Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA NA ERA BUSH

Paul Krugman

06/04/2004 na edição 271

‘Algo engraçado aconteceu esta semana com David Letterman, apresentador do programa de TV Late Show. Na verdade, só o começo foi engraçado. E o final sem graça se encaixa num padrão preocupante.

Segunda-feira, Letterman apresentou um videoclipe de um garoto bocejando, impaciente, durante um discurso de George W. Bush. Foi imperdoável. Uma Casa Branca que acha engraçado Bush fazer piadas sobre armas de destruição em massa que não foram encontradas deveria ser capaz de levar discursos maçantes na gozação.

A CNN divulgou o clipe terça-feira, antes de um comercial. Em seguida, o âncora da CNN Daryn Kagan informou aos telespectadores que o clipe era falso: ‘A Casa Branca nos disse que a imagem do garoto, embora engraçada, foi editada naquele vídeo.’ Mais tarde, outro âncora fez uma emenda: o menino estava naquela cerimônia, mas não no local em que foi mostrado no vídeo.

Terça-feira à noite, Letterman não se mostrou abalado: ‘Isto é a mais absoluta das mentiras. O garoto estava lá, sem dúvida, e sem dúvida ele fez tudo o que foi mostrado no videotape.’

Mas eis a parte realmente interessante: a CNN voltou atrás, mas disse a Letterman que Kagan ‘errou’, e que a Casa Branca não foi a fonte da falsa reclamação. Então, quem foi? E, se a reclamação não veio da Casa Branca, por que a CNN foi em frente sem checar?

Resumindo, a CNN aceitou uma intimidação que atribuiu à Casa Branca. Quando a intimidação ‘deu pra trás’, a emissora considerou a sua declaração anterior sem efeito, e disse que a Casa Branca não foi a responsável. Parece novidade?

No comentário desta semana, eu mencionei uma declaração de Wolf Blitzer, da CNN. Vou mencionar a frase dele por inteiro, para tirar dúvidas: ‘O que as autoridades basicamente vêm afirmando, desde o fim de semana, é que Richard Clarke (ex-assessor da Casa Branca para questões relacionadas ao terrorismo), a partir de seu ponto de vista, era um ex-membro descontente do governo, irritado por não ter conseguido uma certa promoção. Ele está lançando um novo e instigante livro, que pretende promover. Ele quer ganhar algum dinheiro (com o livro), e a respeito de sua vida pessoal, elas também sugerem que há alguns aspectos estranhos.’

Citado na minha coluna, Blitzer tentou justificar suas palavras, afirmando que a sua declaração na verdade era um questionamento, e acrescentando que ‘eu não estava me referindo a supostas fontes não identificadas da Casa Branca, como alegou’. Como sou idiota: eu ‘aleguei’ que Blitzer disse algo porque ele, na verdade, disse isso, e me referi a ‘supostas fontes não identificadas’ porque ele não deu o nome das fontes.

Blitzer agora diz que estava se referindo a declarações feitas em seu próprio programa por um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Jim Wilkinson. Mas é difícil inferir as declarações de Wilkinson como dúvidas sobre a vida pessoal de Clarke.

Ao contrário, Wilkinson parece ter questionado a sanidade mental de Clarke, ao dizer: ‘Ele senta e se vê fazendo cânticos com Bin Laden, e Bin Laden tem um místico controle sobre a mente das autoridades americanas. Isto é coisa do seriado Arquivo X.’ Será?

Na página 246 de seu livro Against All Enemies, Clarke lamenta a forma como a invasão do Iraque, na sua opinião, fez o jogo do grupo Al-Qaeda: ‘Bush deu a esse inimigo exatamente o que ele queria e precisava. É como se Osama bin Laden, escondido num ponto remoto de uma montanha, tivesse o controle sobre a mente de George Bush.’ Isso não é coisa do seriado Arquivo X, é um expediente literário destinado a enfatizar o quanto a nossa política foi mal concebida. Blitzer deveria pedir a Wilkinson para se desculpar, e não reapresentar esses comentários para fazer sua própria defesa.

Vejam, eu entendo o motivo pelo qual as grandes organizações jornalísticas devem respeitar as autoridades. Mas as autoridades não deveriam ter a certeza – e Wilkinson tinha, obviamente – de que podem fazer acusações pesadas sem nenhum receio de serem contestadas ou de serem responsabilizadas.

E as autoridades não deveriam ter o poder de espalhar histórias sem responderem por isso. Se um membro do governo quer dizer algo ‘on the record’, isso é uma questão, porque ele vai pagar um preço se as suas acusações se mostrarem falsas. Mas, se ‘membros do governo’ não identificados espalham rumores contra os críticos da administração, os jornalistas têm a obrigação de checar os fatos antes de darem a esses rumores uma exposição nacional. E não há desculpa para espalhar boatos cuja procedência não foi checada, só porque eles partiram ‘da Casa Branca’, para em seguida negar a ligação com a Casa Branca, quando os rumores se mostrarem infundados. Isso significa, simplesmente, dar ao governo licença para difamar impunemente.’



SOFTWARE LIVRE
Luís Nassif

Software livre e Microsoft’, copyright Folha de S. Paulo, 3/04/04

‘Seria importante que houvesse mais análise em torno da questão do software livre, por parte do governo. Especialistas na área, muitos deles críticos em relação à posição dominante do Windows, da Microsoft, consideram que o governo federal está adotando uma atitude temerária, com profundos desdobramentos negativos, se quiser subordinar todas as aplicações da área pública ao software livre.

De empresas como a brasileira Microsiga ao Cesar (ligado à Universidade Federal de Pernambuco), a percepção geral é que o software livre pode ter aplicações úteis, pode ser uma ferramenta de pressão para reduzir o poder de monopólio da Microsoft, mas jamais poderia ser o instrumento fundamental para desenvolvimento de softwares públicos ou exportação.

Um dos principais especialistas da área, Silvio Meira, do Cesar, lembra que o conceito de software livre é o de um sistema ao qual as pessoas têm acesso livremente, podem trabalhar e desenvolver em cima dele e passar para outras pessoas, que acrescentarão mais implementações.

O primeiro ponto sério é a falta de responsáveis pelo software. Surgindo um problema ou um grupo desenvolvedor se desfazendo -já que não existe uma sustentabilidade econômica para grande parte deles-, fica-se na mão.

Se se quiser exportar software livre, a situação é mais complicada. Uma política de exportação pressupõe direitos autorais, patentes, licenças. Como trabalhar um setor sem a proteção da patente? Cada vez mais a tecnologia e o software são produtos integrados, em que as ações nacionais têm que levar em conta o mundo.

Não há dúvidas sobre o risco que representa o monopólio da Microsoft. Mesmo antigos desenvolvedores -como a própria Microsiga- hoje enfrentam a concorrência da Microsoft na área de softwares de gestão. Ou seja, a sede da Microsoft não tem fim.

Mas o caminho mais adequado não é o de tentar destruir a Microsoft. Primeiro porque não se vai conseguir. Segundo porque significaria alijar o Brasil do maior mercado consumidor do mundo -que são os usuários da plataforma Microsoft.

O caminho mais adequado seria combater a empresa no campo do direito econômico. O episódio da União Européia, de aplicar uma multa bilionária à Microsoft, é fundamental. Menos pelo valor, mais pelo sentido político.

Na visão de Silvio Meira, o caminho mais adequado consistiria em tratar os produtos da Microsoft como ‘utilities’ -como a eletricidade e a água tratada. Ou seja, reconhece-se que, por fundamental e monopolista, não se pode deixá-los subordinados às regras de mercado, porque aí a empresa imporia -como impõe- seu poder de monopólio, jogando o preço das licenças nas alturas.

Como ‘utilities’, os produtos teriam os preços monitorados, com margens reguladas de lucro. A decisão da União Européia abre espaço para esse tipo de decisão. O mesmo pensam os especialistas da Microsiga. Mas esse caminho teria de ser procurado no campo do direito internacional.

Enquanto isso, no Brasil, a área pública deveria restringir o software livre nos nichos que as softwares houses já identificaram: sistema operacional Linux, bancos de dados livres etc.’



INTERNET & SPAM
Grant Gross

‘Spam aumenta 14,2% nos EUA apesar da legislação’, copyright IDG Now!, 1/4/04, 17h51

‘O número de spams continua a crescer nos Estados Unidos apesar da lei que entrou em vigor em janeiro, revelou nesta quinta-feira (01/04) a distribuidora de produtos anti-spam Commtouch Software.

O centro de detecção de spams da companhia constatou que o número de ‘ataques’ de spam realizado por dia subiu de 350 mil no final de 2003 para 400 mil em março, de acordo com Avner Amran, vice-presidente da companhia.

Parte do problema que ocorre com a lei de controle ao marketing e pornografia não solicitados (CAN-SPAM, em inglês) é que 40% das mensagens não solicitadas partem de fora dos Estados Unidos, conforme destacou o executivo.

O país que mais envia spams fora dos Estados Unidos é a China, com 6% de participação. A Coréia do Sul gerou 5% do spam detectado pela Commtouch, enquanto o Canadá foi responsável por 4% e o Brasil por 3%.

A CAN-SPAM exige que mensagens de marketing exijam um endereço de remetente válido para que as companhias que não queiram mais receber as mensagens possam fazer o pedido. A lei também permite que a Federal Trade Commission (FTC) implante uma lei vetando tais mensagens, semelhante à lei anti-telemarketing.

Os apoiadores da CAN-SPAM afirmam que violações da lei podem ser punidas com multas ou prisão. Os procuradores do Estado ou da FTC têm autoridade para abrir ações contra os spammers, com multas estimadas em até US$ 6 milhões ou até cinco anos de cadeia.

Para Amram, os procuradores podem ajudar nos esforços da CAN-SPAM. ‘Certamente ajudará, já que as pessoas ouvirão sobre os esforços e poderão ficar assustadas com as medidas. Isso não ajudará ao máximo, mas ainda existem várias maneiras em que a CAN-SPAM pode ser melhorada’.’



Paul Meller

‘UE pressiona países sobre leis anti-spam’, copyright IDG Now!, 1/4/04, 10h46

‘A Comissão Européia enviou uma advertência final para oito Estados da União Européia nesta quinta-feira (01/04) por terem fracassado em adequar suas leis nacionais à legislação do grupo designada para combater o spam e controlar o uso de ‘cookies’.

Um alerta inicial havia sido enviado a nove países em novembro do ano passado, mas apenas um deles, a Suécia, tomou medidas para se adequar à situação. O alerta final foi direcionado a França, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Finlândia, Grécia, Holanda e Portugal. Caso tais nações não tomem as medidas necessárias em dois meses, estarão sujeitas a ações legais perante a Corte Européia de Justiça, em Luxemburgo.

A Comissão manterá a pressão sobre os Estados membros que não implementarem a legislação assinada em 2002, declarou o órgão em um comunicado. A iniciativa é vital para garantir a privacidade e proteção de dados de usuários de internet, afirma a UE.

A medida sobre privacidade e comunicações eletrônicas estabelece várias regras para a proteção de dados pessoais em comunicações móveis e fixas, incluindo a internet.

Ela determina a eliminação dos e-mails não-solicitados, os spams, em toda a União Européia, e estabelece regras para a instalação de cookies em computadores pessoais. Cookies são pequenos arquivos enviados por um webserver e armazenados em um navegador da web. Eles podem ser utilizados para gravar as preferências de navegação ou identificar o visitante em determinados sites. A Comissão afirma que essa lei aumentará também a confiança nos serviços eletrônicos e no e-commerce.

Em relação ao spam, as obrigações legais previstas pela medida devem ser completadas por outras ações que ajudarão a UE a barrar as mensagens indesejadas. Tais ações focam no esforço de cada país membro, além da adoção de soluções técnicas e auto-regulatórias da indústria, consumidores, e cooperação internacional.

O prazo final para a incorporação das normas em leis nacionais foi 31 de outubro de 2003, mas apenas seis países membros acataram tal determinação.’



INTERNET & BLOGS
Marianne Maldonado

Blogs: a invasão das páginas pessoais’, copyright O Globo, 31/03/04

‘Desde o início da humanidade, o homem está buscando a melhor maneira de expressar seus pensamentos e idéias e torná-los conhecidos no mundo. Hoje, graças à evolução da tecnologia é possível publicar online o que se quer expressar, de modo simples e gratuito, em um novo tipo de página chamada weblog ou blog.

Os blogs são sites pessoais organizados cronologicamente e abertos a observações, perspectivas, notícias, comentários e links para outras páginas de interesses similares aos de seu autor. Variam muito em conteúdo e desenho, pois o dono do espaço tem a liberdade para fazer praticamente o que quiser em sua página.

Com a ajuda de novos softwares, como Greymatter, Movable Type e Slashcode, ou com o registro (grátis) em páginas como blogspot.com ou blogger.com, pessoas com qualquer nível de conhecimento sobre computadores podem facilmente começar seu próprio espaço em questão de minutos.

Artistas, especialistas em temas particulares, profissionais e pessoas comuns interessadas em manter um diário pessoal online entraram na febre dos blogs.

Usos variados e diversos nas páginas pessoais

O DJ inglês Moby, por exemplo, comunica-se com seus fãs por meio de sua página, onde aborda temas de espiritualidade e da atualidade. Doc Searls, editor do ‘Linux Journal’, também entrou para o clube e escreve diariamente sobre sua vida e a indústria. O ator americano Jeff Bridges solta sua imaginação no site jeffbridges.com, e até a prestigiosa escola de leis da Universidade de Harvard já conta com sua própria página: blogs.law.harvard.edu.

Na América Latina, o boom dos blogs mostra o constante crescimento da tecnologia na região. No Brasil, por exemplo, já há portais, como o blogger.globo.com, que servem de ponto de encontro da comunidade blogueira. A comunidade continua crescendo, e alguns analistas estimam que o número de usuários se aproxima de dois milhões.

A diferença das publicações regulares para os blogs é que estes são mais dinâmicos, porque o seu conteúdo muda cada vez que o autor tem algo a dizer: uma, duas, três ou várias vezes ao dia. Essa interatividade é o que os torna peculiares, já que as pessoas têm a oportunidade de seguir o passo-a-passo das andanças do autor.

Essas novas plataformas gratuitas dão liberdade para que os usuários possam realmente soltar sua imaginação e tornar-se eles mesmos os editores, escritores, desenhistas e divulgadores.’



Annette Sanchez

Internet: moderno ponto de encontro’, copyright O Globo, 31/03/04

‘O moderno ponto de encontro não tem rosto nem voz e é frio como um chip. Acusa-se a tecnologia de isolar o homem moderno de seu meio, deixando nenhum remédio exceto aceitar a tela e o teclado para vencer sua solidão. Cada vez mais, sem que ninguém se envergonhe disso, a internet torna-se a esperança dos solteiros que esperam encontrar a sua cara-metade.

Sites como o popular Match.com passaram de curiosidade para um serviço completamente normal, por onde passam dezenas de milhares de usuários registrados em busca de sua alma gêmea, inclusive os latino-americanos.

– Segundo os estudos que temos feito, os sites para solteiros são populares porque apelam para um sentimento humano, que é querer estar acompanhado. Os sites mais avançados e populares são os americanos, inclusive dentro do mercado latino-americano – disse José Hernández, diretor de produtos da Zonai Networks, de Porto Rico.

Nesses sites, o usuário em busca de alguém só tem que preencher o perfil descrevendo seu físico, seus passatempos e interesses. Se depois deseja iniciar comunicação com a outra pessoa que combina com suas qualificações e gostos, tem que pagar uma cota que lhe permitirá fazer o primeiro contato.

Casais cibernéticos teriam um noivado mais curto

A doutora Andrea Baker, professora associada de Sociologia da Universidade de Ohio, descobriu durante uma pesquisa sobre as relações via internet que os casais que se conhecem através da internet têm interesses profissionais e de diversão muito similares.

Além do mais, estes casais tiveram a oportunidade de escolher a sua outra metade entre um grupo mais amplo de pessoas do que poderiam ter conhecido no seu dia-a-dia, o que aumenta a possibilidade de estilos de vida e personalidades compatíveis resultarem em uma relação de sucesso.

Os casais que se conhecem pela internet tendem a relacionar-se primeiro por e-mail, chat e telefone, sem enfatizar demasiadamente a atração física, o que costuma impulsionar uma relação, mas também ocultar discrepâncias ou temas conflitantes que mais tarde aparecem na relação, afirma Baker.

Segundo técnicos, as idades dos internautas que regularmente se registram nesse tipo de serviço oscilam dos 25 aos 40 anos, e se dividem em partes iguais quanto ao gênero.

Um estudo realizado pelo Match.com, que também oferece seu serviço em espanhol, revelou que os casais cibernéticos estão inclinados a ter um noivado mais curto antes de contrair matrimônio do que os casais tradicionais.

Os participantes da pesquisa apontaram a personalidade e o senso de humor de seus parceiros como as características que lhes conquistaram. Mais da metade destes casais conhece um amigo, colega ou um membro de sua família que encontrou a sua cara-metade navegando na internet.’

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