Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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Pesquisas eleitorais, realidade e ficção

Por Lilia Diniz em 18/10/2012 na edição 716

O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (16/10) pela TV Brasil discutiu a divulgação de pesquisas de intenção de voto pela mídia, tema já tradado pelo programa em diversas ocasiões. Publicadas exaustivamente durante as campanhas eleitorais, as pesquisas ganham força na reta final. E, na véspera da votação, números e gráficos pululam as páginas dos jornais com a previsão do resultado das urnas.

Surpresas marcaram o resultado do primeiro turno da eleições municipais em diversas capitais brasileiras. A reviravolta mais significativa ocorreu em São Paulo, onde as pesquisas apontavam um empate entre os três principais candidatos. De acordo com os institutos de pesquisa, José Serra, Fernando Haddad e Celso Russomanno tinham, cada um, cerca de 26% das intenções de voto. Apuradas as urnas, Russomano ficou de fora do segundo turno, quadro não previsto nas pesquisas e ignorado pela mídia.

Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo duas especialistas em pesquisas de opinião: Márcia Cavallari, diretora-geral do Ibope Inteligência, e a socióloga e pesquisadora Fátima Pacheco Jordão. Formada em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Connecticut (EUA), Cavallari está há 30 anos no Ibope. Fátima Pacheco Jordão é diretora da Fato, Pesquisa e Jornalismo. Participa do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), do Instituto Patrícia Galvão Comunicação e Direitos e do Instituto Vladimir Herzog.

A leitura dos números

Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines sublinhou que o eleitor precisa ser alertado para o fato de que as pesquisas de opinião não são infalíveis. Para Dines, é preciso examinar como a mídia apresenta esses resultados: “Uma palavra mal empregada pode subverter um dado rigorosamente objetivo e induzir o cidadão ao erro. A utilização abusiva das sondagens na cobertura jornalística pode produzir perigosas distorções e efeitos colaterais no próprio processo eleitoral. A obsessão pelos números tira da disputa seu elemento fundamental: o confronto de ideias e de programa”, afirmou [ver íntegra abaixo].

No debate ao vivo, Mônica Cavallari ressaltou que as pesquisas têm o papel de retratar opinião e a evolução do pensamento dos eleitores ao longo de todo o processo. A representante do Ibope explicou que desde o início do mês havia uma tendência de queda de Celso Russomano, e que é mais importante analisar a sequência das pesquisas do que o resultado de uma delas isoladamente.

“A pesquisa da véspera mostrou que o Russomanno caía ao ponto em que Haddad e Serra subiam”, disse. “E, sim, naquela pesquisa da véspera havia os três disputando quem ia para o segundo turno. O que não quer dizer que no momento em que nós terminamos a pesquisa a tal tendência de queda de Russomanno e de crescimento de Haddad e Serra não tenha continuado”. Para Mônica, a pesquisa é uma informação a mais para o eleitor, que deverá escolher se fará uso estratégico desses dados para decidir o seu voto.

Opinião flutuante

Mônica Cavallari discorda de que as pesquisas publicadas na véspera do pleito estivessem erradas. Na avaliação da representante do Ibope, os estudos mostravam um alto grau de volatilidade dos eleitores. A sondagem realizada em São Paulo na véspera da eleição apontou que 28% dos eleitores não mencionavam espontaneamente o nome de nenhum candidato. “Esse número pode mudar totalmente um resultado. Eu não sei para onde eles vão e eu não tenho como adivinhar”, disse a pesquisadora. Como essa parcela de eleitores ainda está em pleno processo de decisão de voto, não é possível determinar com precisão os resultados.

A cobertura que a mídia faz das eleições não pode levar em conta apenas a divulgação dos resultados das pesquisas eleitorais, sobretudo nas esferas municipais, na opinião de Mônica Cavallari. “O que, de fato, ele quer ver é a discussão programática da cidade, entender as diferenças das propostas de um e de outro”, disse. A diretora do Ibope ressaltou que as pesquisas não são infalíveis e que há um mito de que as pessoas votam de acordo com o resultado das pesquisas. Mônica ponderou que se isso, de fato, ocorresse, nenhuma pesquisa se aproximaria do resultado real. Os candidatos que estivessem na frente nas primeiras sondagens acabariam vencendo a eleição. 

Nas campanhas municipais é comum que ocorram viradas bruscas porque a eleição é dinâmica e as mudanças são intensas e rápidas. Mônica destacou que há uma tendência crescente de os eleitores decidirem o voto na reta final da campanha.

Sondagem vs. realidade

Outro mito é o de que o candidato à reeleição que tem um determinado grau de rejeição no início da campanha não consegue se manter no cargo. No primeiro turno, de acordo com Mônica Cavallari, diversos candidatos que se encaixavam nesse perfil acabaram vencendo. “Nosso histórico ainda não é grande o suficiente para tirarmos conclusões determinísticas dessa forma. A gente só sabe, de fato, o que vai acontecer na eleição quando o eleitor entra na cabine, vota e acabou”, enfatizou a especialista. A opinião pública é dinâmica e responde prontamente aos fatos que ocorrem durante a campanha, como a veiculação de notícias, o horário eleitoral e a discussão de propostas para a cidade.

Dines levantou a possibilidade de as pesquisas de intenção de votos deixarem de ser publicadas pouco antes do pleito, para não tutelar o eleitor. Fátima Pacheco Jordão não concorda que os eleitores sejam tutelados pela estatística. Na avaliação da socióloga, há uma pequena parcela da população que vê as pesquisas e usam essa informação para tomar a sua decisão – o chamado voto estratégico.

A lógica da imprensa é diferente das ciências exatas, na avaliação de Fátima. “O jornalista vê eleição como um campo de futebol onde os jogadores são aqueles que estão em campo e a torcida é o eleitorado. O jornalista esquece que a torcida marca gol. E é nesse aspecto que o eleitor tem o direito de ser informado e o jornalista tem que refletir e reorganizar o papel do eleitor. Não são pesquisas, são expressão de como pensam os eleitores”, disse socióloga.

Decantação do voto

Com a experiência de décadas de análise de pesquisas qualitativas, Fátima Jordão explicou que os eleitores, cada vez mais, estão conseguindo separar o que é verdadeiro em um candidato daquilo que é apenas criação do marketing. “Eles têm uma noção mais clara do que a gente imagina. Eles têm uma consciência bastante forte inclusive dos cortes, dos ângulos. Muitas vezes nós captamos: ‘olha, vocês filmaram esse comício com uma câmera muito fechada para mostrar que tinha bastante gente. Tinha pouca gente, porque eu fui lá e vi’”, disse a pesquisadora. O eleitor tem um repertório de televisão e de mídia bastante sofisticado e percebe inúmeros exageros, como o excesso de maquiagem para que os candidatos se apresentem melhor no vídeo.

Os eleitores, na opinião de Fátima, estão compreendendo que o segundo turno é uma oportunidade para conhecer mais a fundo as propostas dos candidatos. Nos debates promovidos pelos canais de televisão e no horário eleitoral gratuito, os políticos se enfrentam de forma mais direta do que na fase inicial da campanha. “Isso torna ainda mais complexa a questão da decantação desse voto; a intenção de voto demora mais [a se consolidar] no segundo turno. Aparentemente, os dados estão resolvidos, porque a pesquisa pergunta ‘e se a eleição fosse hoje, como você votaria?’ Só que a eleição não é ‘hoje’”, explicou a pesquisadora. 

*** 

As pesquisas eleitorais

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV n. 661, exibido em 16/10/2012 
 
Faz parte da nossa rotina, é uma das obrigações deste Observatório: depois de cada eleição, é imperioso discutir as sondagens de opinião, não apenas para verificar os procedimentos, mas principalmente para avisar o eleitor que pesquisas não são profecias infalíveis, são retratos instantâneos da dinâmica das preferências, portanto, sujeitos a alterações.
 
Tão importante quanto essa avaliação estatística, é examinar como a mídia, sobretudo os jornais impressos às vésperas do pleito, apresentam esses números. Uma palavra mal empregada pode subverter um dado rigorosamente objetivo e induzir o cidadão ao erro.
 
A utilização abusiva das sondagens na cobertura jornalística pode produzir perigosas distorções e efeitos colaterais no próprio processo eleitoral. A obsessão pelos números tira da disputa seu elemento fundamental: o confronto de ideias e de programas.
 
O eleitor é um ser responsável, pensante. Convertê-lo em mero torcedor fixado em placares avilta a função social do jornalismo e compromete os fundamentos políticos do processo democrático.
 
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A mídia na semana 
 
>> O ex-deputado José Genoíno quase foi impedido de exercer o dever de votar no primeiro turno. Os repórteres que o aguardavam na seção eleitoral cercaram Genoíno e o submeteram a um intenso interrogatório a respeito do seu julgamento pelo Supremo, marcado para ocorrer dois dias depois. Em protesto, José Genoíno retirou-se e só voltou horas depois, quando os repórteres já tinham ido embora. O eleitor não pode ser importunado, diz a lei eleitoral; os repórteres apressados esqueceram deste detalhe.
 
>> A capa da edição da Folha de S.Paulo da quarta-feira (10/10) foi uma das mais comentadas pela própria imprensa. Não era uma blasfêmia contra o profeta Maomé, mas uma agressão à dignidade jornalística. Se a Folha vibrou com a condenação pelo Supremo do núcleo político do PT, deveria encontrar uma maneira de noticiá-la sem perder a compostura. Se um jornal quer o respeito da sociedade, deve respeitar aqueles que são notícia. A Folha mereceu ser desancada até em suas próprias páginas. Um jornalão não deve se comportar como um tabloide sensacionalista. Os concorrentes, Estadão e O Globo, mostraram que isso é possível.
 
>> Contrariando a habitual discrição, o jornalismo e a imprensa saíram dos bastidores e foram para as primeiras páginas dos jornais durante a realização da Assembleia Geral da SIP, em São Paulo. Mas os jornalistas ficaram de fora, exceto no domingo (14/10), num evento chamado “Domingão da SIP”, dirigido a jornalistas e estudantes de jornalismo. A SIP, na realidade, é uma entidade da indústria jornalística e, embora o jornalismo digital tenha sido um dos temas mais debatidos, não se discutiram os blogs e sites independentes, representantes do jornalismo-cidadão.
 
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[Lilia Diniz é jornalista]
 

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