Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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CADERNO DA CIDADANIA >

Reportagem de uma guerra esquecida

Por Luciano Martins Costa em 23/12/2008 na edição 517

Veja (edição 2092, de 24/12/2008) resolveu celebrar o Natal lembrando as iniqüidades do mundo. Escolheu Darfur, no Sudão, o lugar onde se desenrola um genocídio quase sem ruídos, enquanto a imprensa internacional, os governos e as instituições multilaterais discutem a crise financeira agravada por golpistas de variados naipes.


O enviado especial da revista faz um relato da ‘guerra invisível’, aquela que se desenrola sob o mando da omissão geral, olhando a partir dos acampamentos onde se amontoa quase metade dos 6 milhões de habitantes de Darfur. A reportagem sai quase ao mesmo tempo em que um dos responsáveis por outra tragédia africana, o coronel da reserva do exército de Ruanda Théoneste Bagosora, é condenado à prisão perpétua por um tribunal criado pela ONU, por suas responsabilidades no massacre de 800 mil cidadãos da etnia tutsi.


Em entrevista ao programa Observatório da Imprensa no rádio, transmitido entre 22 e 26/12, o jornalista João Paulo Charleaux, ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional, fala da perversidade que representam os conflitos permanentes, também chamados de ‘guerras silenciosas’, porque, de tão presentes e duradouros, saem do foco da imprensa e da atenção da sociedade, apesar de continuarem a produzir sofrimento e mortes aos milhares.


Extremo oposto


Veja traz para a dura realidade africana uma reflexão sobre a mensagem do cristianismo, sempre iluminada na época natalina. Apesar de um artigo de abordagem controversa e qualidade discutível inserido no meio da reportagem, trata-se de um trabalho digno de observação, especialmente se for levado em conta que os personagens trazidos ao leitor são apresentados pelo enviado especial Diogo Schelp na inteireza de sua humanidade. Os relatos de sofrimentos inenarráveis, ou até mesmo incompreensíveis para quem vive em sociedades mais ou menos organizadas nas democracias ocidentais, misturam-se às manifestações de esperança e planos de vida que, apesar de tudo, subsistem.


Já se disse que a hipermediação permite tangibilizar o sentido de humanidade, mas de nada serviria a tecnologia sem a sensibilidade do contador de histórias. Quando o repórter deixa a redação e se dispõe a lembrar a sociedade de que as guerras esquecidas seguem matando apesar de não estarem presentes no noticiário do dia-a-dia, a imprensa está cumprindo seu melhor papel.


Em meio à numeralha do consumo neste lado do mundo, que interessa essencialmente como medida parcial da crise financeira, o mergulho do jornalista no extremo oposto da sociedade humana induz à lembrança de que somos mais do que protagonistas do mercado.


Oscilações da bolsa


Ao penetrar no lado obscuro do mundo, aquele onde a exclusão se apresenta tão absoluta que até a manifestação da mais remota esperança soa incongruente, a imprensa choca, mas no sentido de despertar, de sacudir as consciências.


O espetáculo da miséria e da violência brota das páginas da revista não como um filme de horror, mas como uma lembrança de que há muito mais no planeta do que investidores ludibriados por gestores espertos. As desgraças dos refugiados desfilam ao lado da grandeza moral de milhares de voluntários de várias partes do mundo que se dedicam a minorar seu sofrimento.


E o leitor se vê obrigado a lembrar que a tragédia africana nasceu da ganância dos colonizadores e ainda rende lucros no lado de cá do planeta, onde o maior sofrimento concebível ainda é a queda nos índices da bolsa de valores.

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Jornalista

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