Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CADERNO DA CIDADANIA >

Presente difícil, futuro duvidoso

Por Antonio Brasil em 29/09/2009 na edição 557

‘O último conteúdo inovador das TVs tradicionais foi produzido pelo Bin Laden’. (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, 2006)

Matéria de capa a prestigiosa revista americana Time mostra o apresentador e comediante Jay Leno acompanhado de título sugestivo, irônico e talvez assustador: ‘Jay Leno is the future of television. Seriously?’ (‘Jay Leno é o futuro da televisão. Sério?’, ver aqui). No Brasil, essa manchete seria algo semelhante a ‘Jô Soares é o futuro da TV. Sério?’

Agora imaginem o velho e decadente programa do gordo das madrugadas sendo anunciado como o grande investimento, a surpresa da temporada ou a aposta genial da Globo para enfrentar a guerra de audiência com a Record.

Entenderam a comparação? Avaliaram a gravidade da situação? Pensam que seria impossível no Brasil?

Pois essa ‘novidade’ explodiu na mídia americana como uma bomba. A imprensa não perde a oportunidade de ironizar as soluções milagrosas para salvar as redes abertas de TV. E no Brasil, a tendência é acontecer algo semelhante muito em breve. Afinal, tudo, ou quase tudo, que surge na TV dos EUA acaba sendo copiado pelos criativos produtores brasileiros. O melhor e o pior, tanto faz. Mera questão de tempo.

Telinha menor

A crise nas redes americanas é grave. Talvez ainda mais grave do que a crise que assola as instituições financeiras ou as grandes montadoras de veículos. Afinal, na TV aberta, essa decadência já acontece há alguns anos.

Segundo pesquisa divulgada pela Associated Press, ‘mais de 2,5 milhões de pessoas deixaram de assistir à programação das redes ABC, CBS, NBC e Fox Networks na primavera de 2007’. A mesma pesquisa constatou que ‘em seis semanas, a audiência do horário nobre das quatro maiores redes de televisão caiu para 37,6 milhões de pessoas, comparando com os 40,3 milhões’.

Milhões de telespectadores perdidos podem implicar milhões de dólares que deixaram de entrar nas combalidas contas das redes de televisão. Mais do que a queda de audiência, é a perda de verbas publicitárias que ameaça o futuro do meio. O problema é que essas redes, assim como os velhos dinossauros, têm custos altíssimos e precisam de enormes investimentos para sobreviver. O futuro da TV aberta – a TV como a conhecemos – é no mínimo duvidoso.

Mas é óbvio que as emissoras de TV americanas ou brasileiras jamais irão confirmar o próprio declínio. Fazem questão de produzir malabarismos contábeis e estatísticos para divulgar pesquisas financiadas por elas próprias que disfarçam a gravidade do problema.

Vivem a ilusão de sucessos momentâneos e esporádicos. Assim como certos presidentes americanos diante de ameaças terroristas, guerras, crises e decadência econômica, vivem em estado de self denial: contrariam os fatos, negam a realidade e denunciam os críticos.

O que as redes de TV não conseguem perceber ou aceitar é a inevitável tendência da curva do tempo. O sucesso do meio já foi muito maior no passado, diminuiu sensivelmente no presente e aponta para o fim previsível no futuro próximo. A não ser que consigam se reinventar nos próximos anos.

Se não aprenderem a conviver com a nova realidade – bons programas com baixos custos para pequenas audiências – as emissoras de TV aberta vão desaparecer. Recorrer a velhos sucessos do passado pode ser uma solução desesperada que não resolve os problemas de hoje e acelera o fim previsível no futuro. Ao investir em velhos programas como o Jay Leno, Jô Soares, Zorra Total ou Escolinha Muito Louca, a telinha pode ficar ainda menor.

Portal de escolhas

Com raríssimas exceções, a programação da TV aberta é péssima. Nos EUA e no Brasil, os executivos das redes abertas recorrem a fórmulas desgastadas do passado para evitar o desastre iminente. Temem perder ainda mais audiência e não arriscam nada. Os péssimos programas se voltam exclusivamente para os velhos e pobres. Perdem audiência qualificada: jovens e pessoas com alto poder aquisitivo.

Pelo jeito, com o retorno triunfal de Jay Leno, os executivos americanos arriscam o futuro da TV americana. Aqui entre nós, ele representa um dos piores modelos de programa da TV: os famigerados shows noturnos de entrevistas com entrevistador metido a engraçado que fala mais do que os entrevistados, acompanhado de bandinha desafinada com celebridades decadentes ou desconhecidas. Algo muito parecido com o programa do Jô Soares, na Globo.

Na mesma matéria da Time, os executivos da NBC defendem a decisão de investir no velho programa de Jay Leno: ‘É muito difícil encontrar novos programas que gerem grande audiência’. Triste realidade. Há muitos anos, as redes de TV americanas perdem audiência e principalmente ‘criatividade’ – novas idéias para novos programas – para as TVs a cabo e para as novas plataformas digitais. O problema se torna ainda mais grave com a introdução de novos sistemas de gravação digital, os DVRs, que eliminam comerciais e selecionam os melhores programas.

Se Jay Leno é a grande novidade da programação de uma das maiores redes americanas, então o futuro da TV aberta deve estar seriamente comprometido. Mas o melhor comentário sobre o novo programa e as expectativas dos executivos da NBC veio do próprio Jay Leno: ‘Isso é para mostrar como a coisa está feia!’, ironizou o comediante.

No Brasil, Jô Soares diria algo muito parecido.

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Jornalista, doutor em Ciência da Informação, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

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