Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > LIBERDADE DE CRÍTICA

Quando a imprensa não admite ser contestada

Por Eduardo Guimarães em 18/03/2008 na edição 477

Persisto no assunto liberdade de imprensa. Esse conceito precisa ser muito discutido, pois crimes vêm sendo cometidos em seu nome desde que a imprensa surgiu e, de novidade, converteu-se num dos pilares das sociedades modernas e democráticas.

Não se pode conceber uma sociedade sem uma imprensa atuante, influente e que tenha meios de contestar os poderes constituídos, eventualmente se convertendo em porta-voz dos setores que não teriam meios de levantar suas vozes contra os setores mais poderosos e influentes. Ao longo da história, porém, a imprensa foi se convertendo, em grande parte, em porta-voz de grupos sociais bem específicos, sempre negando esse papel e alardeando suas atuações em momentos em que teve que se unir ao mesmo interesse comum que antes violara.

Orson Welles já morreu

Nesse aspecto, vale revermos manifestação de um comentarista do blog que mantenho na internet e que vem se manifestando com freqüência, mas que, à diferença de vários dos que visitam aquele espaço para protestar contra sua linha editorial, divergiu de maneira civilizada, ainda que o conteúdo dessas manifestações esteja eivado de meias-verdades. Leiam abaixo, portanto, comentário do leitor Antonio Thadaz, de Curitiba:

‘(…) Você diz aos jovens que no seu tempo (nosso) as esquerdas tinham que se manter caladas. E caladas, elas roubavam bancos, seqüestravam embaixadores, explodiam bombas, mutilando inocentes, e faziam guerrilha no Araguaia. Hoje, esse pessoal recebe gordas pensões do governo, inclusive o Lula.

Como sei tudo isso? Imprensa. Nos tempos duros, o JB, censurado, publicava receita de bolo no lugar da notícia. Otávio Frias tem uma longa história de resistência ao regime de exceção, Boris Casoy que o diga. O Mesquita abrigou, em sua redação, jornalistas perseguidos.

Dos grandes jornais, O Globo foi o único que teceu louvaminhas aos militares. Ou seja, a maioria da tal família midiática tem história na luta pela liberdade, liberdade essa que oportunizou [sic] ao Lula fundar e difundir seu partido.

Afirmar que a mídia de hoje paralisa o congresso [sic], atrasa projetos e provoca catarses coletivas é conferir à imprensa um poder que ela não tem. Orson Welles morreu e não deixou herdeiros.’

Bom, desde que para todos

Pelo que o leitor escreveu, ele deve ser da minha geração. Estranho, no entanto, que não saiba que quem viabilizou a ditadura militar de mais de 20 anos no Brasil foram exatamente os Mesquita, Frias e Marinho, com seus jornais, TVs e revistas acossando o governo legalmente constituído de Jango Goulart.

Parece-me raro, ainda, que o mesmo leitor não recorde do Riocentro, onde, nos estertores da ditadura militar, a ditadura colocou uma bomba, na tentativa de forjar que tinha sido colocada por aqueles que caçava, prendia, torturava e matava.

Mas o leitor em questão levanta, ou melhor, torna mais evidente o tema liberdade de imprensa. Essa liberdade de um meio de comunicação – ou de vários – difundir informações e opiniões, tem que ser acompanhada da pluralidade opinativa mais ampla, geral e irrestrita. Liberdade para informar sempre deverá pressupor liberdade de contestar o que foi informado. Quando a imprensa informa só o que quer, seja em termos de notícia ou de opinião, e não admite que se conteste o que divulgou, não há liberdade de imprensa alguma.

Liberdade de imprensa sempre será um bom conceito, desde que seja para todos os que fazem jornalismo. A liberdade de imprensa que os grandes jornais, TVs e assemelhados pedem, no entanto, é para poucos (só para eles mesmos). Ao mesmo tempo em que pedem liberdade de expressão para si, combatem a de quem não for ungido por eles.

Informar ou sabotar?

Têm sido freqüentes, na grande mídia, ataques à maior inovação ocorrida no jornalismo desde seu surgimento, o fenômeno dos blogs. Hoje mesmo (domingo, 16/03), na Folha de S.Paulo, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony classifica de ‘chatos’ os que fazem uso da tecnologia para participarem dos grandes debates nacionais. Lamenta que a internet tenha viabilizado para qualquer um a liberdade de difundir opiniões e informações em larga escala. Quer que a liberdade de imprensa seja só para os ungidos pelo grande jornalismo.

Diante de tais premissas, podem-se formular algumas questões:

** Quando essa ‘liberdade de imprensa’ é usada para insuflar militares para que dêem um golpe de Estado, a fim de depor um governo que desagradava aos multimilionários donos de grandes cadeias de rádio, TV, jornais e revistas, que liberdade é essa?

** Como pode ser chamado de ‘liberdade’ fazer uma campanha que pede que a vontade eleitoral da maioria de uma nação seja violentada em benefício da vontade dos derrotados eleitoralmente?

** Quando os meios de comunicação divulgam que há uma epidemia de febre amarela no país e, com isso, alarmam a sociedade, de forma que pessoas que não tinham risco de contrair a doença tomam, aleatoriamente, um medicamento controlado que pode lhes causar danos, que liberdade é essa?

** Aliás, tais práticas constituem liberdade de informar ou de sabotar?

‘Descerebrados’, ‘chatos’…

Liberdade só é liberdade se todos puderem desfrutar dela. Quando a liberdade que se pede é igual a essa que os magnatas da comunicação pedem, que é só para eles, suas empresas e seus prepostos ditos jornalistas, mas que viola, cotidianamente, todos os princípios jornalísticos que remetem à pluralidade de idéias e opiniões, o que se vê é justamente o contrário de liberdade.

Há pouco, a grande mídia brasileira foi à OEA denunciar que está sofrendo processos na Justiça e que esses processos pretenderiam cercear sua liberdade de imprensa, ou seja, de fazerem acusações gravíssimas a quem quiserem sem prova alguma. Mas quando essa imprensa é acusada de práticas tão graves quanto aquelas que denuncia, vai à Justiça até contra jornalistas saídos de suas fileiras por divergirem de sua linha de atuação. Vide o caso Luis Nassif versus Veja.

Que tal se Nassif (ex-Folha de S.Paulo) ou Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha (ex-Globo) fossem à OEA denunciar que, por não aceitarem ver seus trabalhos jornalísticos deturpados ou bloqueados por seus empregadores, foram levados a abrir mão de seus empregos, tanto por iniciativa própria quanto daqueles empregadores? E por que a Veja pode processar Nassif, que é jornalista, mas quando alguém a processa diz que lhe estão ameaçando a ‘liberdade de imprensa’?

O pior de tudo é que quando quem critica a grande imprensa tenta debater com ela suas críticas, ela se nega a debater, chegando a insultar os que a questionam, chamando-os de ‘descerebrados’, ‘hidrófobos’, ‘chatos’ etc. Processa quem a critica, mas não admite ser processada por fazer o mesmo ou, pior, por disseminar campanhas contra isso ou a favor daquilo, ou de que isso existe e aquilo não existe, o que às vezes redunda em desastres como as mortes e adoecimentos causados por vacinação indevida contra a febre amarela.

Representação no MP

Liberdade de expressão ou de recorrer à Justiça tem de ser para todos. E só será se aqueles que os grandes grupos econômicos que exploram a comunicação de massas tentam cercear persistirem no exercício do direito de manifestação e, ainda mais, no de buscarem a Justiça para questionar esses grupos.

No que diz respeito ao direto de manifestação do pensamento, acho que o Brasil e o mundo vão muito bem, obrigado. O fenômeno dos blogs e das correntes de e-mail – e me atenho a eles porque são os meios mais acessíveis para qualquer pessoa se manifestar em larga escala – vai se intensificando em progressão geométrica. No questionamento judicial de práticas jornalísticas claramente danosas, no entanto, o país ainda está engatinhando. À diferença do que acontece no mundo desenvolvido, denunciar meios de comunicação à Justiça ainda é um tabu por aqui.

Denunciar, processar ou criticar não é mais prerrogativa exclusiva da mídia. Liberdade, tampouco. E pretendo provar isso. Essa é a parte que nos cabe, aos cidadãos comuns, neste latifúndio, neste mundo injusto, desigual, hipócrita, do qual meia dúzia de magnatas das comunicações quer aprofundar o ‘modelo’. Por conta disso, como cidadão, como detentor dos mesmos direitos que têm os Marinho, os Frias ou os Mesquita, não hesitarei em tomar atitudes, amparado por dezenas e dezenas de brasileiros de todas as partes do país que se uniram à ONG que propus que fosse fundada, o Movimento dos Sem-Mídia.

Por conta de tudo isso, a ONG que presido irá protocolar, em 17 de março de 2008, às 15 horas, no Ministério Público Federal, em sua unidade situada à Rua Peixoto Gomide, em São Paulo, uma representação contra meios de comunicação que, no entender de um considerável número de pessoas, durante o mês de janeiro deste ano, infringindo o Código Penal em seu capítulo que versa sobre disseminação de alarma social, levaram milhões de brasileiros a se expor inutilmente ao risco inerente à vacina contra a febre amarela, um risco do qual decorreram mortes e adoecimentos.

******

Comerciante, coordenador do Movimento dos Sem-Mídia, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/03/2008 marcos omag

    O tal de Antonio Thadaz,que comentou no site do Eduardo Guimarães,é totalmente desinformado sobre o papel que a ‘grande’ imprensa desempenhou no pré e no pós-Golpe De Estado de 1964.Porta-vozes da UDN, conspiraram contra a Democracia desde a época do JK,mesmo com o período de prosperidade que foi o seu governo (qualquer semelhança com o período atual não é mera coincidência).Apoiaram o Golpe e os governos militares.Os episódios ‘Folha da Tarde’ (colaboração com o terror de Estado e paramilitares) e o apoio da ‘Folha de São Paulo’ a linha-dura militar no início da ‘distensão’ (apoio ao grupo de Sílvio Frota contra Ernesto Geisel)são fartamente documentados.A entrada de Boris Casoy na ‘Folha’ como diretor de redação foi uma tática inteligente para amealhar novos leitores,que não conheciam a atuação da ‘Folha’ nos piores anos da Ditadura.Quanto ao ótimo texto do Eduardo Guimarães,apenas um comentário: para a ‘grande’ imprensa no Brasil,vale aquela frase do Millôr Fernandes:’ditadura é quando você manda em mim;democracia é quando eu mando em você’.

  2. Comentou em 21/03/2008 Marcelo Ramos

    Prezado Eduardo, agradeço e concordo com sua resposta. E acho que há entidades aparelhadas, no Brasil, tentando proteger a ‘liberdade’ dos grandes grupos de comunicação. Artigo neste site, do Luciano Martins Costa, menciona tres dessas entidades que ‘alertam’ para os ataques à liberdade de imprensa, em razão de alguns jornalistas estarem sendo processados. No mesmo artigo, o Luciano levanta a questão de uma nova lei de imprensa onde o objeto dos direitos é o indivíduo, conforme mencionado no post do sr. Ricardo Pierri. Creio que mudaria muita coisa. Falou, Salinas, vai na paz de Deus. Aliás, hoje não é dia de malhar o Judas? Fica mais um pouquinho…

  3. Comentou em 21/03/2008 Haertel Duarte

    Pois bem Sr. Salina, aí vai um exemplo que pediu. Leia e entenda o que levou o Eduardo Guimarães a fazer aquilo que todo brasileiro devia fazer, pois talvez só assim a nossa ‘grande mídia’ passasse a respeitar um pouco mais a nossa inteligência.
    (http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/elianecantanhede/ult681u361459.shtml)

  4. Comentou em 20/03/2008 Ricardo Pierri

    Além de desconhecer – e de não querer saber – a diferença entre surto e epidemia, o sr. Salinas tbm desconhece as particularidades da FA. De outra forma, saberia q os surtos de FA se dão em sua quase totalidade exatamente nos meses de dezembro e janeiro, e todas as estatísticas são baseadas majoritariamente – se não exclusivamente – nesses dois meses. Isso estragaria a ilusão, então é melhor ignorar, não é mesmo?

  5. Comentou em 20/03/2008 eduardo salina

    Marcelo: o que foi exatamente (eu disse exatamente) que a imprensa informou errado ? Quando ? Onde ? Em que jornal ? Em que dia? Em que página ? Em que programa de tevê? Em que canal? Em que horário?
    Por favor,sem retórica,que aqui não é palanque nem púlpito.Seja exato.Cite fatos. Eu citei fatos. A OMS disse que o surto foi (ou é) grave . A OMS também é manipulada ? Por quem?

    Quanto aos outros manipuladores: em qual texto confundi epidemia com surto ?
    Ideologia emburrece.

  6. Comentou em 20/03/2008 Ricardo Pierri

    Só não importa a diferença entre surto e epidemia para quem pretende q reportar falsamente uma epidemia é ‘noticiar fatos’. Pelo seu último comentário, fica claro q vc não apenas desconhece, mas não deseja conhecer essa diferença, pois isso esvaziaria o seu já pobre argumento, uma vez q evitar a divulgação de uma epidemia q existiu não é o mesmo, nem de longe, que evitar q a imprensa noticie epidemias q não ocorreram. A semelhança q existe entre ambas as situações só serve para demolir de vez seu argumento: no caso da meningite, evitar a divulgação da epidemia causou prejuízos à população, o mesmo causado pela divulgação de uma epidemia não existente de FA. A conclusão é inescapável para quem entende a diferença entre surto e epidemia, além de conhecer as estatísticas dos casos. Não causa surpresa q gente como vc deseje esconder essas informações. No final das contas, quem realmente deseja q a população não seja informada corretamente é vc, meu caro.

  7. Comentou em 19/03/2008 Célio Mendes

    Interessante 13 mortes entre 2007/2008, porem em 1998 foram 15, no ano seguinte 1999 foram 28 e em 2000 pasmem foram 40 (http://sis.funasa.gov.br/dw/dm01/menu_p/0303.htm) e nem por isso eu vi o oba oba que foi feito esse ano, teria a mídia criminosamente escondido uma epidemia durante aqueles anos tal qual a ditadura militar o fez com a meningite? ou terá sido um caso de obscurantismo político? Talvez tenha sido para o bem do povo, afinal já havia muita desgraça assolando o país naqueles anos e a imprensa, em um nobre esforço para não preocupar mais ainda a população, resolveu poupa-la dessas noticias desagradáveis que agora faz questão de destacar. Como hoje vivemos dias muito melhores não há porque ter os mesmos escrúpulos que naquela época não é mesmo?

  8. Comentou em 19/03/2008 Eduardo Guimarães

    É desalentador constatar como essas pessoas que se deixam hipnotizar pela mídia perderam a capacidade de pensar. Esse leitor aí embaixo, que diz, ironicamente, que bom era no tempo da ditadura, quando aquela proibiu a divulgação de uma epidemia, simplesmente copiou o que escreveu Eliane Cantanhêde e o que, depois, Reinaldo Azevedo repetiu. Escrevo um texto cheio de argumentos, componho uma peça ao Ministério Público com mais de 90 páginas, mostrando, inclusive, manifestações de infectologistas e sanitaristas revoltando-se contra o que fez a mídia, além de haver um editorial da Folha reconhecendo que a mídia ‘magnificou’ a ‘epidemia’ e coluna do ombudsman da mesma Folha, descendo o pau no alarmismo, e me aparece um papagaio para fazer uma ironia besta, absurda. Há epidemia para esconder? Onde está? Cadê o noticiário sobre febre amarela? Sabem por que sumiu, porque era mentiroso, irresponsável. Um problema de saúde pública dessa monta e vem um papagaio, movido por política, falar o que? Que estamos numa ditadura e pessoas como eu queriam esconder epidemia? Como se todos não vivêssemos no mesmo país e não estivéssemos todos sujeitos a uma eventual epidemia… Essa é a obra da mídia. Papagaios sem cérebro. É dramático.

  9. Comentou em 19/03/2008 Ricardo Pierri

    Sou um tanto mais radical do q o Edu no q tange à liberdade de imprensa. A CF88 garante aos indivíduos a liberdade de expressão e de informação. E empresas não são indivíduos, não cabendo a elas esses direitos fundamentais, q chamamos ‘liberdades’. Assim, a liberdade de expressão e de informação deve ser a mesma para todos os indivíduos, cabendo à imprensa o dever de fornecer os meios para o exercício da primeira, e o objeto da segunda: a informação correta e imparcial. A imprensa é o meio através do qual exercemos essas duas liberdades – nos expressamos e nos informamos. Na medida em q a imprensa deixa de cumprir seus deveres, agride a nossa liberdade de imprensa. Outrossim, para cumprir com esses deveres é dado à imprensa um conjunto de poderes bastante amplos – os quais a imprensa protege com zelo invejável. Zelo esse q inexiste em relação aos seus deveres – os quais a imprensa nega toda vez q publica uma opinião d sua preferência ou deixa de publicar opiniões contrárias a ela. É a imprensa q atenta contra a nossa liberdade d expressão e de informação.

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