Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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CADERNO DA CIDADANIA >

Seminário sobre o diálogo israelense-palestino

Por Heliete Vaitsman em 11/08/2009 na edição 550

Ao fim do Seminário Internacional de Mídia sobre a Paz no Oriente Médio (‘Promovendo o diálogo israelense-palestino – um ponto de vista sul-americano’), em 27 e 28 de julho, no Rio, ficou claro que é longo o caminho a ser percorrido. Até os cisnes do Itamaraty sabem que o intrincado xadrez geopolítico da região passa longe da influência da mídia, motivo do seminário… Mas foi enriquecedora a troca de opiniões no evento, organizado pelas Nações Unidas, e os discursos do ministro do Exterior Celso Amorim e do assessor para assuntos internacionais do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, foram convergentes e moderados (como convém a um Brasil em campanha por um lugar no Conselho de Segurança da ONU).

A relevância de palavras e imagens sobre corações e mentes, especialmente no tocante a situações que mexem com o imaginário étnico-religioso, os direitos humanos e o sofrimento de civis, consolidou-se com o fecho perfeito para o seminário: a apresentação de duas pequenas versões do premiado e comovente documentário Ponto de Encontro, co-dirigido pela brasileira Julia Bacha e por Ronit Avni. Estiveram no Rio dois de seus protagonistas, a israelense Robi Damelin e o palestino Ali Abu Awwad, ambos membros do Círculo de Pais – Fórum das Famílias, grupo que reúne cerca de 500 famílias enlutadas dos dois lados.

O documentário mostra como cidadãos comuns se levantam das cinzas da dor mais profunda para buscar vias de reconciliação em vez de ceder aos clamores por vingança (David, filho de Robi, foi morto por um franco-atirador palestino; o irmão mais velho de Awwad foi morto por um israelense) e às palavras de ordem políticas. Ela, que um dia emigrou da África do Sul para Israel, percorre, sempre com um parceiro palestino, comunidades e escolas do seu país e dos territórios ocupados e também viaja pelo mundo, pregando a necessidade de mediação e paz (veja mais aqui).

Colaboração da imprensa

No mais, não houve (nem se esperava) consenso. A ausência do prefeito de Gaza, à última hora impedido de viajar ao Rio, foi lamentada pelos israelenses, que tinham planejado discutir com ele vários pontos de projetos sanitários já prontos e com recursos alocados. Os projetos não foram implantados devido ao boicote do Hamas, informou o prefeito de Ashkelon – e esse tipo de informação dividiu a platéia, microcosmo da polarização que o tema Israel-Palestina produz, a ponto de levar uma jornalista israelense, editora do semanal Jerusalem Report, a fazer um pedido inusitado: ‘Não nos comportemos como torcidas organizadas’!

A maioria dos judeus presentes vibrou quando Yacov Achmer, do Canal 1 da TV israelense e especialista em assuntos internacionais, criticou as exigências palestinas, alegando que elas vão mudando à medida que Israel faz concessões. Depois de perguntar que Palestina a OLP queria libertar antes de 1967, ironizou a suposta neutralidade jornalística, declarando-se, nessa ordem, judeu, israelense e jornalista.

Já a esquerda e os árabes aplaudiram de pé Gideon Levy, colunista do jornal israelense Haaretz, para o qual nenhuma negociação irá adiante sem a retirada de Israel dos assentamentos e o fim de políticas humilhantes (como os postos de controle a que os palestinos têm que se submeter). Levy afirmou que a ocupação não teria se mantido sem a colaboração da mídia de seu país, ‘que há 40 anos está inteiramente a serviço do governo’.

Reiteração de estereótipos

Diante do argumento de que a mídia israelense é, ao contrário da árabe, plural e livre, divulgando todo tipo de avanço comportamental e escândalo empresarial ou governamental (inclusive escapadas sexuais de ministros), Levy apontou que quando se trata de segurança nacional e de árabes ela torna-se caudatária das posições oficiais e reforça percepções discriminatórias. Deu um exemplo recente: numa mesma edição, um grande jornal divulgou com destaque, e foto na primeira página, a história da morte do cachorro de estimação de um soldado israelense e jogou para a página 14 a morte de palestinos numa incursão militar de Israel.

É claro que nenhum palestino morador de Gaza faria esse tipo de autocrítica impiedosa! Foi com palavras cautelosas, pois, que alguns jornalistas palestinos garantiram que sua mídia não pertence ao Hamas, não quer o Hamas… mas convive com o Hamas. Portanto, nada de discutir censura: eles e elas ressaltaram a questão dos refugiados e de Jerusalém, reclamaram da existência de 11 mil prisioneiros palestinos em Israel (que recebem visitas, contrapuseram os israelenses) e protestaram contra a restrição aos seus movimentos e o estrangulamento econômico de sua população civil. Uma jornalista da TV israelense lembrou que as restrições ao ir-e-vir em áreas de conflito, imposta pelas Forças Armadas de Israel, atinge a todos.

Na contextualização reside um dos pontos críticos da informação/desinformação sobre o Oriente Médio. Como explicar certas peculiaridades da região ao público, sobretudo na América Latina? Como discutir fotografias de crianças mortas por bombas? Andrew Whitley, diretor do escritório da UNRWA (Relief Works Agency for Palestinians) levantou questões como essa. Para ele, a mídia deveria olhar mais ‘sob a superfície’ ao reportar o conflito, já que a reiteração de estereótipos não serve ao interesse de ninguém e deslegitima o outro. Daí a conclusão sobre a importância de todas as pontes, mesmo pequenas, como as que esse seminário estabeleceu entre interlocutores tão variados (israelenses, árabes, brasileiros, argentinos, egípcios, norte-americanos).

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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