Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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CADERNO DA CIDADANIA >

Quando Sig, o rato, rugiu

Por Gilson Caroni Filho em 23/07/2008 na edição 495

O assunto é antigo. Já discutido, quase à exaustão, nos mais variados fóruns. Mas como este Observatório comporta critérios outros que não restringem a análise a fatos de noticiabilidade recente, volto a tocar em um assunto que, há três meses, ocupou páginas com uma unanimidade inaudita. Tomo a liberdade de retomar o tema para tecer uma breve consideração que vai na contramão dos argumentos predominantes: aqueles que falaram em ‘bolsa-ditadura’ e traição aos princípios.


Indenizados com outros 18 jornalistas por perseguição política, os cartunistas Jaguar e Ziraldo receberam, no início de abril, direito a reparações vultosas, além de prestação mensal permanente e contínua de R$ 4.375,88. Foram os valores mais altos concedidos pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, mas será que justifica a grita geral a que assistimos à época? 


O coro uníssono de colunistas, alguns ex-presos políticos e personalidades de alto coturno afirmava categoricamente que a conhecida dupla do saudoso Pasquim, ao aceitar a reparação, teria ultrapassado o Rubicão dos bons manuais de ética.


Representação do procurador-adjunto do Tribunal de Contas da União (TCU) criticou os valores e houve quem falasse em farra milionária à custa da Viúva. Mas algo, e não é um grito, continua pairando no ar. O distanciamento temporal talvez nos permita interpelar os críticos e suas razões aparentemente irrefutáveis.


Eles pareciam ignorar ou ter se esquecido, convenientemente, que o Pasquim foi asfixiado economicamente, com anunciantes de peso sendo ‘aconselhados’ a não programarem o jornal. 


Moralismo neo-udenista


Ficou em segundo plano que a censura prévia, além de obrigar a ‘fechar’ três ou quatro edições por número e torcer para sobrar o bastante para colocar uma nas bancas, prejudicou a circulação do jornal quer por causar atrasos na distribuição, quer por fazer com que perdesse leitores ‘desencantados’ porque o jornal tinha ficado muito ‘tímido’. E como esquecer os atentados a bomba que levaram muitos jornaleiros a deixarem de vender jornais ‘nanicos’, entre os quais o Pasquim, Movimento etc., etc.?


Nos casos específicos de Jaguar e Ziraldo, pareceu igualmente não terem sido levados em conta os prejuízos profissionais que sofreram: nos anos de chumbo foram barrados na grande imprensa além de terem, assim como o Pasquim, perdido contratos publicitários.


Jaguar, por certo tempo, chegou a praticamente torrar todos os seus haveres e dormir num colchonete na redação do jornal. Insinuar que fizeram isso de caso pensado, contando com vantagens futuras, é mais que estultice; é má-fé. Supor que a resistência embutia um imaginário mercado futuro de indenizações é conceder habeas-corpus a todo tipo de aleivosia.


O mesmo quanto à estranha lógica segundo a qual os dois jornalistas não teriam direito a ser indenizados porque não foram barbaramente torturados (argumento típico de quem jamais sequer levou um achaque dos ‘homens’). Não estando na mais abjeta miséria (típico moralismo neo-udenista que envolve até mesmo uma conhecida ‘esquerda’ de classe média), estariam se queixando de quê? Não estavam se ‘queixando’, pleitearam – há sete anos! – algo a que tinham direito e obtiveram ganho de causa. Simples, não?


Conseqüência lógica


Miriam Leitão, conhecida colunista de O Globo, dizendo-se ‘amiga de longa data’ dos dois, escreveu que Jaguar e Ziraldo ‘venderam suas biografias’. Pode ser? Mas não seria o caso de lembrar que eles, pelo menos, têm uma biografia que podem vender. Há quem nem isso tenha. Miriam, por exemplo, não faz muito tempo, declarou em entrevista a Jô Soares que o que a levou a militar no PC do B foi ‘o desejo de lutar pela liberdade’. Mais que reescrever sua trajetória e a do partido a que pertenceu, a jornalista revelou uma faceta oculta do bom humor albanês.


Estamos em julho, e muito matutei sobre o assunto. Pressionado pelas críticas, Ziraldo esbravejou:




‘Eu quero que morra quem está criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando’.


Será que, conforme escreveu Sérgio Malbergier, editor do caderno ‘Dinheiro’ da Folha de S.Paulo, a dupla apenas estaria ‘aumentando o prejuízo dado ao Tesouro Nacional?’. Ou estamos diante de uma reparação que deve ser vista como conseqüência lógica do pleno restabelecimento do Estado Democrático de direito?


O que teria a dizer Sig, o rato que rugia, quando muitos leões emitiam discretos miados?


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A resistência não tem preço – Arthur Poerner

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Professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro, RJ

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