Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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CADERNO DA CIDADANIA >

Quando se deixa de ser criança

Por Teresa Leonel em 26/05/2009 na edição 539

Barra-bandeira, casinha de boneca, pega-pega, 31 alerta, brincadeira de roda, ‘seu rei mandou dizer’, patinete de rolimã, empinar papagaio, ouvir historinhas da vovó, jogar pião e bolinha de gude. Estas eram algumas das brincadeiras de uma criança de 7 anos de idade na época dos nossos avós, nossos pais e muitos outros que vivenciaram momentos tão inesquecíveis – quando se era permitido ser de fato criança.


Na sociedade da mídia a inocência é algo descartável ou líquido, como diz o sociólogo europeu Zigmunt Bauman. Ouvir perguntas simples ou singulares de uma criança de 7 anos implica dizer que ela não está conectada com a nossa época. Que suas atitudes são bobinhas e não estão desenvolvidas como o ‘filho de fulano’ e a ‘filha de sicrano’.


Comparar faz parte da era tecnológica. Exigir sabedoria e discurso de adulto para uma criança de 7 anos faz parte do repertório da maioria dos pais na sociedade midiática. Sem isso a criança não se mostra competitiva, já que o mercado é assim.


Então, estar com 7 anos e pensar socialmente no parâmetro dessa idade são ações impossíveis para as crianças em geral. Afinal, não são elas que passam pelo ridículo de não saber, e sim os pais que passam pelo incômodo de não ensinarem seus filhos a se superarem, ou melhor, superarem os outros.


Quando se superam antecipam atitudes que deveriam chegar um pouco mais tarde como a sexualidade, por exemplo, experiências com bebidas alcoólicas e cigarros e o jeito adulto de se vestir e se sentir ‘homem’ ou ‘mulher’.


Brilho das luzes


A menina Maísa, apresentadora do programa de Silvio Santos, de apenas 7 anos de idade, é um desses produtos do marketing comercial e midiático. Bom para a audiência de Silvio Santos, refrigério para seus pais que estão de olhos fechados para as conseqüências do amanhã e pensam nela como a representação dos seus sonhos (também criados, em muitos casos, pela própria mídia), e estratégico para realimentar o desejo de tantos outros pais em ver seus filhos fazerem o tal sucesso na maior janela aberta do mundo: a TV.


Tudo parece ser mesmo natural. No entanto, a infância que tem sinônimo de inocência está perdida em algumas das baias e coxias da TV, na maquiagem implantada para melhor se expor e no discurso que, de tão ‘bonitinho’, parece vir de uma imposição seja dos pais, seja da construção do repertório absorvido por Maísa quando ainda era menor do que aparenta ser.


A maior janela do mundo nunca deu conta do seu poder e da sua interferência nos lares, do seu estrago na formação societária, na construção de uma sociedade.


Maísa está triste, diz a mídia, porque está longe dos holofotes já que a Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Osasco (SP) revogou a licença da menina para gravar no Programa Silvio Santos (24/5/2009).


Sua tristeza (acompanhada por um psicólogo) tem sentido. Afinal, entre o ambiente do seu lar repleto de tentativas de mostrar o quanto ela se supera no vídeo, sua boneca tranqüila em cima da cama à espera de um momento de ninar, Maísa está muito mais envolvida no glamour midiático dessa sociedade espetacularizada que consegue matar uma das características mais naturais de uma criança: sua inocência.


Para ela, Maísa, o mundo se resume ao brilho das luzes produzidas no palco, microfones, produtores e colegas de escola pedindo autógrafos e perguntando o que fazer (?) para ser igual a ela. 

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Socióloga e jornalista, professora do curso da Universidade do Estado da Bahia e da Faculdade São Francisco de Juazeiro, BA

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