Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > O ESTADO DO PARANÁ

Por Obama, jornal demite cartunista

Por  Deonísio da Silva em 25/03/2011 na edição 634


O Estado do Paraná demitiu o cartunista Luiz Solda. Ele fez uma charge mostrando um macaco dando banana ao presidente dos EUA, Barack Obama. Estou entre aqueles que degustam as charges, mas é claro que o defenderia também se as detestasse. A censura é um ato execrável, predatório e inútil. Foi um erro do jornal demitir o cartunista. Crime de opinião e de expressão, como nos velhos e atormentados tempos da ditadura militar.


Fiz minha dissertação de mestrado – quatro anos de trabalho, na UFRGS, em Porto Alegre – e a de doutorado, mais seis anos, ambas sobre a censura, na USP, em São Paulo. Sei do que falo. As duas teses viraram livros. A proibição é tiro na culatra: prejudica os editores e os leitores. A História dá a volta por cima e Luiz Solda terá doravante o seu retrato emoldurado por essa proibição. Ainda é tempo de os editores que o demitiram se arrependerem, voltarem a examinar o problema, descontar o calor da hora e readmiti-lo. Seria um gesto de grandeza.


Revirando no túmulo


Estreei como escritor em O Estado do Paraná, levado à redação pelas mãos do cineasta Sílvio Back. Os dois contos com os quais estreei na imprensa foram adaptados para a televisão com o talento de Antunes Filho, na TV Cultura, em São Paulo.


Preso por contos publicados num outro jornal, depois cumpri pena em liberdade condicional, incurso na Lei de Segurança Nacional e na Lei da Imprensa, que tantas vítimas fez entre jornalista, escritores, intelectuais e artistas, enfim sobre todos os que ousavam discordar e expressar suas discordâncias. Libertado, fui condenado a dois anos de prisão e passei a me apresentar periodicamente aos tribunais, nos termos da sursis. E nesse ínterim O Estado do Paraná publicava outros contos e textos meus, me entrevistava – era um sinal, uma força que fez com que uns poucos acusadores recuassem. Eu morava no Paraná naqueles anos.


Por tudo isso, por ter O Estado do Paraná como presença tão memorável em minha vida de escritor e professor, é que me entristeço com a demissão de Luiz Solda. Onde puder, farei chegar a minha voz e o meu pedido: que a demissão de Luiz Solda seja reconsiderada. Hoje sou escritor que tenho livros publicados em diversos países e em vários idiomas, com prêmios nacionais e internacionais, mas tudo começou com aqueles primeiros passos em O Estado do Paraná.


O jornalista e romancista Manoel Carlos Karam, diretor de redação de O Estado do Paraná por tantos anos e hoje nome de praça no Mercado Municipal em Curitiba, que nos deixou tão cedo, com cinquenta e poucos anos, lá do céu deve estar furioso com o que fizeram com o jornal que ele sempre soube defender tão bem.


Negão presidente


O tempora, o mores! Esperamos, como disse, que reconsiderem essa demissão antes que a repercussão não prejudique um jornal que faz por merecer o respeito dos leitores. Então que esse respeito seja mútuo e que ele não exclua de seus quadros um cartunista tão talentoso.


Se já o excluiu, que o reinclua, pois vivemos tempos de inclusão, como esse ora vivido pelos Estados Unidos, que dão uma referência solar ao mundo, elegendo um negro para a presidência da República.


Mas daí a não poder brincar com o tema é proibição que não podemos aceitar. Quer dizer que se eu registrasse o que, em recente reunião de escritores referenciais, dissemos e ouvimos, que Barack Obama é um ‘fabuloso negão’, seríamos vetados em O Estado do Paraná?

******

Escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/03/2011 Wellington Borges Costa Wella

    Gente, pelo amor de Deus! O macaco é o brasileiro dando uma bana anti-imperialista para o presidente dos EUA. Eles nos chamam de Banana Republic. Silvester Stallone, filmando aqui, disse que no Brasil aparecem macacos pelas ruas. Será possível que não conseguem ler uma charge? Como pode o editor ou o dono de um jornal importante como O Estado do Paraná ser analfabeto funcional? Como se sente o ‘companheiro’ Paulo Henrique Amorim sendo responsável direto pela demissão de um cartunista de 58 anos e longo currículo de serviços prestados ao jornalismo e à arte?
    Faço coro a Deonísio pela recontratação do Solda!

  2. Comentou em 25/03/2011 Wellington Borges Costa Wella

    Gente, pelo amor de Deus! O macaco é o brasileiro dando uma bana anti-imperialista para o presidente dos EUA. Eles nos chamam de Banana Republic. Silvester Stallone, filmando aqui, disse que no Brasil aparecem macacos pelas ruas. Será possível que não conseguem ler uma charge? Como pode o editor ou o dono de um jornal importante como O Estado do Paraná ser analfabeto funcional? Como se sente o ‘companheiro’ Paulo Henrique Amorim sendo responsável direto pela demissão de um cartunista de 58 anos e longo currículo de serviços prestados ao jornalismo e à arte?
    Faço coro a Deonísio pela recontratação do Solda!

  3. Comentou em 25/03/2011 Nelza Jaqueline Franco

    Deonísio, já fizeram charge sobre a tua etnia? Quantas vezes? A tua etnia é desfavorecida socialmente? Foi trazida para cá para trabalhar no regime escravo? Construiu boa parte do país com suor e sangue? Teve políticas de estado para que vivesse à margem da sociedade, tendo-lhe sido negado o direito à propriedade e à educação? Sofre preconceito velado até hoje num país que diz que não há racismo? Sofre com as piadinhas e charges que são a ‘expressão da opinião’ de alguns? É a etnia de um pouco mais da metade dessa nação e não está representada proporcionalmente no Congresso Nacional ou nos empresários influentes do país?Responda-me…

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