Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > CONVENÇÃO REPUBLICANA

Por que fomos injustamente presos

Por Amy Goodman em 09/09/2008 na edição 502

A repressão aos jornalistas praticada pelo governo é uma autêntica ameaça à democracia. Durante o encontro da Convenção Nacional Republicana, realizado semana passada em Saint Paul, Minnesota, a polícia sistematicamente atacou os jornalistas. Fui presa, junto com dois de meus companheiros, os produtores de Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous e Nicole Salazar, quando fazíamos a cobertura do primeiro dia da Convenção. Fui injustamente acusada de um delito menor. Meus colegas, que simplesmente estava fazendo reportagens, podem até ser acusados de provocar distúrbios, um delito mais grave.

As Convenções Nacionais democrata e republicana converteram-se em caros e prolongados eventos de teatro político, basicamente quatro dias inteiros de publicidade para os principais candidatos à presidência. Do outro lado das grades de segurança, transformaram-se em importantes encontros dos movimentos de base, ao possibilitar que as pessoas se reúnam – entre bandeiras, flâmulas, bandeirolas e faixas – para expressar os direitos enumerados na Primeira Emenda da Constituição: ‘O Congresso não aprovará nenhuma lei que estabeleça a adoção de uma religião ou a proibição do livre exercício da mesma; ou que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa, ou o direito do povo de reunir-se pacificamente e solicitar ao governo a reparação de injustiças.’

Por trás de toda a hipérbole patriótica que acompanha as Convenções, e dos milhares de jornalistas e trabalhadores da mídia que se mobilizam para cobrir os eventos organizados para a ocasião, ocorrem sérias violações do direito básico à liberdade de imprensa. Aqui, nas ruas de St. Paul, a imprensa tem a liberdade de informar sobre os eventos oficiais da Convenção Nacional Republicana, mas não pode informar sobre a violência policial e as detenções generalizadas contra aqueles que vieram para reivindicar ao seu governo, para protestar.

Rosto no asfalto

O 1º de setembro era o Dia do Trabalho (celebrado nos EUA), e se desenvolvia uma manifestação contra a guerra, que contava com uma grande participação, com famílias da cidade, estudantes, veteranos e gente de todo o país que havia marcado encontro para opor-se à guerra. Em número, os manifestantes superavam largamente os delegados republicanos.

Havia um ambiente positivo e festivo, somado a uma crescente ansiedade em relação à trajetória que o furacão Gustav estava tomando, e se Nova Orleans seria devastada uma vez mais. Mais tarde, nesse mesmo dia, ocorreu uma manifestação espontânea, não autorizada. Os policiais – uniformizados com equipamento antimotim, com capacetes, protetores para o rosto, cassetetes e sprays de gás pimenta – investiram contra a manifestação. Conduziram manifestantes, observadores que passavam e jornalistas em atividade até um estacionamento próximo; ali, cercaram-nos e passaram a algemá-los.

Nicole estava gravando a cena. A gravação de sua própria detenção, muito violenta, é de arrepiar. Policiais, com uniforme antimotim, atacaram-na e gritaram: ‘Para o chão’. Na gravação pode-se escutar a voz de Nicole, repetindo claramente: ‘Imprensa! Imprensa! Para onde devemos ir?’ Estava presa entre os automóveis estacionados. A câmera cai no chão em meio aos gritos de dor de Nicole. Golpearam-lhe o rosto contra o asfalto, estava sangrando pelo nariz, e tinha a bota ou o joelho de um pesado agente sobre suas costas. Outro agente a puxava pela perna. Sharif foi lançado contra uma parede, chutado no peito e seu braço sangrava.

Protesto público

Eu me encontrava no Xcel Center, na sede da Convenção, entrevistando delegados republicanos. Acabava de entrevistar a delegação de Minnesota, quando recebi uma chamada telefônica que me informava que Sharif e Nicole haviam sido brutalmente presos, em todos os sentidos. O cineasta Rick Rowley, da Big Noise Films, e eu fomos correndo até o local. Já sem fôlego, chegamos ao estacionamento. Aproximei-me da barreira de policiais antimotins e pedi para falar com o oficial responsável, dizendo que eles haviam detido jornalistas credenciados.

Alguns segundos depois me agarraram e arrastaram até o outro lado da barreira policial, torceram meus braços, colocando-os à força nas costas, e me imobilizaram com rígidas algemas de plástico, que me cravaram nos pulsos. Pude ver Sharif com o braço coberto de sangue e sua credencial de imprensa pendurada no pescoço. Voltei a dizer que éramos jornalistas credenciados, e foi aí que um agente do Serviço Secreto se aproximou e me arrancou do pescoço a credencial de imprensa para a Convenção. Levaram-me para a garagem da polícia de St. Paul, onde haviam montado celas para deter os manifestantes. Fui acusada por obstrução dos trabalhos diante de um juiz de paz. Nicole e Sharif foram presos sob a acusação de provocar desordem.

O ataque e a prisão, minha e dos produtores de Democracy Now! , não foi um fato isolado. Uma organização de videomakers, chamada I-Witness Vídeo, sofrera uma blitz dois dias antes. Integrantes de outro grupo de documentaristas, o Coletivo Glass Bead, foram detidos, e suas câmeras e computadores foram confiscados. Na quarta-feira, a I-Witness Video sofreu outra batida e, finalmente, foram obrigados a abandonar a casa em que haviam montado seu escritório. Quando perguntei ao chefe de polícia de St. Paul, John Harrington, como pensava que os jornalistas deveriam trabalhar sob tal condição, sugeriu: ‘Incorporando os jornalistas à nossa força de patrulha.’

Na segunda-feira à noite, horas depois de nossas prisões, e após um grande protesto público, Nicole, Sharif e eu fomos libertados. Assim foi nosso Dia do Trabalho. Tudo isso em uma jornada de trabalho. [3/9/2008]

***

Ver aqui as reportagens em vídeo sobre os acontecimentos.

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Apresentadora de Democracy Now!, noticiário internacional diário, transmitido por mais de 700 emissoras de rádio e TV nos Estados Unidos e no mundo

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