Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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CADERNO DA CIDADANIA >

Se espremer sai sangue

Por Rodrigo C. Vargas em 29/09/2009 na edição 557

O gênero policialesco não é novo e existe muito antes da televisão. A espetacularização da violência ganhou forma ainda mais explícita com a imagem em movimento alimentando uma falsa idéia de verdade crua. No Ceará, quem esquece do personagem ‘Mão Branca’? Criminalizar a miséria passou a ser grande piada na terra dos humoristas. Os grupos de comunicação descobriram uma forma de entreter, manipular e eleger seus representantes nas várias esferas políticas.


O poder gerado por esse movimento foi capaz de fazer ignorar ordem do Supremo, e em 2007, o pedido do recém-empossado secretário da Segurança Pública e Defesa Social Roberto Monteiro para que cumprissem a lei. Somente agora, em 2009 é que o Estado resolveu dar um basta na chacota que virou o procedimento policial, exonerando três delegados. Parte da mídia logo tomou partido e juntamente com o legislativo do tipo ‘privado’ buscaram perverter a ação do secretário numa estratégia para fazer confundir.


Um apartheid legal


A decadência material da polícia civil (em greve) versus o aparato midiático do ronda no quarteirão não pode sombrear o abuso diário patrocinado pelos meios de comunicação. Pedir para deixar à vontade do preso aparecer na televisão é imoral e criminoso. Imoral num país onde não há acesso à educação de qualidade e portanto grande parte (receptores passivos) apenas tateia a informação ao invés poder entender, analisar, criticar, debater ou até mesmo ser capaz de propor sobre o que vê. E criminoso pelo simples fato de não respeitar a constituição brasileira.


Se isso não vale para os programas ‘se espremer sai sangue’ (como eram chamados os jornais do começo do século passado que estampavam cadáveres e os rostos dos presos nas páginas policiais), podemos então considerar que vivemos a apartheid e que a lei funciona de acordo com a classe social e criminosa do bandido. Nesse caso não são as respostas que poderiam jogar luz às dúvidas, e sim as perguntas: Se a criminalidade caísse vertiginosamente, o que fariam os apresentadores desses programas e os que defendem a sua existência? Com que promessa concorreriam aos mandatos? Com que plataforma política?


O telejornalismo é um ambiente claramente manipulado. Muitas vezes de forma inconsciente pelo repórter ou editor. Acontece na feitura da matéria. Durante a montagem somos afetados por tudo aquilo que ajudou a formar nosso caráter. São as técnicas ensinadas nas escolas de comunicação que permitem minimizar as falhas. Um bom exemplo aconteceu semana passada. Um homem negro e pobre tomou como refém uma mulher branca, empresária de classe média. O criminoso tinha uma granada na mão, e segundo o atirador de elite que fez o disparo que atingiu a sua cabeça, foi o motivador do tiro. No dia seguinte o franco-atirador foi parte de uma matéria em que visitava a família da mulher salva, tratado como herói. Se pudessemos trocar os atores de lugar e ao invés do homem de cor preta e favelado, a empresária estivesse segurando a granada, e em seguida fosse morta. Como a imprensa noticiaria o fato? O policial continuaria sendo herói? O método seria reavaliado?


É por esse ou outros acontecimentos que o cuidado com o que é publicado e/ou televisionado como notícia deve ser tomado. Programas policiais podem ser encarados por quem tem pouca formação critica como o real. É por isso que a necessidade de um conselho federal é cada vez mais urgente. Não para censurar, mas para acabar com a censura que existe.

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Jornalista, blogueiro e apresentador de TV, Fortaleza, CE

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