Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > OI NA TV

piauí, uma revista sem gravata

Por Lilia Diniz em 03/10/2007 na edição 453

Na primeira semana do mês de outubro do ano passado chegava às bancas uma nova publicação. Editada mensalmente, a piauí pretendia preencher um nicho do mercado de revistas, ocupado principalmente por notícias factuais ou temas segmentados, como a cultura. A revista pretendia ser um espaço para reportagens, perfis, ensaios, crônicas, diários e texto ficcionais. A condição para uma matéria ser publicado era simples: uma boa história, bem narrada.


Um ano depois do lançamento da revista, o Observatório da Imprensa na TV, exibido na terça-feira (2/10), trouxe uma entrevista de Alberto Dines com o editor da piauí, o documentarista João Moreira Salles, para um balanço deste período. Idealizador da publicação, Salles é formado em Economia e pretende dedicar-se mais dois anos exclusivamente à revista, até que ela possa ‘caminhar com as próprias pernas’.


Antes do final de cada bloco do programa foi exibida uma entrevista gravada. Na primeira delas, o publicitário Washington Olivetto afirmou acreditar que o resultado comercial da revista no primeiro ano foi melhor do que o previsto inicialmente. Mario Sergio Conti, diretor de redação da piauí, explicou que as matérias publicadas na revista surgem a partir da iniciativa de cada colaborador. Para Conti, quando a pessoa sugere a matéria, ela fica mais interessante. O jornalista Luis Nassif, que está escrevendo uma biografia do banqueiro Walther Moreira Salles, pai de Walter Salles Jr, João Moreira Salles e Pedro Moreira Salles, falou sobre os valores da ‘família mineira’ passados pelo patriarca e contou que a babá que ajudou a criá-los os colocou ‘em contato com o povo, com o mundo’.


Dines abriu o programa com uma pergunta sobre o nome da revista. Salles contou que o título é ‘insensato no bom sentido’, não tem nenhum significado. Durante o último ano do processo de criação, o grupo que elaborava a revista cogitou vários nomes, mas não conseguiu entrar em acordo. ‘É um nome afetivo, cheio de vogais. Eu acho a sonoridade bonita, ele é bonito também quando é escrito. É um nome pelo qual você pode se afeiçoar’, explicou.


O título não é uma referência ao estado do Piauí, na região nordeste do país, mas Salles confirmou que a revista tem a proposta de tratar de temas fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília. O editor informou que a revista foi bem recebida em Teresina, capital piauiense, e disse que esta é a única revista que cobre o Piauí. ‘Algumas pessoas publicaram que pudesse ser uma brincadeira, uma galhofa. De jeito nenhum, a revista é séria’, disse.


Sem a pressa do deadline


O estilo sereno da revista é reflexo da personalidade de João Moreira Salles. ‘Eu não queria uma revista para ficar gritando, urrando’, contou. O editor ressaltou que o gênero ‘estridente’ tem o seu espaço e que é importante existir uma imprensa que ‘grite’. Apesar de não ter a premência da notícia urgente, a revista não é apolítica, ela toma posições. O diferencial da revista, na visão do editor, é que ela pode ser mais lenta dos que as outras, pois a equipe tem mais tempo para escrever e apurar.


Salles acredita que o sucesso da publicação é uma resposta a quem duvidou do projeto por acreditar que toda leitura deveria ser, necessariamente, utilitária. O editor contou que se sentia órfão de uma revista com esse perfil, e surpreendeu-se ao encontrar um número muito maior de pessoas que também gostariam de ler uma revista como a piauí. Antes do lançamento, Salles consultou informalmente alguns profissionais do mercado editorial. As previsões mais pessimistas avaliaram em 5 mil o número de possíveis leitores de uma revista com o perfil da piauí. Outros acreditaram que esse número poderia chegar a 12 mil. Hoje, a piauí circula entre 35 e 37 mil exemplares, dos quais 16 mil para assinantes.


O editor de piauí lembrou que a indústria publicitária recebeu o produto com cautela, mas disse que entende a reação do meio porque não havia um leitor-padrão definido. Salles esclareceu que, voluntariamente, não encomendou nenhuma pesquisa para definir qual seria o público-alvo da revista: ‘Quando você faz uma pesquisa e define quem é o seu leitor, você acaba fazendo uma revista para este leitor. Aí, você deixa de surpreendê-lo’, disse.


Com o tempo, as agências perceberam que o leitor do produto não poderia ser definido por critérios como idade, gênero ou renda. Para Salles, é possível afirmar que a maioria deles tem nível superior, é curioso, tem o hábito de freqüentar livrarias e gosta de ler. ‘É alguém com quem o mercado publicitário quer falar’, afirmou. A edição de aniversário tem cerca de 30 páginas de anúncios, num total de 78 páginas, o que poderia ser uma mostra da confiança do mercado. Salles frisou que, como qualquer outra operação econômica, a revista precisa ser bem-sucedida porque não é subsidiada.


‘A graça da piauí é que ela é quase inventada do zero a cada número’, disse. A revista não tem colunista nem é dividida por editorias. Os assuntos não precisam estar presentes em todas as edições, o que torna a revista maleável. Dines então perguntou sobre a organização da revista. Salles disse que o fato de a redação da piauí ser pequena – são apenas três salas interligadas – facilita a conversa e o ‘trânsito de idéias’. Apesar de não haver uma hierarquia rígida, a edição final da revista fica a cargo de Mario Sergio Conti: ‘É ele quem decide o que entra na revista. Os textos são bastante editados, o que é uma das características da piauí‘.


Inspirações e modelos


Salles contou que os colaboradores da revista nunca fizeram uma reunião de pauta. Cada um sugere a matéria diretamente a Conti, e este avalia. Os jornalistas Dorrit Harazim e Marcos Sá Correa também editam o material que será publicado. ‘É uma redação pequena, de pessoas que, depois de um ano, se dão muito, muito bem. É um bom lugar para trabalhar. As pessoas se sentem muito próximas, são amigas.’ Salles contou que sentia falta de um ambiente desse tipo para trabalhar porque o trabalho como documentarista é mais solitário.


O formato da revista sofreu influência de publicações que o editor leu ao longo da vida, como a norte-americana The New Yorker, mas que não copia nenhum modelo. Salles disse que formato é original e que não existe uma revista parecida com a piauí dentro ou fora do país. ‘Toda revista que conseguiu exalar o ar de seu tempo conseguiu porque foi original’, comentou. Alguns exemplos que o editor citou são os periódicos Pasquim, Senhor, Realidade e Veja e os jornais Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil. ‘Se você tentar reproduzir um modelo, você quebrou a cara’, disse.


Dines abordou a influência do jornalismo narrativo – gênero surgido nos anos 1950 nos Estados Unidos, que mistura a narrativa jornalística com a literária – na carreira de Salles, que afirmou que o estilo marcou tanto a sua trajetória como documentarista quanto a experiência à frente da revista. Os escritores Joseph Mitchell e Lilian Ross foram citados pelo editor como os expoentes do new journalism que mais o marcaram.


Para Salles, os textos da publicação são muito diferentes entre si e não tentam imitar o new journalism. A tensão narrativa seria o fator em comum entre os textos, que não têm lead e sublead. Para o editor, a reportagem é boa quando o leitor chega ao final de uma história sobre um assunto que não lhe interessava ao começar a ler. ‘Qualquer assunto bem narrado é um assunto interessante’, avaliou. O editor ressaltou que, ao contrario da idéia de que todos os artigos da revista são muito longos, os textos têm apenas o tamanho que precisam ter para contar determinada história – e que há um equilíbrio entre os mais longos e os menores.


Os investimentos e custos da revista também foram comentados no programa. Dines chamou a atenção para uma matéria que Salles escreveu sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Para fazer a reportagem, Salles viajou para a Europa e os Estados Unidos acompanhando o ex-presidente por cerca de 15 dias. O editor contou que a revista foi planejada para comportar este tipo de investimento, que freqüentemente enviará colaboradores para fora do país, e explicou que algumas matérias feitas no Brasil também precisam de investimento porque demoram meses para ser apuradas e escritas. ‘Se você coloca isso na ponta do lápis, é caro. A aposta é que isso se dilua com o tempo’, disse. O editor frisou que nenhuma reportagem da revista é feita sem que o autor saia da redação.


Cultura na piauí


Assuntos como teatro e arquitetura estão presentes na revista, que opta por publicar poucos ensaios por ser, essencialmente, uma revista de reportagem. A cultura poderia, por exemplo, ser contemplada por meio do perfil jornalístico de um dramaturgo ou cineasta.


Salles criticou o vício da imprensa cultural de tratar cultura como furo jornalístico. A lógica de publicar antes dos concorrentes valeria para notícias, mas não para cultura. ‘Essa pressa gera resenhas superficiais e apressadas. Se amanhã o Joyce lançasse o Ulisses, as pessoas teriam que ler em duas horas para fazer a resenha’, disse, a respeito da obra do escritor irlandês James Joyce, publicada em 1922, e que tem cerca de 800 páginas. Para Salles, o que importa é ler ‘a grande resenha’, mesmo que depois do lançamento. Também criticou as entrevistas de perguntas e repostas curtas, as que o jargão chama de ‘pingue-pongue’, e os repórteres que fazem as entrevistas com as e perguntas prontas, sem diálogo com o entrevistado.


João Moreira Salles revelou que quando a revista foi criada havia pressão para editá-la em São Paulo, onde estaria a maior parte da grande imprensa, dos possíveis leitores e do mercado publicitário; mas que optou por publicá-la no Rio de Janeiro, onde sempre viveu. Salles acha que a piauí tem características parecidas com a cidade: ‘Ela não se leva a sério, ela é divertida, ela não é sisuda. Não usa terno e gravata, ela quase usa bermuda’.


***


O prazer da leitura


Alberto Dines # editoral do programa Observatório da Imprensa na TV nº 436, no ar em 2/10/2007


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


O bom jornalismo é necessariamente estridente? Se for assim, onde encontrar espaço para a reflexão e o prazer da leitura? Um jornalismo menos veemente não seria uma garantia de informações mais seguras e mais equilibradas?


Estas perguntas não estão sendo formuladas apenas no Brasil, elas estão sendo repetidas em todas as redações e escolas de jornalismo do mundo. As respostas também ocorrem em escala global, obviamente sem estridência.


No Brasil, a resposta está completando o seu primeiro aniversário neste mês de outubro. Ao contrário do que agouravam os céticos, deu certo. O Observatório da Imprensa conta hoje uma história de sucesso chamada piauí, narrada por seu criador, João Moreira Salles.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/10/2007 Rafael Chat

    é, runildo, acho que não vais gostar da piauí. acho que nada ali vai servir pra alimentar este ódio que te faz tão infeliz.

  2. Comentou em 04/10/2007 Maria Elisa Silva

    Desde que li a primeira Piauí ( nº4) que gostei bastante, uma leitura diferente, proporcionando o conhecimento de temas que não encontramos nas revistas em geral. Contribui muito para a base crítica e faz pensar diferente. Todas as matérias têm sua relevância e nem sempre agrada a todos, mas vale a tentativa. O país anda precisando de coisas diferentes para sair da mesmice mensaleira e tanta futilidade. Infelizmente não assisti ao programa, mas outras oportunidades surgirão. Também gosto das capas, inusitadas, ´~ao um diferencial. Espero que não percam o foco e continuem nos dando o prazer da leitura.

  3. Comentou em 03/10/2007 paulo luis freire freire

    alberto dines estou sempre asistindo observatorio da impresa porque os comentaristas que vôce convida para comentar um assunto são pessôas insentas e com conhecimentos extraordinarios no debate do dia gostei muito do entrevistado do dia 02/10 porque foi objetivo e simples mais com conhecimento sôbre a revista piaui. obrigado e até a proxima.

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