Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > BNDES DEVE EXPLICAÇÕES

Pichação na Wikipédia: banco não pode difamar

Por Alberto Dines em 21/01/2015 na edição 834

Na coluna mundana do domingo (18/1), a Folha de S.Paulo noticiou que partiu de um dos computadores do BNDES uma alteração nos perfis da Wikipédia dos jornalistas Franklin Martins, Tereza Cruvinel, Alberto Dines e da deputada estadual Manuela d’Ávila (PCdoB-RS), todos incluídos na categoria “Comunistas do Brasil” da dita enciclopédia.

A colunista Mônica Bergamo, autora da denúncia, também informou que o fato aconteceu na semana anterior e que o BNDES estava tomando as providências para identificar o responsável pelas alterações (ver “Seguidores de Marx”).

Até aí nada de extraordinário: a prática do maldizer, da denigração, da pichação e da malsinação é herança da colonização lusitana e das instituições aqui instaladas desde meados do século 16. O verbo malsinar (de origem hebraica), fartamente utilizado na linguagem da Santa Inquisição, está dicionarizado e plenamente incorporado ao idioma português nos dois lados do Atlântico. A delação era o principal instrumento para fabricar judeus, como denunciou o Padre Vieira. Pichar e denigrir são aberrações idiomáticas forjadas pela intolerância racial contra negros e afrodescendentes.

O nazismo, o estalinismo e mais recentemente a histeria macartista criaram dezenas de tabus e estigmas linguísticos destinados a discriminar, segregar e prejudicar.

No caso deste observador, considerá-lo comunista e colocá-lo indevidamente em tão distinto grupo é prova de uma tremenda estultice política. Em depoimentos pessoais, quando perguntado, sempre se declarou socialdemocrata. Tachar um socialista como “comunista” é muito mais do que confundir alhos com bugalhos – é analfabetismo rastaquera combinado à má-fé.

Imagem comprometida

Mas o que chama a atenção no episódio é a forma como a pichação foi divulgada. Há algo de solerte no procedimento. Como é possível que a tal nota oficial só tenha chegado ao conhecimento da colunista da Folha e de mais ninguém?

O BNDES é uma empresa pública, tem compromissos com a cidadania, toda a cidadania. É um banco, banco estatal, não pode estar a serviço de xavecos difamadores. A confidencialidade é – ou deveria ser – um dos esteios do sistema bancário.

A malfeitoria cometida através de um computador da rede do BNDES – embora insignificante na avaliação deste observador – por não ser inédita caracteriza uma prática que está se tornando rotineira no serviço público federal.

Isso configura impunidade e acobertamento. O caso da adulteração dos perfis dos jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, em setembro de 2014, foi muito mais grave porque ambos se declararam altamente prejudicados com as sucessivas afrontas adicionadas às respectivas biografias da Wikipédia.

O BNDES precisa explicar o ocorrido. Sua imagem está sendo perigosamente comprometida. Sua capacidade de manter sigilo está sob suspeita. O Observatório da Imprensa está à disposição.

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