Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CADERNO DA CIDADANIA > MATO GROSSO

Políticos-apresentadores correram do debate

Por Gibran Lachowski em 04/03/2008 na edição 475

Inicia-se em Cuiabá um bom debate sobre mídia e política que pode contribuir com as demais cidades do país. Trata-se da existência de pessoas que têm cargos políticos e desempenham os papéis de apresentadores de programas televisivos ditos jornalísticos. A discussão é basicamente sobre se isso configura propaganda extemporânea e privatização das concessões públicas de telecomunicação.

Em Cuiabá, os políticos-apresentadores de maior destaque são os deputados estaduais Walter Rabello e Maksuês Leite (PP), Sergio Ricardo (PR) (presidente da Assembléia Legislativa de Mato Grosso) e Roberto França (sem partido).

O primeiro é pré-candidato declarado à prefeitura da capital mato-grossense e apresenta o programa Olho vivo na cidade, na TV Cidade (canal 12, SBT), líder de audiência entre meio-dia e 13h. Maksuês, que é jornalista formado, dirige o policialesco Comando Geral, da TV Rondon (canal 5, Rede TV!).

Sergio Ricardo também é jornalista e se elegeu vereador e deputado após se tornar apresentador de programas que enfocam reclamações de consumidores e distribuição de óculos, casas e realização de exames de DNA. Ele apresenta o Repórter da Cidade, agora na TV Brasil Oeste (canal 8/Bandeirantes). Por fim, o radialista Roberto França, prefeito de Cuiabá por duas vezes e suplente de deputado (hoje titular), dirige o Resumo do Dia, também na TV Rondon.

‘Compromissos inadiáveis’

E você, leitor do Observatório, tem político-apresentador em seu estado? O que pensa disso?

Na quinta-feira (28/2), o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor/MT) promoveu um debate acerca dos políticos-apresentadores com o título ‘Mídia e política: usos e abusos’. Foi no auditório Licínio Monteiro, um dos existentes na sede da Assembléia Legislativa. O local ficou lotado e abrigou cerca de 300 pessoas, a maioria estudantes universitários de Comunicação Social. Só faltaram os convidados especiais.

Walter Rabello, Maksuês Leite e Sergio Ricardo já haviam, inclusive, assinado termos de compromisso garantindo presença. O Sindjor já havia espalhado por todos os meios de comunicação locais e em inúmeras salas de aula de faculdades públicas e privadas que os três lá estariam. Mas, um dia antes, os dignos encaminharam ofícios dizendo que não poderiam cumprir o que haviam assumido por escrito por conta de ‘compromissos inadiáveis’. Uma jogada bem articulada do trio. Tão sincronizada que evidenciou ato combinado com o objetivo central de se esquivarem dos questionamentos a que seriam submetidos. Roberto França também não foi ao debate, mas ao menos não assinou termo de comparecimento.

Analiso aqui os três que prometeram presença, mas estrategicamente se ausentaram, e como o debate ocorreu mesmo sem eles. A mesa de debatedores também contava com os professores universitários Roberto Boaventura (doutor em Jornalismo) e Manoel Motta (analista político), os promotores eleitorais Marcos Machado e Lindinalva Corrêa, e a advogada Luciana Serafim, que representou a OAB-Mato Grosso.

Extremamente arbitrário

Boaventura disse que os ‘parlamentares midiáticos’ agem de modo a negar completamente a função de um político. Para o professor, Rabello, Sergio e Maksuês fazem ‘teatro na TV’ e devem ser encarados muito mais como ‘animadores’. Em sua visão, eles ‘ferem a dignidade do ser humano e usam a religião para transformar o povo em pedintes e pessoas submissas’.

Boaventura deu o exemplo de Sergio Ricardo para demonstrar a inoperância política dos parlamentares-apresentadores. De posse de uma pesquisa estudantil apresentada no curso de Ciências Sociais da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), relatou a produtividade legislativa do citado político enquanto vereador e deputado, caracterizada prioritariamente por leis referentes a nomes de ruas e datas comemorativas. O público espantou-se, mas caiu na gargalhada.

Motta defendeu o direito dos políticos ocuparem espaços televisivos diários, explicando que estes fenômenos midiáticos são fruto, também, da vontade popular. Questionou, inclusive, a relação direta entre aparição midiática e resultado eleitoral. Mencionou que dos 24 deputados estaduais de Mato Grosso apenas quatro são apresentadores de TV.

No entanto, o analista político lamentou o acovardamento dos políticos-apresentadores. ‘Uma pena eles não terem vindo. Perderam uma oportunidade de discutirem democraticamente o assunto, ouvirem críticas e exporem seus posicionamentos’, disse. Mas ressaltou que a criação de uma lei que proíba políticos de apresentarem programas televisivos – algo que vem sendo aventado – seria um ato extremamente arbitrário.

TV Assembléia nem filmou

Os representantes do Ministério Público Eleitoral do Mato Grosso disseram estar de mãos atadas até o momento, pois a legislação só considera propaganda extemporânea aquela em que o político disser que é candidato e pedir voto antes de 6 de julho. Ou seja, o pré-candidato pode distribuir presentes, falar diretamente de sua disposição em concorrer à vereança e à prefeitura, pois isto não corresponde a delito.

Entretanto, após questionamentos da platéia sobre a postura passiva do Ministério, Machado e Lindinalva afirmaram publicamente que iriam notificar os políticos-apresentadores no sentido de lhes apresentar o que é permitido e o que é vedado no período pré-eleitoral. Um mecanismo para frear os abusos mais evidentes.

De outro lado, Luciana informou que a OAB apresentou denúncia formal ao Ministério Público para que os excessos sejam punidos de modo exemplar. ‘Não precisamos esperar as convenções de meio de ano para que a lei eleitoral comece a ser aplicada com rigor. Já temos provas suficientes de atos de autopromoção’, afirmou.

Várias pessoas que estavam na platéia estranharam o fato de a TV Assembléia (canal aberto) não estar transmitindo o evento ao vivo e nem mesmo filmando para reproduzi-lo a posteriori em sua programação. Keka Werneck, presidente do Sindjor, explicou que a emissora aceitou apenas fazer uma matéria sobre o debate. Muito pouco para uma entidade que tem a coragem de rogar para si em suas propagandas institucionais a qualidade de ‘Casa do povo’.

Ampliar o debate

A discussão sobre os usos e abusos dos políticos-apresentadores deve levar em consideração o fato de milhares de pessoas verem neles verdadeiros representantes populares. Não podemos, então, fazer o discurso de que o povo é manipulado vergonhosamente simplesmente porque as pessoas mais pobres têm pouco estudo formal. Isso cheira a análise de classe média elitista, a arrogância e pequenez.

Por isso, é bom tomar por elemento de análise a ausência do Estado enquanto promotor de políticas públicas para a população, sobremaneira a mais explorada. Também é bom discutir a luta pela democratização das TVs e rádios, cuja maioria está nas mãos de grupos políticos e econômicos. Para cassar concessão, por exemplo, é preciso de dois terços do Congresso. Então, as leis têm de ser alteradas. E para isso é necessário ampliar o debate. Uma das sugestões ao final do debate sobre os políticos-apresentadores foi que o próximo evento ocorra em praça pública. Algo excelente!

Afinal, quem está por trás dos inúmeros Walter Rabello, Sergio Ricardo e Maksuês Leite espalhados pelo Brasil e o que querem aqueles que os projetam? Entendo que essa pergunta pode nos aprofundar muito mais na discussão do assunto e nos distanciar na crítica moralista e preconceituosa de que político-apresentador foi feito para ludibriar gente pobre e analfabeta. Como se o conhecimento científico fosse o superior e mais importante da face da realidade. (Diante disso, cabe-nos aprender um pouco com os saberes populares, produzidos, reproduzidos e praticados por milhões de pessoas.) É como se na classe média e na elite não estivessem presentes os maiores corruptos e mais submissos seres.

Se questionamos a falta de Estado, devemos autocriticar nossos papéis sociais de jornalistas, sindicatos, ordens, movimentos sociais, professores universitários, advogados, promotores e tudo o mais. Por isso, vamos à praça pública ouvir mais gente, abrir mais a mente, nos desvencilhar da visão pequeno-burguesa supostamente orientada por princípios democráticos. Vamos ampliar o debate.

Qual sua visão a respeito desse assunto?

******

Jornalista, professor universitário e militante de movimentos sociais, Cuiabá, MT

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