Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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CADERNO DA CIDADANIA >

Racismo explícito em tradução suspeita

Por Alexandre Eisenberg em 26/09/2006 na edição 400

Definir o termo racismo numa época em que a mesma ciência biológica baseada na qual o termo foi cunhado nos revela que raças na verdade não existem (Boyd, Silk, 2000 e principalmente Cavalli-Sforza et al, 1997) não é uma tarefa tão fácil quanto foi até antes do surgimento das tecnologias que nos vêm dando acesso ao genoma humano (ver também Gil-White, 2004, em). Mas a nosso favor conta o fato de que o racismo, ainda que este termo se baseie numa fraude pseudocientífica – justamente o conceito inteiramente obsoleto de raça – nada tem a ver com ciência, mas tão somente com ideologia.

Por que é tão importante a distinção acima num pequeno artigo sobre uma publicação jornalística periódica? Ora, precisamente porque é comum assumirmos a (ou alguma) noção de raça como realidade natural – e portanto, para o leigo, científica – e a partir desta noção definirmos o que chamamos de racismo. Assim, justamente porque o conceito de raça mais comum é o da cor da pele, muitos racistas, em especial os anti-semitas (aqueles que execram os judeus em particular), se defendem da vergonha pública associada ao termo racista alegando que “anti-semitismo não é racismo porque judeu não é raça”. Hoje sabemos, como mostram os especialistas acima citados, que não são somente os judeus que não são raça, mas que ninguém é raça, já que o conceito de raça é hoje tão obsoleto quanto a idéia medieval de que a Terra é plana.

Mas o termo racismo não só permanece como seu significado é até exacerbado pela hoje comprovada inconsistência do conceito de raça, pois o racismo é uma ideologia e, como toda ideologia, sua meta é política e baseada no que hoje sabemos ser uma fraude. Assim, quando um anti-semita diz que não é racista, ele nada mais faz que justificar o seu racismo em particular, e portanto a sua agenda ou propaganda política, a qual requer a demonização máxima dos judeus – e hoje também de seu Estado – para distrair a atenção de seu público-alvo dos crimes perpetrados por ele (o anti-semita e os que agem sob sua ideologia) contra este mesmo público-alvo (retomarei este tema no final deste artigo).

Feitas as observações acima, tomemos a breve notícia publicada na última edição da revista Caros Amigos (14 de setembro de 2006):

“Rabinos americanos dizem que morte de civis não-judeus não é problema”

 O Conselho Rabínico Americano, que congrega os chamados rabinos ortodoxos modernos dos Estados Unidos, divulgou uma declaração segundo a qual as Forças de Defesa de Israel não devem se preocupar com a morte de civis não-judeus em ataques contra o Hezbollah. De acordo com a declaração, as regras religiosas do judaísmo implicam que um soldado judeu não pode pôr sua vida em risco para salvar civis não-judeus. A notícia foi publicada pelo jornal progressista judeu americano Forward. Ver, em inglês (copie e cole), em http://www.forward.com/articles/rabbis-israel-too-worried-over-civilian-deaths/”.

Ao ler a notícia acima, o que o leitor leigo será induzido a pensar? Obviamente que os judeus mais religiosos – contrapostos aqui a supostos progressistas e chamados de ortodoxos, ou seja, os mais judeus dentre os judeus – pregariam o pouco-caso com não-judeus, o que equivale a pregar a superioridade dos judeus em relação aos demais. Em outras palavras, a revista Caros Amigos está acusando os judeus exatamente daquilo que foi a ideologia nazista e que é, até hoje, a ideologia eugenista preconizada pela elite norte-americana (ver em detalhe a série em http://www.hirhome.com/rr/rrcontents.htm para documentação), da qual os nazistas aprenderam e puseram em prática em escala muito maior que seus professores norte-americanos.

Dois problemas

Ora, uma vez que o judaísmo é exatamente a religião que prega o oposto da eugenia, o oposto do racismo e a inclusão social por excelência (veja http://www.chabad.org/library/article.asp?AID=305549 para a visão real dos judeus ortodoxos a respeito), é inteiramente absurdo imaginar que logo os judeus mais religiosos estariam pregando idéias eugenistas.

Antes de diagnosticar o que está por trás da ideologia dos editores da Caros Amigos, verifiquemos se seus editores de fato reproduziram corretamente o conteúdo da notícia original do Forward (isto é importante porque a maioria dos leitores tipicamente não consulta a fonte – quando esta é fornecida – e muitos não lêem inglês). Eis os dois parágrafos iniciais do texto original (tradução e ênfase são minhas):

“Enquanto as organizações internacionais de direitos humanos denunciam o grande número de mortes civis na guerra do Líbano, a principal organização dos rabinos ortodoxos modernos dos EUA pedem ao exército israelense que se preocupem menos em evitar mortes civis nas futuras operações militares.

Após uma missão de solidariedade a Israel na semana passada, líderes do Conselho Rabínico dos EUA se pronunciaram, instando o exército israelense a rever sua política de evitar ao máximo a morte de civis inocentes, visto que o Hizbollah se usa da tática de esconder seus combatentes e armamentos em meio aos civis libaneses. Uma vez que o Hizbollah coloca homens e mulheres israelenses em total risco de vida ao usar seus próprios civis, hospitais, ambulâncias, mesquitas… inescrupulosamente como escudos humanos, pólvora de canhão e armas de guerra assimétrica, o conselho rabínico disse num pronunciamento: nós cremos que o judaísmo nem exige nem permite que um soldado judeu sacrifique sua própria vida para salvar civis do lado inimigo que são propositalmente postos em perigo pelo inimigo.

Obviamente, foi a partir desta última citação que os editores da Caros Amigos se basearam para acusar os “rabinos americanos” (como consta no título da notícia) de eugenia. Há dois problemas a serem analisados aqui.

Pequena minoria

Os editores da Caros Amigos enganam o seu leitor duplamente – em primeiro lugar quando usam de generalização no título da notícia, falando apenas de “rabinos americanos”. Fizeram-no de má-fé, pois qualquer profissional de imprensa sabe que os leitores se dividem numa maioria que só lê o título, uma minoria razoável que lê somente até o segundo parágrafo, um grupo menor que lê o texto inteiro e finalmente uma minúscula minoria que consulta as fontes (quando fornecidas) ou busca verificar a veracidade do que leu.

Em outras palavras, a maioria dos leitores é levada neste caso a pensar que os rabinos americanos (ou seja, o que o público lê como os mais judeus dentre os judeus dos EUA) não se importam com a morte de quem não é judeu, o que, conforme visto acima, é totalmente falso.

Em segundo lugar, para o leitor da Caros Amigos que leu a notícia toda, ficou claro que “os rabinos americanos” refere-se apenas aos rabinos ortodoxos modernos, os quais (isto a Caros Amigos não conta), entre as divisões do judaísmo contemporâneo, constituem apenas uma pequena minoria dos rabinos existentes. Isto é especialmente verdadeiro nos EUA, onde a maioria dos judeus (que se identificam como tais) são filiados ao movimento reformista, cuja orientação política, no que tange a Israel, é a da extrema esquerda israelense, a qual abrange desde anti-sionistas convictos (judeus que se opõem à própria existência de seu país) até os sionistas que foram totalmente contra a operação israelense no Líbano. Isto demonstra claramente a má fé dos editores da Caros Amigos.

Todo um grupo

A frase em destaque na citação acima é a expressão de um grupo religioso judeu sobre como deve comportar-se um judeu em situação de guerra conforme o judaísmo. Da mesma maneira, um religioso cristão, ao expressar como deve comportar-se um cristão, referir-se-ia ao cristão como cristão e conforme o cristianismo. Isto não implica fazer pouco dos demais. A Caros Amigos portanto de novo enganou seu leitor ao fazer uma tradução incorreta do original inglês com o intuito de manchar a imagem dos judeus religiosos em geral como um grupo pérfido.

Como vemos acima, a frase da Caros Amigos segundo a qual “as regras religiosas do judaísmo implicam que um soldado judeu não pode pôr sua vida em risco para salvar civis não-judeus” é, no mínimo, uma distorção do sentido original em inglês, que em nenhum momento fala de não-judeus, mas sim de civis do lado inimigo. A distorção se transforma em crime de difamação e injúria quando a tradução, propositadamente errada, é lida no contexto do artigo original, omitido na notícia da Caros Amigos, onde os rabinos em questão explicam que não se pode nem deve pôr em risco a vida de soldados para salvar civis intencionalmente usados como escudos pelo inimigo. Está claro que os rabinos se referem a uma situação de guerra muito específica, e eles o explicitam no texto original. Trata-se da guerra assimétrica, cuja definição pode ser lida no site da Escola Superior de Guerra, em www.esg.br/cee/ARTIGOS/darc7.PDF.

Pois bem, ocorre que neste caso a difamação e a injúria vitimam não uma pessoa mas todo um grupo cultural, uma vez que a identidade judaica é determinada pela religião, e que é esta identidade a maneira como o público em geral identifica os judeus. Quando todo um grupo é assim vitimado, constitui-se então o crime de racismo, conforme definido pelas leis 7.716 e 9.459 do Código Penal Brasileiro, em especial os parágrafos 2 e 3 do artigo 20 da Lei 7.716, segundo sua revisão na lei 9459 de 1997, cujo caput diz

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/5/97)

Ação encoberta

Em verdade, este não é o primeiro texto racista publicado pela Caros Amigos, e provavelmente não será o último, até que alguém tome as medidas legais cabíveis contra a revista.

É importante que o público-leitor saiba que o uso dos judeus como bode expiatório de ideologias totalitárias ou semi-totalitárias constitui na verdade o mais antigo tipo de racismo registrado pela história ocidental, e continua sendo usado hoje tanto pelas elites muçulmanas como pelas elites ocidentais, inclusive muitos intelectuais de esquerda e seus seguidores políticos, cuja extraordinária decadência é facilmente medida através de sua defesa e importação do islamofascismo para dentro de seus países (o caso do PSTU é o mais extremo no Brasil).

Por fim, a ironia deste estado de coisas está justamente no fato de que a crescente prevalência da ideologia fascista na esquerda ocidental resulta justamente da ação encoberta, extremamente eficaz, da extrema direita, representada pelos serviços de inteligência da Europa e dos EUA, que justamente são o alvo maior dos ataques da esquerda! De qualquer forma, o que importa a todos é que a história dos últimos 2000 anos mostra que a propaganda racista antijudaica e os subseqüentes massacres de judeus – sejam estes obra de não-judeus ou de judeus renegados – sempre resultou no massacre de todos os demais, como foi na terrível e enorme sobrevida do sangrento Império Romano, nos longos séculos de atraso social e educacional da Europa medieval, nos milhões de mortos produzidos pelos totalitarismos nazi-fascista e soviético, e hoje nos mortos, médio-orientais ou ocidentais, produzidos pelo totalitarismo islamofascista.

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Professor universitário

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