Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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CADERNO DA CIDADANIA >

Pelo bem do rádio

Por Francisco Djacyr S. de Souza em 14/07/2009 na edição 546

‘Quis fazer uma homenagem ao rádio. Apesar das novas mídias, todo mundo fala que é o fim do rádio, mas o rádio ainda é um veículo fortíssimo. Principalmente nos lugares mais afastados, é o rádio que chega primeiro com a notícia, o serviço e a música’ (Raimundo Fagner – jornal O Povo, 08/07/09)

Lendo um depoimento do cantor Raimundo Fagner ao lançar seu próximo CD, denominado Uma canção no rádio, senti ao mesmo tempo orgulho e tristeza por ver que ainda tem gente que acha que o rádio é importante e por perceber que mesmo com essa importância ainda há muito desprezo e descaso para com este meio de comunicação que insiste em fazer parte da vida dos brasileiros mesmo com ações de desinteresse de outras mídias, de falta de investimento, de falta de união da classe em busca de seu desenvolvimento e viabilidade e, infelizmente, pouco poder de organização dos ouvintes, que são o elo mais fraco da cadeia e descaracterizados de sua importância no momento em que o rádio se fecha cada vez mais a uma satisfação em meio a mudanças e transformações que nem sempre são de interesse dos usuários da comunicação radiofônica.

Neste momento, vejo através de e-mail um depoimento de um radialista dos mais importantes de nosso estado que provoca indignação e tristeza por saber o que se faz no rádio e quais as formas de destruição que vêm sendo empregadas pelos que se dizem seus donos e que não estão nem aí para o que pensam os ouvintes ou qual o seu interesse, ou suas idéias sobre o rádio. Neste depoimento, o radialista confessa que saiu de uma rádio de grande audiência porque quiseram reduzir seu salário pela metade, não respeitaram seu nome, não valorizaram sua história e experiência, nem pensaram em momento algum no ser humano que estava por trás do locutor. Imagine só o que este hoje sente, sendo descartado pelo rádio, sendo desprezado pela mídia e sendo substituído talvez até por preconceito de idade. Essas são nuances do mundo do rádio que muitos empurram para debaixo do tapete e fazem de conta que não existem.

Domínio da política e do dinheiro

Há grandes personagens do mundo televisivo que vieram de onde? Do velho amigo rádio e aprenderam de tudo neste meio em termos de comunicabilidade, respeito, engajamento e o poder do improviso e da visão imediata das coisas que só o rádio pode proporcionar. Por outro lado, temos aí no nosso rádio AM grandes nomes que têm um pensamento egoísta e não cooperativo, pois como diz o velho ditado ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

As transformações que ora ocorrem no rádio cearense, e como temos atestado em todo o país, promovem sua destruição e perda de identidade. Vejamos o caso das rádios evangélicas e católicas: onde está a pluralidade cultural no nosso povo? Não é possível que rádio seja só oração e exorcismo; rádio sempre foi muito mais e essa visão equivocada não faz parte da tradição de nosso povo. No caso de grandes rádios de nosso estado, a participação popular vem sendo freada cada vez mais e na maioria dos casos o ouvinte idiota fica falando ao vento sem que sua mensagem tenha repercussão alguma ou promova algum debate. Na nossa cidade, algumas rádios utilizam-se de ‘leões de chácara’ telefônicos que filtram a mensagem e só deixam ir ao ar o que interessa ao desejo comercial da rádio ou de seus locutores.

Não queremos ensinar ninguém a fazer rádio, não queremos dizer o que deve ser feito. Apenas queremos externar nossa impressão sobre atitudes que têm objetivo claro de destruir o rádio e deixar seus destinos nas mãos de quem não se interessa pelos interesses populares nem faz nada por um processo de mudança que virá mesmo que os ricos não queiram. O rádio tem hoje domínio quase absoluto dos interesses da política e do dinheiro – se você é rico ou se tem prestígio político, pode falar à vontade e espaços lhe serão dados plenamente. Há programas de rádio que, no momento em que o político está falando, cortam a participação do ouvinte para que este não seja questionado nem inquirido pelo povo que sabe que quase tudo que se diz e que se faz na política representa interesse próprio, e não o que o povo quer.

Uma massa sem cérebro

É difícil imaginar que as concessões de rádio sejam engendradas para não dar lugar ao povo nem suas representações oportunidade de poder controlar o meio radiofônico nem ter espaço popular neste meio. Algumas grandes rádios de Fortaleza têm programas onde a opinião do ouvinte não é ouvida e as notícias se configuram num grande espetáculo de bajulação de políticos, o que dá muito dinheiro e prestígio aos locutores que se deixam levar por este ato.

A situação do rádio é grave, temos radialistas em situação precária, temos exemplos de operadores de áudio e radialistas que morreram na sarjeta sem sequer uma palavra de alento ou apoio dos proprietários e diretores das rádios. Mas ninguém faz nada. Preferem criticar o sindicato sem a compreensão de que o sindicato é formado por uma classe que muitas vezes prefere um punhado de moedas, ao invés de constituir uma verdadeira cidadania tanto na vida radiofônica quanto na própria vida cotidiana.

Dói muito saber que nós, ouvintes, somos às vezes ridicularizados e chamados simplesmente de ‘malas’ e que nossa opinião não vale nada no contexto do rádio moderno, que se fecha aos ouvintes que todos pensam ser uma massa sem cérebro, sem idéia e sem poder de reflexão. Nossa, como estão enganados…

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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