Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > CASO LÍLIAN CELIBERTI

Sequestrador processa jornalista

Por Luiz Cláudio Cunha em 02/02/2010 na edição 575

O ex-policial do DOPS gaúcho João Augusto da Rosa, codinome ‘Irno’, está me processando por causa de meu livro Operação Condor: O sequestro dos uruguaios, lançado em 2008 pela editora L&PM (ver, neste OI, ‘Nas entranhas da Operação Condor‘).

O livro conta a história do sequestro de Lílian Celiberti, seus dois filhos menores e Universindo Diaz, ocorrido em Porto Alegre em novembro de 1978. Irno – ex-inspetor do DOPS e membro da equipe do delegado Pedro Seelig, principal nome da repressão no sul do país durante a ditadura militar – foi o agente que me apontou uma pistola na testa, no apartamento da Rua Botafogo, no bairro do Menino Deus, onde os policiais do DOPS e oficiais do Exército uruguaio mantinham Lílian seqüestrada.

Irno e outro policial do DOPS, o escrivão Orandir Portassi Lucas, ex-jogador de futebol ‘Didi Pedalada’, foram reconhecidos por mim e pelo fotógrafo J.B. Scalco como seqüestradores dos uruguaios. Ambos foram condenados pela Justiça em 1980.

Frente a frente

Na ação, Irno pede indenização por dano moral alegando que, no livro, não mencionei sua absolvição por ‘falta de provas’ no recurso que apresentou em 1983, em segunda instância. O policial esqueceu de dizer que então as ‘provas’ do seqüestro – Lílian e Universindo – estavam presas, sob tortura, nas masmorras da ditadura uruguaia, que acabou apenas em 1985.

O seqüestrador do DOPS gaúcho tenta reverter na Justiça a verdade que a imprensa brasileira publicou na época e que é recontada, em detalhes, no livro. Uma história que o Brasil todo conhece. Irno é um dos policiais identificados entre os seqüestradores dos uruguaios. O livro conta e reafirma uma história narrada há 30 anos em série de reportagens da revista Veja.

Agora, 32 anos depois do sequestro, Irno terá que enfrentar não só a verdade publicada pela imprensa. Como uma das testemunhas de defesa, a uruguaia Lílian Celiberti terá a chance de falar o que lhe foi sonegado dizer três décadas atrás. Pela primeira vez desde 1978, Lilian estará frente a frente com o seqüestrador Irno na audiência do processo marcada para quinta-feira (4/2), às 15h, na 18ª Vara Cível, no Foro Central de Porto Alegre.

Operação Condor: o sequestro dos uruguaios – que em 2009 recebeu o troféu Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e a Menção Honrosa do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos – acaba de ser agraciado com menção honrosa na categoria Literatura Brasileira (vencida pela escritora Nélida Piñon) no Prêmio Casa de Las Américas de 2010, em Havana, que reuniu 436 obras de 22 países.

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Jornalista

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