Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA

Programação altamente inadequada

Por Fábio Siqueira em 02/10/2007 na edição 453

O sr. Wilsom teve uma participação fundamental nessa discussão que segue o ritual de acontecer na hora do almoço. O debate era sobre a classificação indicativa para os programas de televisão. A portaria 1220/07 traz a obrigatoriedade das emissoras informarem, antes do início dos programas, uma recomendação à audiência qualificando para qual faixa etária aquele conteúdo é indicado.

(O sr. Wilsom pertence ao mundo imaginário, mas tem opiniões bem coerentes sobre o mundo real. ‘Tem coisas que não são apropriadas nem para os adultos’, alfineta. Para saber mais sobre o sr. Wilsom, clique aqui.)

Ao lado contrário à medida, as opiniões são manifestadas pelo receio de se tratar de uma reinvenção da censura, algo do tipo ‘Não é censura, é apenas uma recomendação’ Essa não era a minha opinião e este artigo não tem a finalidade de estender o fastio desse debate que já nos desgastou por demais.

Em matéria divulgada pela Agência de Notícias do Ministério da Justiça, o secretário Nacional de Justiça, Antonio Carlos Biscaia, diz:

‘Tenho absoluta tranqüilidade para afirmar que de forma alguma essa classificação, que é indicativa, possa ser comparada à censura que enfrentamos em outros tempos em nosso país. Nessa época, os censores poderiam não só influir na criação artística e intelectual como cortar parcialmente algum tipo de programa. Isso não existe mais. A classificação fica sob responsabilidade daqueles que vão divulgar os programas audiovisuais.’

Confesso que a minha posição pendia mais para esse lado.

Vibradores e arte marcial

O sr. Wilsom, sempre sereno, observava a conversa em silêncio. Entre um terremoto e um furacão, cantarolou, de forma provocativa, ‘Torresmo à milanesa’, de Adoniran Barbosa. Premeditadamente, escolheu um trecho bem pertinente à ocasião: ‘Vamos almoçá/ Sentados na calçada/ Conversar sobre isso e aquilo/ Coisas que nóis/ Não entende nada’.

Depois de acabar a argumentação de ambos os lados, o sr. Wilsom comentou sobre o que acontecera com ele na madrugada anterior. Foi uma dessas noites que sucedem a um dia de problemas que não se esgotam no horário comercial. Esses transtornos, de hábito diurno e noturno, invadem os sonhos e nos acordam de maneira perturbadora. Como muita gente faz, o sr. Wilsom acordou e ligou a televisão.

Na madrugada, a programação, parafraseando Adoniran, ‘vareia’ entre filmes de violência e pornografia. Não que nos outros horários algo próximo a isso, eventualmente, não seja exibido. Mas 2 da manhã é um horário livre de danos morais. Em tese, a família e os bons costumes estão dormindo. Sendo apenas uma ou outra alma solitária e perdida que assiste a mulheres vendendo panelas e vibradores, assim como japoneses perfurando pulmões de seus oponentes com golpes letais de arte marcial.

Violência e pornografia

Contando essa passagem, o sr. Wilsom chegava ao clímax da sua reflexão sobre a classificação indicativa e retomou o assunto. ‘Acredito que muitas vezes exista o bom senso, tanto do telespectador, quanto das emissoras.’ Ele conta que, nessa noite turbulenta em questão, percebeu, que entre a violência e a pornografia, passavam trechos de uma CPI não identificada.

O sono que se anunciava naquele momento, a confusão das idéias, mais a variedade de CPIs, não permitiram que ele reconhecesse a matéria em pauta. Mas era algo que tem se repetido nas Comissões Parlamentares de Inquérito: discurso de palanque e piadas de humor questionável. Achou a cena sem propósito e as ações que ali aconteciam descontextualizadas. Concluiu que aqueles esquetes não usavam o bom senso como premissa.

Também não foi possível notar se fora mencionada a classificação indicativa ao telespectador. Sabemos que programas jornalísticos não estão sujeitos a isso, mas o que estava passando na TV não parecia pertencer a esse gênero. De qualquer forma, o sr. Wilsom achou que, pelo menos, o horário era bem apropriado para a exibição daquelas cenas que, na opinião dele, não eram estritamente violência e nem pornografia, mas uma mistura dos dois. ‘Era uma cena de estupro’, arrematou.

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Jornalista

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