Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > CADEIA & VIOLÊNCIA

“Presa tem que dar”

Por Antonio Mello em 27/11/2007 na edição 461

O que estou vendo de surpresas, de ohs e ahs com o caso da menina no Pará… Por que o espanto? É uma barbaridade? Sem dúvida. Mas essa barbaridade é defendida diariamente nos editoriais, nos pitblogs, na imprensa indecente, nas seções de cartas dos leitores dos principais jornais e revistas do país.


É claro que ninguém diz com todas as letras que quer ver presas menores de idade trancadas com marmanjões em cadeias imundas no interior do Pará. O que se diz é: ‘Não me falem em direitos humanos de presos, isso é papo de intelectual. Bandido tem que pagar’.


Não dizem como, mas imaginam. Ou melhor, nem imaginam, porque nem querem pensar nisso. Afinal, cadeia no Brasil, ainda em sua maior parte, é feita apenas para os PPP, pretos, putas e pobres. Então, para que pensar numa melhoria de condições de vida nas prisões e presídios, se nós não iremos para lá?


Tenho uma má notícia para quem pensa assim. É bom começar a se preocupar. Cada vez mais jovens de classe média, e até de ‘alta classe’, estão sendo presos. Só aí os pais desses jovens começam a ter contato com a realidade que nunca quiseram ver.


As revistas são feitas por homens, não importa o sexo do preso. Você, leitor, já imaginou sua filha sendo revistada pelo policial ou carcereiro?


Mas não é apenas isso. Seus problemas não acabaram. Já imaginou ‘sua patroa’ ou sua mãe sendo revistada por um deles também? Pois imagine, porque se uma delas quiser visitar o pimpolho ou a pimpolha na delegacia ou no presídio terá que passar por essa mesma revista.


Três macaquinhos


É como diz o delegado titular da Divisão de Capturas da Polícia Civil do Rio (Polinter), Herald Paquete Espínola Filho:


– A lei não diz que a revista tem que ser feita apenas por mulheres. Não vou perder meu tempo comentando isso.


Na mesma reportagem de O Globo em que há a declaração do delegado sem tempo, Vera Lúcia Tostes, coordenadora da Pastoral Carcerária do estado do Rio e presidente do Conselho da Comunidade relata ‘outros casos de maus-tratos, como a falta de absorventes, o que leva presas a usar até miolo de pão. Para obterem material higiênico ou ter proteção, presas têm relações sexuais com funcionários e funcionárias ou com outras presas’.


É comum que jovens detidos para cumprir medidas sócio-educativas (na maioria das vezes, apenas presos mesmo) implorem para que suas mães não os visitem para que não sejam submetidas à revista degradante (preciso descrever?). Se alguém defende um tratamento mais digno para esses jovens e suas mães, pronto, lá vêm as matérias editorializadas, as cartas dos leitores descendo o pau ‘nesse pessoal que defende os direitos humanos dos presos’.


Depois se espantam com notícias como as do Pará. E com a tranqüilidade com que delegados tratam do assunto. No Pará, disseram apenas que não havia cadeia separada…


Se querem continuar como os três macaquinhos, com as mãos, os olhos e os ouvidos fechados, que o façam. Mas nos poupem do espanto hipócrita.

******

Escritor e publicitário, Rio de Janeiro (RJ); http://blogdomello.blogspot.com 

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem