Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > REPÓRTER BALEADO

Poder da mídia repete poder do tráfico

Por César Fonseca em 25/09/2007 na edição 452

A tentativa de assassinato do repórter Amaury Ribeiro Júnior, do Correio Braziliense, lançou luzes sobre o caos social que se encontra nas barbas do poder federal. Há muito tempo que a situação social e econômica no Entorno do DF/Goiás está uma catástrofe. Nem Goiás, nem o Distrito Federal, na verdade, assumem, para valer, esse pedaço em que vivem cerca de dois milhões de pessoas.

Goiás deve, atualmente, 180% da sua Receita Corrente Líquida (RCL) ao governo federal. Falência explícita. O Distrito Federal, por sua vez, coloca quase nada de recursos, apesar de usufruir da condição institucional de ser estado e município, que abocanha duas arrecadações e mais um fundo financeiro que o Congresso votou para engordar as finanças da cidade que abriga o poder. Depois do atentado ao correspondente de guerra no Entorno, tudo se precipitou. O DF promete colocar dinheiro que Goiás não tem. Caso contrário, a guerra urbana se intensificará.

As quadrilhas se multiplicam. Os governos, até agora, só fizeram discursos. Criaram um espaço geoeconômico denominado Região Integrada do Entorno Goiás-DF (RIDE), composto por 19 municípios goianos e dois mineiros, para tentar administrar a região. Rotundo fracasso, por enquanto. Os projetos mais interessantes estão no papel, devidamente engavetados.

A vocação dessas cidades, dizem os especialistas em urbanismo, seria fazerem as vezes de colchão de amaciamento dos conflitos. Nelas se desenvolveriam atividades primárias e secundárias de médio e grande porte, com ênfase em investimentos que utilizem bastante mão de obra. Evitaria descolocamento de massas desempregadas sobre a maquete a que Lúcio Costa e Oscar Niemeyer deram o nome de Brasília, Plano Piloto – Ilha de Manhattan, como destacam os especuladores imobiliários. Estes estão felizes por ter havido valorização de 96% nos preços dos imóveis nos últimos quatro anos. Ressaltam que a tentação do Plano Piloto em matéria de qualidade de vida, para quem fica na periferia, seria combustível permanente para elevar os preços das propriedades dos felizes que residem nesse espaço privilegiado.

Marcado para morrer

Os antagonismos são gritantes. A taxa de desemprego é superior a 30% no Entorno. Recentemente, realizaram-se seminários sobre o tema e as alternativas para a região emergiram. Os mesmos diagnósticos, as mesmas sugestões de providências, as mesmas atitudes, isto é, deixar como está para ver como é que fica. Enquanto isso, a situação macabra prossegue. Cabeças rolam pelos telhados das casas com teto de zinco caindo sobre as galinhas e assustando crianças brincando nos terreiros.

Foi nesse ambiente – onde a vida pode valer menos de R$ 1 se o assaltado não tiver nem isso para dar ao assaltante, que teria lucro zero para um custo elevado de mobilização de vontade para matar – que o repórter Amaury Ribeiro Júnior amarrou sua égua.

A bala relativamente certeira que Amaury recebeu em seu corpo refletiu em manchetes que não param de focar o mesmo assunto há dias, dando colorido dramático ao acontecimento. Qual seria o motivo? As gangues não são inocentes em matéria política. Pelo contrário, pautam-se pelo pragmatismo. O repórter, ajudado, entre outras fontes, pela polícia, que realiza investigações e vai colocando informações para a sociedade pela boca da mídia, mexeu no ninho de cobra. Poderia estourar bocas ricas dominadas por poderosos que utilizam as forças marginais para recrutar soldados na guerra do tráfico. Entrou na linha de confronto dos interesses. Marcado, por isso, para morrer.

Mais fortes engolem mais fracos

O mercado clandestino das drogas, no qual proliferam as gangues que mandam matar os incômodos, vai continuar, enquanto se mantiver clandestino tal mercado, com apoio da grande mídia, que não decide colocar em discussão, relativamente, ao tráfico, as mesmas leis econômicas que debate quando trata de reportar as outras mercadorias.

Enquanto durou a lei seca nos Estados Unidos, de 1917 a 1933, a clandestinidade se desenvolveu, promovendo a expansão do crime. As gangues competem entre si. O negócio já ficou manjado. Uma determinada área, dominada pelo tráfico, tende a se expandir para outra área, seja próxima, seja distante, como aconteceu no desenvolvimento das forças produtivas, na história do capitalismo, no capítulo das expansões territoriais. De 1850 a 1914, os Estados Unidos, por exemplo, ampliaram para 250 mil quilômetros quadrados seu domínio territorial na Ásia e na América Central, de acordo com Luiz Alberto Moniz Bandeira, em Formação do império americano (Civilização Brasileira).

As mercadorias circulam no espaço local, nacional e global, gerando, no final da linha, os monopólios e os oligopólios, cujas ações dominam a cena, mas podem ser – mal e porcamente – coibidos legalmente. Os grupos mais fortes vão comendo os mais fracos. Se isso acontece na economia dita aberta, falsamente regulada pelo mercado e, da mesma forma, falsamente controlada pelo Estado imperialista, visto que os interesses do capital, no interior deste, preponderam sobre os interesses do trabalho, imagine como deve ser nas economias clandestinas. Tim Lopes se lascou ao tentar trabalhar nesse pedaço sem a devida proteção e segurança no trabalho, negada pelos seus patrões da Globo, de acordo com depoimentos de colegas dele.

Falso moralismo

Marcola e Fernandinho Beira Mar, como Al Capone, impulsionam inescrupulosamente seus empreendimentos clandestinos com competência, repassando o produto que vem de outras forças econômicas, ainda, maiores, seguindo leis capitalistas que se desenvolvem clandestinamente. Foi dessa forma que enriqueceu o patriarca dos Kennedy, como destaca Seymour Hersh, em O lado negro de camelô. Moniz Bandeira relata as atrocidades praticadas pelos Rockefeller na conquista de terras ricas em minério e petróleo. Nas minas, patrocinavam a escravidão e as tentativas de libertação eram combatidas a bala.

Os clandestinos empresários do tráfico no Entorno, como os clandestinos nos tempos das conquistas territoriais, no porrete e no tiro de canhão ou no tempo da lei seca, arregimentam para a guerra os fracos desempregados na periferia. Arrancam das mães seus filhos. Deixam-nas gritando contra os poderes públicos até quando ninguém sabe.

Depois de liberado o mercado de bebidas, as gangues entraram em colapso, decretando a falência do comércio clandestino. Isso não valeria, também, para a cocaína e a maconha? Quando a mídia vai começar esse debate popular?

Todo ano é a mesma coisa: prisões e recolhimento dessas mercadorias, como se faz, relativamente, às mercadorias chinesas que entram via Paraguai. Configura-se vasta paraguaização econômica tupiniquim. A grande mídia – que está vendo seu capital humano virar alvo do crime organizado que se espalha no Distrito Federal, disposto a matar jornalistas para continuar sua ação clandestina – peca pelo falso moralismo.

Concentração prejudica contribuinte

Ela quer liberdade e câmbio flutuante para gerir as mercadorias que são anunciadas nas páginas dos jornais, nas TVs, rádios e internet, mas se recusa a discutir essa lei quando entra em pauta o narcotráfico. Por quê? Ressalte-se que grande parte das propagandas de remédios e alimentos publicadas se tornaram alvos dos órgãos reguladores, dadas suas características prejudiciais à saúde pública. Mas, como dá lucro…

A tendência ao oligopólio midiático bateria de frente com a liberdade de mercado para as drogas. O oligopólio clandestino das drogas não seria nada mais nada menos que uma variação do comportamento econômico que toma conta da própria mídia. Por que combater o oligopólio das drogas, que gera a guerra urbana em escala ascendente, se a mídia, em sua essência, marcha para o oligopólio, numa economia em que os grandes grupos econômicos atuam oligopolisticamente?

Enquanto isso, estarão morrendo nas periferias os recrutados do crime e os que, como jornalistas, vão atrás para desvendar as organizações das gangues, cujas leis, em sua essência econômica, são semelhantes às que determinam a vida e os interesses dos seus patrões.

Como disse Samuel Pinheiro Guimarães, vice-ministro das Relações Exteriores, em entrevista à TV Comunitária, a grande mídia aplaude o avanço do oligopólio capitalista nesta fase histórica do capitalismo ultraconcentrador de capital, mas evita discutir que tal dinamismo capitalista no compasso da concentração prejudica o contribuinte.

O raciocínio, do ponto de vista econômico, excluído qualquer sentimento moral, serviria, também, para o comércio do narcotráfico, que começou a mandar executar jornalistas no Distrito Federal.

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Jornalista, Brasília, DF

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