Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > SINDICALISMO E ANTI-RACISMO

Sem dados, a realidade é mascarada

Por Sandra Martins em 21/11/2006 na edição 408

A introdução da temática racial nas agendas das entidades sindicais de jornalistas é um dos desafios que deve ser abraçado por toda a categoria. A passos lentos, mas firmes, a discussão está sendo implementada nas entidades sindicais. Com a configuração do I Painel de Jornalistas Afro-Brasileiros no 32º Congresso Nacional de Jornalistas, realizado em Ouro Preto, em julho deste ano, representantes das Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojiras Rio e SP) e do Núcleo de Comunicadores Afro-Brasileiros do RS buscaram dar visibilidade às questões étnicas no mundo das comunicações.

Há muito que fazer, se considerarmos que a FENAJ, em quase 60 anos, tem mais de 40 mil jornalistas associados aos seus 27 sindicatos estaduais e quatro municipais, sendo que, até o momento, somente três entidades sindicais contam com alguns sindicalistas engajados na institucionalização da luta contra a discriminação no mercado de trabalho. Dos 32 congressos nacionais, a questão racial apareceu no formato de tese em dois deles, uma tese conjunta em 2004, e duas teses – Rio Grande do Sul e município do Rio de Janeiro – em 2005, além de painel específico.

A implementação de políticas de promoção da igualdade racial exige, no plano operacional, o enfrentamento de um problema básico: a falta de dados sobre a cor tanto dos empregados ou funcionários de uma empresa ou órgão público, quanto dos usuários de serviços públicos e privados. Com a ausência de dados, não há como se definir meta ou traçar estratégia. A realidade dos fatos torna-se irreal, mascarada. Para a Cojira-Rio, conforme tese apresentada no 32º Congresso Nacional de Jornalistas, a produção de dados é uma tarefa vital para que sejam desenvolvidas variadas análises qualitativas, que servirão tanto para as entidades sindicais formularem e defenderem cláusulas específicas nos acordos com os empregadores, incluídas as dirigidas à promoção da igualdade. Estes levantamentos também serão fundamentais para a produção de conhecimentos tanto no campo acadêmico como no de gestão empresarial.

Proporção mínima

Levantamentos censitários – agora acrescidos dos recortes de gênero, raça/etnia, pessoa com necessidade especial etc. – fazem parte de um antigo desejo da FENAJ e têm como ponto de partida a própria entidade sindical. Este processo envolverá a criação de comissões para organizarem discussões concernentes à temática racial, campanha de esclarecimento junto à categoria, capacitação do coletor e dos funcionários sobre questões raciais e a inclusão da autodeclaração étnico-racial nas fichas cadastrais nos sindicatos.

Em nosso caso específico, uma matéria publicada na imprensa acreana dá pistas para a falta de informações mais precisas e atualizadas: ‘Negros são pequenas minorias nas redações das empresas de comunicação em Rio Branco’. Dos 120 profissionais credenciados pelo Ministério do Trabalho filiados a sua entidade sindical, apenas cinco eram de cor negra, ou menos de 5% da categoria. Outra publicação, agora paulista, com dados apurados pela sucursal carioca, afirma que com raras exceções, negros e pardos convivem com a mesma realidade em quase todas as profissões no Brasil, cerca de 92%, em média, ganham menos que seus colegas brancos.

Pelos dados tabulados pelo IBGE do Censo 2000 por profissões, o jornalismo é uma das profissões que têm menor proporção de negros no país – apenas 15,7%. Cabe observar que atualmente não se pode subestimar o papel da categoria raça como elemento de hierarquização e diferenciação na distribuição das oportunidades econômicas. Daí a necessidade da formulação de um programa de formação sindical sobre relações raciais. É fundamental a produção e fornecimento de informações e subsídios, a partir de uma revisão crítica da concepção e prática sindical brasileira, como elementos propulsores da ação de sindicalistas, visando criar uma massa crítica no campo sindical.

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Jornalista da Coordenação da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio) do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro

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