Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / ARMENIO GUEDES

Querem extirpar o DNA da Gazeta

Por Mauro Malin em 22/03/2005 na edição 321

Armenio Guedes entrou na Gazeta Mercantil pela política e saiu pela ‘falta’ de política. Aos quase 87 anos de idade, um dos decanos da imprensa brasileira, era secretário da Gazeta. Durante anos, editou a coluna ‘Nomes & Notas’. Foi demitido, com 14 colegas, na terça-feira, 15/3. Entrou no jornal pela política, em 1988 – era então, antigo dirigente do falecido PCB (Partido Comunista Brasileiro), uma personalidade da luta pela redemocratização do país, não do jornalismo – e saiu pela falta de política, como se se tratasse, 17 anos depois, em mais um episódio da debacle gerencial da empresa.


O vice-presidente de Conteúdo & Projetos da Gazeta, Marcos Troyjo, ouvido por este Observatório, não quis comentar o assunto. Disse apenas: ‘É preciso levar em conta que desligamos algumas pessoas e contratamos muitas outras’.


Num plano superficial, a longa agonia da Gazeta Mercantil, da qual a demissão de Guedes foi manifestação particularmente truculenta, dada a carga simbólica que encerra, é conseqüência de uma crise empresarial parecida com a que afetou muitas empresas de mídia desde o fim dos anos 1990. Várias, das maiores, bem ou mal se safaram e estão na estrada. O Jornal do Brasil e a Gazeta Mercantil ficaram à míngua de propostas jornalísticas e empresariais.


A dimensão política se condensa numa fala da nova direção do empresa – prepostos do empresário Nelson Tanure, proprietário da Companhia Brasileira de Multimídia, que possui também o que sobrou do JB e a revista Forbes – perante a direção da redação: ‘É preciso exterminar o DNA da antiga Gazeta‘, reproduz Armenio Guedes.


Protagonista da redemocratização


Segundo Guedes, isso significava erradicar o espírito do jornal construído a partir de 1974, sob a direção do jornalista Roberto Müller Filho, com mandato dado pelo então proprietário, empresário e político udenista Herbert Levy, já falecido. A Gazeta era então um jornal que se esmerava em fornecer ‘informação diferenciada’ – ou seja, à margem do brilhareco do circo da mídia -, a mais isenta possível, para gozar de ‘fé pública’, embora fosse uma empresa privada, como as demais.


Entre os companheiros de Müller nessa jornada, Guedes destaca Glauco de Carvalho – o único que permanece no jornal -, Alexandre Gambirasio, Sidnei Basile e Mathias Molina. Müller tem reivindicado mais do que a já meritória maneira respeitável e respeitada de fazer jornal. Reivindica para a Gazeta um papel na articulação da intelligentsia com o empresariado a favor da redemocratização do país, na segunda metade da década de 1970.


O propósito destrutivo de Tanure foi alcançado não exatamente nas páginas do jornal – o tal ‘DNA’ era mais forte do que se supunha, quer dizer, não se ‘reeducam’ jornalistas de uma hora para outra, não se consegue impor de cima para baixo uma nova maneira de trabalhar a notícia, e a Gazeta ainda sai todos os dias, embora há muito sem brilho -, mas fora delas. Principalmente nas cabeças dos jornalistas. Tanto que o episódio soou como mais um desdobramento da confusão empresarial-trabalhista em que o jornal se meteu, nas mãos dos novos patrões. Processo que despovoou a redação da Gazeta (e povoou outras redações, notadamente, em São Paulo, a do Valor e a do DCI).


Mas, de fato, o contexto é de desorientação política da imprensa. Os critérios que se constituíram no processo histórico que toma corpo na luta pelas Diretas e passa pela eleição de Tancredo Neves, pelo Cruzado, pela Constituinte, pelo afastamento de Fernando Collor, pelo Real, pela expansão da democracia sob Fernando Henrique Cardoso, parecem ter ficado obscurecidos exatamente quando uma conseqüência notável e quase impensável da democratização, a eleição de Lula, se consumou.


É sintomático, nesse contexto, que um jornal como O Globo esteja melhorando jornalisticamente a olhos vistos. É que o ‘jornalístico’ está cada vez mais divorciado do ‘político’. Como se o assunto fosse apenas ‘técnico’. Algo que o vitorioso projeto da Folha de S. Paulo perseguiu abertamente. É sintomático que nem o PT, que se pretendia partido de verdade, tivesse uma imprensa partidária digna do nome. Que jornais, com sua cultura própria, naufraguem sem suscitar uma discussão política, para já não dizer uma mobilização de jornalistas como a que na França, há algumas décadas, prolongou a vida do Le Monde.


Em alguns momentos a estreiteza mental desse contexto de aparente despolitização fica nua. As capas das três principais revistas semanais tratando do mesmo Paulo Coelho, nesta semana, dispensam comentário. Vê-las lado a lado nas bancas é uma experiência deprimentemente inesquecível, como foi exaltante ver crescer a manchete do Jornal do Brasil que dava dia a dia a dimensão da vitória do MDB em 1974. Em plena ditadura de Médici.



Complicações com a Receita


Armenio Guedes foi um dos jornalistas da Gazeta Mercantil que se recusaram a virar PJ (‘pessoa jurídica’), uma imposição a todo profissional que ganhasse mais do que R$ 2 mil. Disse-o em assembléias da redação. Várias vezes, chamado pela direção da redação, insistiu. ‘Podem comunicar à direção da casa que não aceito. Se quiserem, me demitam’, reiterou.


Outro é Jaime Matos, ainda editor de Revistas. Ele se recusou a assinar um documento mediante o qual deixaria de ser empregado. ‘A demissão só vale com homologação no Ministério do Trabalho, ou, por delegação deste, no Sindicato’, diz. Continua no jornal.


Matos afirma que a empresa proprietária da Gazeta Mercantil terá problemas com a Receita Federal. ‘Na hora de passar o trator, disseram que não haveria corte de salários. É achismo, mas penso que não quiseram assustar o pessoal. Então, passaram a depositar em contas bancárias, na base de um contrato de pessoa jurídica, o valor aproximado do salário líquido’, conta. ‘No meu caso, é o valor exato.’


Chicago, anos 20


O salário líquido, diz o jornalista, passaria a ser o bruto. ‘Mas continuaram a pagar no mesmo banco, na mesma conta’. Sem recolher o Imposto de Renda. Matos consultou um auditor da Receita Federal, que lhe disse, palavras de Matos: ‘Em nenhuma hipótese a empresa pode depositar sem recolher impostos, ou seja, deixar isso a cargo do [ex] empregado’.


No fim do ano, a direção da Gazeta Mercantil constatou que não tinha como declarar esses depósitos. O jornal não forneceu a ninguém os informes para a declaração do Imposto de Renda. Resultado: nenhum empregado conseguiu restituição de impostos pagos a mais. Se a empresa for autuada por isso, a Receita Federal cobrará R$ 43,41 por declaração faltante relativa ao exercício de 2004.


‘Até aí, é café pequeno’, diz Matos. ‘Na base do chute, calculo que tenham deixado de recolher R$ 3,5 milhões. A multa, nesse caso, é de 300%. Vira um bolo de R$ 14 milhões. A Receita vai abrir mão de receber esse dinheiro?’


Matos, que conserva o bom humor apesar do clima melancólico da Redação, não perde a deixa da comparação: ‘A polícia de Chicago não prendeu Al Capone. Quem prendeu foi a receita dos Estados Unidos, como sonegador.’

***


Nota do OI: São numerosos os testemunhos sobre o drama vivido pelo jornal e pelos jornalistas da Gazeta Mercantil, após tantos meses de trombadas e desencontros entre os controladores da empresa e os empregados. Este Observatório está aberto à publicação de relatos de experiências vividas na Gazeta nesse período sombrio. Se é o seu caso, e se lhe for conveniente, envie um texto que possa ser publicado com assinatura para (canaldoleitor@ig.com.br), com ‘Gazeta Mercantil’ na linha de assunto. Por mais razoáveis que eventualmente pareçam, ofensas pessoais estão vetadas. (L.E.)

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