Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA POLICIAL

Quanto vale a vida?

Por Reinaldo César Zanardi em 29/03/2011 na edição 635

A violência policial no Brasil é uma triste realidade para a qual a maioria da população pede transformações radicais apenas quando é vítima direta dos maus policiais. Dois episódios divulgados recentemente voltam a trazer ao debate a qualidade da atuação dos policiais militares do Brasil. Que a polícia brasileira é uma das mais violentas do mundo, ninguém duvida. Tanto que a organização não-governamental Justiça Global, em um de seus programas atua na perspectiva da ‘Segurança Pública e Violência Institucional.’ Leia mais aqui.

Num dos episódios, policiais militares espirraram spray de pimenta em manifestantes em Niterói, no Rio de Janeiro. Moradores protestavam pelo pagamento do benefício Aluguel Social, ou seja, eram moradores pobres reivindicando que o Estado cumprisse o seu papel. No segundo caso, policiais militares de Manaus, Amazonas, aparecem atirando à queima-roupa em um adolescente de 14 anos.

Segundo o Ministério Público do Amazonas, o jovem não tem antecedentes criminais. Se tivesse, isso justificaria tamanha violência? Obviamente, não!

As cenas – repugnantes – revelam um caos que é conhecido de toda a população e do Estado brasileiro: o sucateamento dos órgãos de segurança pública, incluindo as relações de trabalho dos policiais. No entanto, salários baixos, excessiva carga horária e más condições de trabalho não são justificativas para o policial cometer os crimes que deveria prevenir. Bandido de farda é um perigo para a sociedade, talvez ainda maior que o oferecido pelos próprios bandidos. E, infelizmente, os bons profissionais pagam o preço pela atuação criminosa dos bandidos fardados.

Apoio ilícito e criminoso

Além disso, é de conhecimento geral que faltam investimentos básicos nos organismos policiais para investigar os crimes cometidos. A ciência forense no Brasil engatinha e, não raro, os policiais que chegam à cena do crime são os primeiros a comprometer os possíveis indícios e provas que poderiam resolver o caso. Falta muito investimento neste sentido: recursos humanos, materiais e financeiros.

É comum no noticiário brasileiro delegados, capitães, coronéis e sargentos alegarem que Fulano morreu (e não, foi assassinado) e que se tratava de acerto de contas do crime organizado. E isso basta para não investigar o acontecimento? Outra interpretação possível a ser feita das falas oficiais, nesses casos, é que se alguém morre é porque está envolvido com o crime e isso é uma consequência, algo da natureza da atividade. Convenhamos, morte violenta nunca é natural.

Se a violência é consequência, por exemplo, do tráfico de drogas, que a polícia combata então as causas: a produção e a distribuição das drogas, cujos verdadeiros donos, muitas vezes, contam com o apoio ilícito e criminoso das instituições que deveriam proteger o cidadão.

Pobre morto na periferia não incomoda

Em que pesem as tantas interpretações que podem ser feitas dos episódios de Niterói e Manaus, que não são isolados no Brasil – afinal são os que vieram à tona porque as câmeras flagraram a ação violenta da polícia –, outro aspecto chama ainda mais a atenção: a vida. Nesses casos, a vida – principalmente de pobres na periferia – vale pouca coisa para o Estado. O desrespeito à vida humana é flagrante. A polícia que desrespeita a vida do pobre é a mesma que parece funcionar como instrumento da segurança patrimonial dos ricos. E o pior: o policial que desrespeita e mata o pobre é, muitas vezes, tão miserável quanto a sua própria vítima. E isso torna a situação ainda mais dramática e lamentável.

A sociedade brasileira, neste sentido, está profundamente dividida. Não é preciso estudos sociológicos para verificar isso. Basta ver os telejornais, ouvir as emissoras de rádio, ler nos jornais e na internet diariamente para constatar que pobres e ricos são iguais somente perante a lei. Setores da classe média e da elite – em episódios como esses – se revoltam momentaneamente porque a situação é aguda, ou seja, ganha grande repercussão e ninguém – por mais insensível que seja – consegue ficar inerte diante das cenas. Mas passado o susto factual, tudo volta ao normal e não se exigem transformações radicais. Ou seja, pobre morto na periferia não incomoda tanto.

O assunto voltará a ser motivo de debate, de revolta, quando a polícia matar no centro da cidade ou matar algum universitário que ‘tinha um futuro brilhante pela frente’. Quem pode realmente interferir e promover a transformação somente o faz quando os problemas o afetam diretamente.

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Jornalista, mestrando em Comunicação Visual pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e professor do curso de Jornalismo da Universidade Norte do Paraná (Unopar), Londrina, PR

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