Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Réplica a um artigo sobre a luta armada

Por Carlos Eugênio Paz em 25/11/2008 na edição 513

O que quer o jornalista Augusto Nunes quando defende que guerrilheiros que combateram a ditadura militar de direita (e se havia uma ditadura é porque o jogo democrático já havia sido rompido por eles) são iguais e merecem o mesmo tratamento que aqueles que torturaram e assassinaram covardemente presos amarrados e sob a custódia do Estado brasileiro? E que praticaram isso como estratégia de luta e método sistemático de manutenção do poder.

O que quer Augusto Nunes quando ataca o governo do Lula sob o ponto de vista da direita conservadora, diferenciando-se claramente dos que o criticam construtivamente e fraternalmente, mas reconhecem os imensos avanços do país, finalmente conhecendo o que é governar olhando para o povo e suas necessidades?

O que quer Augusto Nunes quando publica um artigo como este, dado no Jornal do Brasil em 19 de novembro de 2008?

Precisa dizer?

Coisas da Política

As travessuras do jovem combatente

Augusto Nunes

Ele abriu a porta do apartamento ansioso por anunciar a opção que tomara. Encontrou na poltrona da sala o irmão mais velho, esperou que interrompesse a leitura do jornal e, com voz grave, informou: ‘Fiz uma opção político-ideológica definitiva. Sou marxista-leninista.’ Desconsertou-se ao ver que a expressão do primogênito exibia a placidez de quem ouvira o caçula avisar que estava de saída para tomar algumas no bar da esquina. Sem nenhum sinal de abalo, o alvo da notícia formidável reagiu com uma interrogação distraída: ‘Você já leu muita coisa sobre isso?’, perguntou. ‘Li o suficiente’, mentiu naquela noite de outubro de 1968 o estudante de 19 anos que, em janeiro, trocara a cidade interiorana pelo Rio.

Até então, o plano era cursar a Faculdade Nacional de Direito, depois o Instituto Rio Branco e, se Deus ajudasse, virar embaixador em Paris. Sempre com voz distraída, o irmão quis saber se aquilo estava de pé. ‘Não’, ofendeu-se o convertido. ‘O dever de um revolucionário é fazer a revolução.’ E então soltou a declaração decorada para matar no nascedouro aquele sorriso de Mona Lisa: ‘Estou disposto a qualquer sacrifício para implantar no Brasil o socialismo. Não tenho dúvidas sobre o que devo fazer na vida.’

‘Que bom!’, retomou a leitura do jornal o irmão. ‘Tudo o que eu queria era ter 19 anos e nenhuma dúvida. Estou com 25 e cheio delas.’ Ambos em silêncio, só o caçula escutou o estrondo das interrogações soterrando o poço de certezas inaugurado na manhã daquele dia. A ironia feita de 19 palavras induziu o revolucionário de 19 anos a passar os meses seguintes flagelando-se com perguntas. As respostas o aconselharam, no fim de 1969, a recusar a adesão à luta armada, quase imposta a ovelhas desgarradas por pastores implacáveis. Quem se afastava do rebanho não tinha o direito de proclamar-se dissidente. Tanto os que renunciaram ao combate quanto os que se juntaram à resistência democrática eram, todos, desbundados.

Além da generosidade genuína, além da cólera provocada pela ditadura brutal, sufocante, liberticida, além da pressa em erradicar a tortura, além do inconformismo com um país injusto, também a vigilância ameaçadora dos jovens comandantes engrossou a procissão dos passageiros da utopia que se meteram na travessia da picada do penhasco. Quem começasse a percorrê-la teria de avançar até a chegada – ainda que não houvesse chegada.

Os desbundados de 1968 sofriam condenações morais. Na virada da década, quem tentasse desviar-se do caminho ou propor mudanças de rota estaria exposto aos castigos reservados pelo código penal da luta armada aos traidores, vacilantes ou desertores. Qualquer desses adjetivos justificava a aplicação da pena de morte. Os juízes eram jovens demais, os réus estavam longe da maturidade. Mas os componentes do tribunal agiam com a soberba dos veteranos. Os carrascos, também.

Márcio Leite de Toledo tinha 19 anos quando foi enviado a Cuba pela Aliança Libertadora Nacional para fazer um curso de guerrilha. Ao voltar em 1970, tornou-se um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN. Com 19 anos, lá estava Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz. Em outubro, durante uma reunião clandestina, os generais garotões souberam da morte de Joaquim Câmara Ferreira, que em novembro do ano anterior substituíra o chefe supremo Carlos Marighela, assassinado numa rua de São Paulo. Márcio propôs uma pausa na guerra antes que fossem todos exterminados.

Já desconfiado de Márcio – não era a primeira vez que divergia dos companheiros – Carlos Eugênio convenceu o restante da cúpula de que o dissidente estava prestes a traí-los e entregar à polícia o muito que sabia. Montou o tribunal que aprovou a condenação à morte e ajudou a executar a sentença no fim da tarde de dia 23 de março de 1971, no centro de São Paulo. Antes de sair para o encontro com a morte, o jovem que iria morrer escreveu que ‘nada o impediria de continuar combatendo’. Não imaginava que seria impedido por oito tiros.

O assassino quase sessentão admite que o crime foi um erro, mas não se arrepende do que fez. Na guerra, essas coisas acontecem, explica o justiceiro impiedoso. Depois do crime, ele se tornou muito respeitado pelos companheiros, que o conheciam pelo codinome: Clemente.

‘Os inimigos existem’

Sobre o cabo Anselmo, na única vez em que nos vimos ele veio ao ponto com o famigerado delegado Fleury. Como já estava desconfiado e tinha tomado minhas precauções, o tiroteio foi terrível, mas escapamos todos. Estávamos no fusca da Ação Libertadora Nacional – ALN, eu, o Iuri Xavier Pereira, seu irmão Alex de Paula Xavier Pereira e a companheira Célia, que é sobrevivente, mãe de Alina, filha de Luiz Almeida Araújo (Luiz, imão de Amparo, não teve a mesma sorte, é um dos desaparecidos: foi entregue ao delegado pelo cabo Anselmo, assim como Paulo de Tarso Celestino e Eleni Guariba) e pode confirmar tudo. No tiroteio consegui acertar um tiro no delegado. Infelizmente fui incompetente, pois só acertei o nariz do torturador. Não me incomodo em nada com a pessoa do cabo, me incomodo com a ausência do Luiz, com a ausência do Paulo, com as ausências dos irmãos Iuri e Alex.

A lembrança dessa época, para mim, é lembrança de uma luta que não me arrependo de ter travado. Era uma luta armada, era dura, precisamos todos, humanistas que éramos, aviltar nossas entranhas, nosso sentimentos, nossas convicções. E fomos exterminados. Mas nossas idéias não, e faço questão de dizê-lo porque sem elas não seria possível muitas das conquistas de hoje. Estamos no caminho, não chegamos ao sonhado ‘carnaval da vitória’, mas será que haverá necessidade de um carnaval da vitória? Será que a vida não é assim mesmo, feita de pequenas vitórias e grandes derrotas?

Acho admiráveis as pessoas que conseguem pensar até na humanidade das feras. Nada mais humano que as feras. Aliás, gostaria de ser tão compreendido por meus pares, por minha geração, que é linda, mas perdoa mais facilmente os inimigos que compreende os companheiros. Pensemos. Pensemos em quantas vezes nos surpreendemos sendo implacáveis conosco mesmos e magnânimos com os inimigos. Sim, essa categoria existe. Eles, os inimigos, existem. E nos tratam como tal, como inimigos.

Doidivanas aventureiros

Mas nós exercitamos nossas almas, nossas cabeças, a descobrir como sermos superiores a eles, entendendo seus gestos, compreendendo as situações a que estavam submetidos. Vivi o início da luta, quando caminhávamos com flores nas mãos em direção ao poder, sobrevivi (peço que parem de me culpar por isso), e vivi o meio e o fim. Vivi cercado, vivi um ‘tempo de guerra, um tempo sem sol’ (obrigado, Guarnieri), vivi um tempo em que sair nas ruas era tiroteio na certa. Falo de 1969, 1970, 1971, 1972 e 1973. Minha mãe, também militante da ALN, viveu e foi presa em 1974. Foi torturada pelo Fleury, pela sua equipe toda e ainda foi torturada pelo Otávio Ângelo (o Tião da ALN e Molipo, que saiu no seqüestro do cônsul japonês e agora também que ser indenizado) e pelo Telmo (o Churrasquinho de Mãe da ALN, lá do Ceará). Manteve a dignidade. Mantivemos a dignidade.

E outro dia, uma pessoa (de quem não digo o nome, quem leu meus livros sabe que só acuso quem mudou de lado, como o cabo, o José da Silva Tavares e outros) mandou uma mensagem exigindo minha saída de outro grupo, o 40anosde68@yahoo.com.br porque, segundo ela, eu sou um sanguinário. O grupo rejeitou. Tenho sangue em minhas mãos? É claro que tenho. Não era pra lutar? Não era pra fazer uma guerra de guerrilhas? Dá para medir quem estava mais certo? Todos estávamos errados, pois fomos todos derrotados. Perdemos a guerra e perdemos juntos, a menos que alguém tenha chegado ao poder na época, através das armas.

E quem não tem sangue nas mãos, que louve a cada dia que restar de suas vidas, não ter de conviver com isso. Mas não se esqueçam também que o sangue que escorre de minhas mãos escorre das mãos de todos aqueles que um dia escolheram o caminho das armas para libertar um povo. E que defenderam a luta armada, mesmo sem ter dado nenhum tiro porque eu e meus companheiros que estivemos na linha de frente não o fizemos por sermos doidivanas aventureiros. Pegamos em armas e fomos para a linha de frente porque havia a grande parte de uma geração que defendia isso, que pregava isso.

Com honra e orgulho

Então, minha linda geração, é hora de saber que os sonhos que sonhamos juntos eram feitos de generosidade, de beleza, de compartilhamento, de dedicação, de criatividade, de desprendimento, de poesia, mas também de sangue. E se compreendemos e lutamos por aqueles que foram torturados, assassinados, mortos em combate (esses também existiram, é sempre bom lembrar), é bom também aceitar, digerir e respeitar os que estiveram na linha de frente e verteram sangue. E pensar que eles têm feridas, eles sofrem, e têm de conviver com seus atos. E que por esses atos somos todos responsáveis, os que pregamos a luta armada. E que faria muito bem a eles de vez em quando serem lembrados como parte do mesmo sonho e serem compreendidos e aceitos por sua geração, pois afinal de contas eles são iguais aos que morreram, apenas não morreram. Será isso um crime? Será um crime não estar nas estatísticas? Pois vale lembrar que não contamos nunca os sobreviventes.

O cabo Anselmo, independentemente se era infiltrado em 1964 ou se foi depois, é um inimigo. Ele entregou cerca de duas centenas de companheiros nossos à repressão. Companheiros que foram torturados, alguns até a morte. Estou cagando (perdoem-me a palavra chula, mas é que às vezes só assim expressamos nossos sentimentos) para a humanidade dele. Quero saber do Paulo de Tarso Celestino, do Luiz Almeida Araújo, da Eleni Guariba, do Alex, do Iuri, da Lola, da Gastone, do Luiz Afonso, do Aldo Sá Brito (poeta), do Marighella, do Toledo, do Lamarca, da Yara, da Sônia, da Ana Nacinovic e de todos os outros, nossos pares. E se não tomarmos uma posição firme, logo-logo ele será anistiado. Será anistiado antes de mim, se algum dia eu for. Mas como as coisas sempre acabam sendo mais difíceis para mim, estou acostumado. Só gostaria que me perdoassem o desabafo.

Carlos Eugênio – Clemente, com muita honra e orgulho

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Escritor, Rio de Janeiro, RJ

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