos e grupos, rapidez, abrangência. ‘Se bem usados, então, a vantagem é, sobretudo, aquilo que sempre se almejou: uma ampla participação popular no sentido de que os políticos vão se preocupar em dar contas e mostrar o que fazem e, de outro lado, o amplo controle por parte da opinião pública. Mas, insisto, se alguém quiser agir de má fé, quem vai impedir?’, reflete Hohlfeldt.


Maria Helena Weber, pesquisadora, professora na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do RS, avalia que, tanto o blog da Petrobras (primeira instituição a usar essa estratégia) quanto a página do Senado ratificam a importância de um espaço para a manutenção do debate entre os discursos midiático e institucional e a disputa de visibilidade e versões. ‘A sociedade sai ganhando’, julga.


‘Acredito que a dimensão digital da democracia contemporânea amplie a visibilidade das instituições e sujeitos da política. Nessa perspectiva, a web amplia as crises e permite o ataque e a defesa de modo institucional (em espaços controlados pelas instituições) e permite o debate aberto, incontrolável e salutar (em diferentes espaços de opinião da web)’, reflete Maria Helena. Em todos os formatos, garante a professora, é possível afirmar que a democracia adquire nova vitalidade, na medida em que – no modo blog ou site ou twitter e os que virão – a esfera pública e a esfera política saem fortalecidas.


‘Na medida em que as instituições e sujeitos da política criam e utilizam estrategicamente novas mídias de interação e exploram a web, é possível disputar ostensivamente versões. Assim, a formação da opinião e da imagem pública, essenciais ao voto, deixam de ser construídas apenas na aferição da mídia convencional, como também o poder dessas mídias poderá perder sua hegemonia’, estima a professora. Ela julga que essas ferramentas representam um grande avanço para a democratização da comunicação, porque permitem ampliar a visibilidade e o debate públicos.


Entre os desdobramentos dessa prática, o jornalista Luis Nassif, especialista em jornalismo eletrônico, aponta em seu blog que essa nova modalidade exigirá de todos – empresas, associações, ONGs e outros – a capacidade de gerar notícias tecnicamente bem feitas – o que abrirá um novo mercado de trabalho para os jornalistas. Segundo ele, os jornais terão que reaprender a fazer jornalismo. ‘A partir do blog, não poderá mais haver pergunta sem resposta’, prevê Nassif. [Com a colaboração de Fabiana Reinholz]

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Da Redação FNDC

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