Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Para lembrar Hiroshima e John Hersey

Por Francisco Ribeiro em 26/08/2008 na edição 500

Matinas Suzuki Jr., no posfácio que escreveu sobre Hiroshima (São Paulo: Companhia das Letras, 2002), enfatiza que o livro de John Hersey é uma espécie de Cidadão Kane do jornalismo, pois lidera todas as listas como a ‘melhor reportagem’ já escrita. Hersey morreu há 15 anos e, em vida, teve a oportunidade de, nos anos 1980, quatro décadas após ter publicado a reportagem – primeiramente na revista The New Yorker, depois em forma de livro –, voltar a Hiroshima e completar seu trabalho. Muito já se falou sobre Hiroshima, as seqüelas da bomba, mas, passados 63 anos, parece impossível, assim como o holocausto, curar o trauma deixado na alma da humanidade.

Momentos culminantes, como em casos de assassinatos – Martin Luther King, John Lennon – nos remetem à perspectiva de querer voltar no tempo, alterar a história. Ilusão inútil, leite já derramado, mas que não altera a vantagem do historiador de poder documentar-se e comentar fatos ocorridos como aqueles de 6 de agosto de 1945. Cabe acompanhar o fatídico andar do relógio daquela trágica manhã.

Oito horas, 14 minutos, mais alguns segundos. O coronel Paul Tibbets Jr., comandante do bombardeiro B-29, alcunhado de ‘Enola Gay‘, faz um vôo tranqüilo, sem oposição, pois os poucos Mitsubishi, se ainda restam, dedicam-se a ataques kamikazes contra a frota americana no Pacífico. O militar olha para baixo e confere, ainda intacta, a clássica descrição da cidade de Hiroshima: bela, em forma de leque, dividida em seis ilhas formadas pelos braços do rio Ota. Está quente e, pela cidade, circulam bondes e trabalhadores. Não é um dia normal, pois o país, já há algum tempo, vem sendo destroçado pelos americanos, mas, estóicos e disciplinados, os japoneses resistem em capitular.

O coronel cumpre ordens (mesma argumentação dos nazistas) e tem a sorte de estar lutando pelo lado vencedor. Em sua ‘ingenuidade’, pode imaginar estar carregando apenas um bombão, um pouco mais destrutivo do que aqueles que, nos últimos seis anos, castigaram a Europa, a Ásia e o norte da África. Até aquele momento, 67 cidades japonesas já foram bombardeadas e, só em Tóquio, morreram 100 mil pessoas. Os habitantes de Hiroshima aguardam a sua vez e fazem preparativos tradicionais de defesa antiaérea.

Oito horas e 15 minutos. O coronel despeja sua carga mortal. Percebe um imenso clarão silencioso e, logo depois, a aglomeração de gases sob a forma de um cogumelo gigante. Missão cumprida, pode retornar à base. Ele ainda não sabe que, embaixo, cerca de 100 mil, dos 240 mil habitantes da cidade, morreram na hora, outros milhares perecerão logo depois.

Infância incomum

A Segunda Guerra Mundial é pródiga em relatos de populações sob intenso bombardeio: Varsóvia, Londres, Stalingrado, Dresden, Berlim. A singularidade de Hiroshima reside no fato de ter sido a primeira experimentação efetiva de uma arma nuclear. Três dias depois, o experimento e os traumas subseqüentes seriam partilhados com Nagasaki. Não havia necessidade, o Japão estava exangue, a rendição era uma questão de dias. Mas, fiel à máxima de que a vingança é um prato que se come frio, era necessário que os japoneses quitassem sua dívida em relação a Pearl Harbor. Os russos também aproveitariam o estado terminal japonês para declarar guerra e surrupiar as ilhas Sakalinas, indo à forra pela derrota de 1905. Ninguém esquece.

Mas, afinal, o que significa uma cidade ser atingida pela bomba atômica?

Coube a Hersey a aventura de, entre 25 de maio e 12 de junho de 1946, portanto quase um ano após a tragédia, apurar os fatos em Hiroshima. Ele levaria outras seis semanas escrevendo a reportagem. Impressionados pela narrativa, os editores do The New Yorker optaram por fazer uma edição monotemática. Resultado: os 300 mil exemplares esgotaram-se em poucas horas. O mesmo sucesso editorial seria obtido quando, logo depois, a reportagem foi transformada em livro.

Hersey teve uma infância incomum, pois, filho de missionários americanos, nasceu em Tientsin, China, vivendo lá até os 11 anos de idade. Formou-se em Yale, e, logo em seguida, como correspondente na China e na Rússia, escreveu artigos para as revistas Time, Life e The New Yorker. Já famoso, e ganhador do prêmio Pulitzer por Um sino para Adano, tinha 32 anos quando foi escalado para ir a Hiroshima. Hersey tomou como modelo de construção narrativa o relato escrito por Thornton Wilder, A ponte de São Luiz Rei, sobre uma catástrofe ocorrida no Peru, descrita sob o ponto de vista de cinco sobreviventes.

O grande clássico

Não se trata de pastiche, é uma questão de método. Narrativas são, no bom sentido, cheias de truques, tanto do ponto de vista estrutural, como para prender a atenção do leitor. Hersey construiu sua reportagem sob o ponto de vista de seis personagens – duas mulheres e quatro homens, sendo um alemão –, personificando a tragédia, ou, como observou Matinas Suzuki Jr.:

‘[…] ele aproximou a abstração ameaçadora de uma bomba atômica à experiência cotidiana dos leitores. O horror tinha nome, idade e sexo. Ao optar por um texto simples, sem enfatizar emoções, ele deixou fluir o relato oral de quem realmente viveu a história. O tom da reportagem é um prolongamento da dor silenciosa que os sobreviventes de Hiroshima notaram nos conterrâneos feridos’. (Hiroshima, p. 168)

Assim, o leitor acompanha o dia-a-dia, as agruras, o sofrimento, a luta contra as doenças causadas pela radiação, a batalha contra o preconceito, a superação da senhora Hatsuyo Nakamura, da senhorita Toshiko Sasaki, dos doutores Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki, do reverendo Kiyoshi Tanimoto e do padre Wilhelm Kleisorge. Gente de carne e osso com coragem e força para ir em frente, mostrar solidariedade, empreender ações exemplares que dignificam a espécie humana. Eles também representam o conjunto de pessoas que, no Japão, são conhecidas como hibakushas: pessoas que sofrem os efeitos da bomba.

Libelo contra a utilização de armas atômicas, Hiroshima também é uma aula de jornalismo literário ou reportagem de imersão. A tradição é longa, remonta ao século 19. Os sertões, de Euclides da Cunha, publicado primeiramente sob forma de reportagem para O Estado de S.Paulo, é o grande clássico do período no Brasil. Conforme Suzuki, ‘o termo novo jornalismo, por exemplo, foi usado em 1887 por Mat Arnold para descrever o estilo vivo das reportagens que W.T. Stead escrevia para a Pall Mall Gazette‘ (Hiroshima, p.179).

Empatia e observação

É possível capturar, via internet, trechos de artigos de Stead escritos sobre favelas londrinas. O mesmo nicho social que, anos mais tarde, Jack London exploraria para escrever The people of the abyss (O povo do abismo). Deste último, a lembrança do porta-bandeira, alcunha dada a miseráveis que, proibidos de dormir nos parques públicos da rainha Victoria, eram obrigados a caminhar, ‘marchar’ a noite inteira. London também cobriria a guerra entre a Rússia e o Japão (1904-1905).

Enfim, Hersey é um dos grandes exemplos de repórteres-escritores que, no Brasil, dada a falta de espaço nos jornais, mantêm o gênero através de livros, como é caso, por exemplo, de Caco Barcelos. A revista The New Yorker, uma senhora robusta de 83 anos, saudada por haver publicado alguns dos maiores textos da imprensa mundial, possui uma galeria desses interessantes narradores, tais como Lílian Ross (autora de Film, um painel sobre Hollywood) que, há algum tempo, numa entrevista para a Folha de S.Paulo, quando indagada se era possível ensinar jornalismo literário, deu o seguinte depoimento:

‘No momento, procuro fazer isso com um jovem em troca de seus conhecimentos como cozinheiro. Ele é um ótimo `chef´ e quer ser um repórter-escritor. Acredito que possa ensinar a ele o que considero ser a essência da atividade, mas até um certo ponto. Isso equivale a apenas 10% do que realmente importa. O restante depende de características individuais: história de vida, experiência, natureza, autodisciplina, curiosidade, humor, entusiasmo, paixão, originalidade, coragem, biologia, determinação, idade, ego e energia. Vigilância em relação à sensibilidade dos outros; capacidade de empatia e de observação enquanto mantém a imparcialidade; e a habilidade de resistir a fazer julgamentos morais das outras pessoas’.

Parece pouco?

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Jornalista, mestre em Lingüística pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, Paris, França, doutor em Letras pela PUC-RS, autor de João Antônio por João Antônio: literatura e malandragem

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