Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > QUINTA-FEIRA, 15/1

Silêncio de Fidel intriga cubanos

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 15/01/2009 na edição 520

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


 


CUBA
Reuters


Silêncio de Fidel intriga cubanos


‘Há cerca de um mês, o líder cubano Fidel Castro não publica seus artigos, considerados por muitos como um termômetro de seu estado de saúde. O silêncio editorial do revolucionário tem preocupado a população da ilha.


A saúde de Fidel é um segredo de Estado em Cuba e as mais de 180 colunas de opinião, escritas desde março de 2007, são consideradas um indicador de sua atividade.


‘Acho que a menor visibilidade indica um agravamento de sua saúde’, disse Dan Erikson, especialista em Cuba do Inter-American Dialogue, de Washington. ‘Contudo, o fato de ele desaparecer um tempo não significa que no futuro não volte a aparecer.’’


 


 


TECNOLOGIA
O Estado de S. Paulo


Jobs se afasta do comando da Apple


‘Steve Jobs, cofundador e presidente executivo da Apple, vai se afastar da empresa até o final de junho para cuidar da saúde. O anúncio vem apenas uma semana depois de o executivo ter afirmado que a razão da extrema magreza que vem apresentando nos últimos tempos era resultado de um ‘desequilíbrio hormonal’, um problema que seria de fácil solução.


Em uma carta divulgada na semana passada, Jobs havia dito que, apesar do problema, se manteria à frente da empresa. Ontem, porém, em uma mensagem enviada aos empregados da empresa, ele voltou atrás. ‘Durante a última semana descobri que os problemas relacionados à minha saúde são mais complexos do que havia imaginado’, disse.


Na ausência de Jobs, o diretor de operações da Apple, Tim Cook, será o principal executivo da empresa. Mas o mercado financeiro não digeriu muito bem a informação, e as ações da Apple chegaram a cair 9% nas operações realizadas após o fechamento das bolsas americanas.


Jobs anunciou em 2004 que havia se submetido, com sucesso, a uma cirurgia para a retirada de um câncer no pâncreas. Mas as especulações sobre o estado de saúde do executivo ressurgiram com força no ano passado, quando ele apareceu em um evento da empresa muito mais magro do que o habitual.


Jobs é a peça chave por detrás do êxito dos produtos da Apple, incluindo os computadores Macintosh, os tocadores de música digital iPod e o iPhone. ‘Isso é algo de que não precisamos nesse momento. Essa notícia da Apple dá aos investidores uma nova angústia a ser digerida’, disse Tom Sowanick, presidente de investimentos da Clearwater Financial. ‘É verdade que os mercados já vêm acumulando um risco a respeito da saúde de Steve Jobs, mas as ações da Apple ainda vão sofrer muito com essa notícia.’


Para muitos, Jobs é considerado como líder insubstituível na Apple. Ao lado de Steve Wozniak, ele fundou a empresa em 1976. Porém, em 1985, o conselho de administração da companhia, que tinha se tornado uma gigante, forçou-o a deixar a direção. Voltou em 1997, em um momento em que a empresa estava em uma situação muito frágil, e salvou-a da falência.


Os problemas com a saúde do executivo complicam ainda mais o que já se esperava que seria um ano difícil para a Apple – assim como para toda a indústria eletroeletrônica -, uma vez que a crise global vem fazendo com que caiam os gastos dos consumidores.


Alguns analistas temem que, sem um grande produto para lançar, como o iPhone 3G, no ano passado, a Apple não tenha um grande catalisador de vendas e seus resultados caiam. Uma amostra disso já foi dada na conferência MacWorld, na semana passada. Sem a presença de Steve Jobs, o máximo que a empresa apresentou foram atualizações de softwares já existentes e a eliminação da proteção contra cópias vendidas pela empresa via internet.’


 


 


CINEMA
Reuters


Filme brasileiro fica de fora do 81.º Oscar


‘O filme brasileiro Última Parada 174, de Bruno Barreto, ficou fora da lista de candidatos a melhor filme estrangeiro no Oscar, informou a Academia anteontem. Outra ausência sentida foi o italiano Gomorra. Nove filmes, de uma lista de 65, avançaram para a próxima fase. Entre os escolhidos está Valsa com Bashir, ganhador do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. A 81ª edição do Oscar ocorre no dia 22 de fevereiro. Entre outros filmes que seguem na disputa estão 3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia), The Baader Meinhof Complex, de Uli Edel (Alemanha), e Entre les Murs, de Laurent Cantet (França).’


 


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Autor poupa famosos


‘Nara Leão e até parte dos Matarazzos foram poupados na minissérie Maysa, da Globo. Sentida por muitos, a ausência da citação de Nara na produção – que na época, era a namorada de Ronaldo Bôscoli hostilizada por Maysa – não é falha de roteiro. Foi um pedido dos filhos da cantora, atendido pelo autor Manoel Carlos.


‘Não houve nenhum veto, mas alguns pedidos. A segunda mulher de André Matarazzo, que ainda está viva, pediu que a camuflassem com outro nome e outra profissão’, conta o autor.


Maneco garante que está muito feliz com o resultado da minissérie, que foi aprovada pelo público.


Ele também conta que, a princípio, chegou a sugerir na Globo que a produção tivesse 13 capítulos – e não só 9 – , o que não foi possível porque mexeria com a grade da emissora. Vale lembrar que a última semana da minissérie encontrou-se com a estreia do BBB9.


O autor ainda explica que foi uma opção sua a narrativa não-linear em Maysa.


‘Acho cansativo contar uma história seguindo uma cronologia. Isso pode funcionar com biografia escrita, não quando se usa imagem’, explica ele.’


 


 


 


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


 


IMAGEM
Carlos Heitor Cony


O rosto e a luta


‘RIO DE JANEIRO – Cena de um desenho animado visto na TV: milionário desmiolado candidata-se a prefeito de sua cidade. Em casa, diante do filho, diz que se apresentará ao eleitorado de forma transparente, sem enfeites nem disfarces, mostrando-se tal como é. Num gesto teatral, arranca a peruca para jogá-la no lixo. Apatetado, o filho comenta: ‘Mas pai, o senhor nunca usou peruca!’. Com os cabelos na mão, o pai insiste: ‘De hoje em diante, serei como sou!’.


Muito se escreveu sobre a necessidade da boa apresentação. Não só para atores, artistas e derivados mas para políticos e administradores. O próprio Lula mudou de visual quando começou a alçar voos mais altos, aparou a barba espessa e rude que lhe dava um ar de anarquista desativado.


As primeiras fotos de Machado de Assis são cruas, vulgares, mostram um mulato feio que deseja subir na vida. Aos poucos vai se transformando, ganhando nobreza, até terminar, na fase adulta, num retrato em que o artista o pintou como um varão de Plutarco.


Ontem me perguntaram o que estava achando do novo visual de dona Dilma Rousseff, que passou por ligeira lanternagem, preparando-se para enfrentar o tsunami eleitoral que se adivinha pela frente, sendo ela até agora a candidata preferencial do presidente para substituí-lo.


Sem entrar em detalhes técnicos, acho que ela ficou bem, remoçou, perdeu o ar de catequista, de cientista social. Não digo que tenha ficado mais bonita -ela nunca foi feia, para o meu gosto até que era atraente com óculos e tudo.


O mal dessas lanternagens plásticas é que todas elas acabam se parecendo. Acredito que dona Dilma não precisasse arrancar a peruca que nunca usou para melhor impressionar os caciques partidários e o eleitorado em geral.’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Ao guarda-chuva estatal


‘A Fiesp de Paulo Skaf, que voltou aos comerciais do Sesi no horário nobre, também ‘voltou a defender a redução da jornada de trabalho e dos salários’, nas manchetes on-line e dos telejornais, inclusive ‘Jornal Nacional’. No enunciado da Folha Online, ‘Indústria quer cortar salário, mas rejeita garantir emprego’.


Por outro lado, o ‘Financial Times’ anunciou que os investidores estrangeiros, em 2009, ‘encontraram abrigo sob o guarda-chuva estatal’. O ano começou com os gerentes de aplicação voltados às ‘áreas de mercado bancadas por apoio governamental’. Entre os emergentes, ‘há pontos de luz -como o Brasil’. O jornal destacou os investimentos da britânica BG e da americana Exxon na estatal Petrobras, pelo pré-sal.


A INVASÃO CHINESA


A notícia surgiu no ‘South China Morning Post’, jornal de capital privado de Hong Kong, e se espalhou por Reuters, ‘Financial Times’, ‘New York Times’: a mídia estatal chinesa está investindo 45 bilhões de yuan (US$ 6,6 bilhões) para ‘criar órgãos internacionais de notícia’. O plano inclui um canal que seguiria o modelo da Al Jazeera, do Qatar.


Entre as estatais envolvidas estão a agência Xinhua, a rede CCTV e o ‘Diário do Povo’, do Partido Comunista. Em artigo publicado no jornal ideológico do PC, o chefe de propaganda, Liu Yunshan, escreveu que ‘virou tarefa estratégica urgente elevar a nossa capacidade de comunicação até o nível de nosso status internacional’.


EMPREGO


A origem do noticiário sobre a mídia chinesa foram ofertas de emprego para jornalistas ocidentais em sites como o Danwei, que monitora jornais do país. Oferecem vagas em títulos como o nacionalista ‘Global Times’, tabloide estatal que terá versão em inglês, e na Xinhua.


O site da ‘Time’ nota que ‘são tempos difíceis para a mídia, mas surge esperança na China. Só que estatal’.


DESEMPREGO


Sobre a mídia americana, ontem na home do ‘NYT’, o destaque foi o anúncio pela rede Gannett, a maior do país, de férias forçadas para perto de 30 mil funcionários, por uma semana. Ela tem 85 jornais, inclusive ‘USA Today’, a maior circulação dos EUA. A decisão, sublinha o ‘NYT’, vem depois do pedido de falência da rede Tribune e do alerta do ‘Seattle Post-Intellinger’, prestes a fechar.


LIQUIDAÇÃO


A manchete on-line do britânico ‘Guardian’, ontem, noticiou a compra do ‘Evening Standard’, um dos jornais mais tradicionais de Londres, pelo bilionário russo Alexander Lebedev, ‘oligarca’ que enriqueceu na onda de privatizações russas na última década. Ex-agente da KGB, ele se opõe a Vladimir Putin. Ouvido, disse que vai manter a linha política conservadora do ‘Evening Standard’.


CAMPEÃO DE AUDIÊNCIA


O ‘FT’ noticia que grandes marcas disputam os intervalos comerciais da transmissão da posse como se fosse Super Bowl, pela audiência esperada. A Pepsi decidiu lançar seu ‘Optimism Project’. A Quaker Oats, uma campanha para alimentar 1 milhão de famílias pobres. E as organizações de mídia não ficam atrás. Segundo o ‘NYT’, a MSNBC deve levar sua transmissão para cinemas e para os 650 cafés Starbucks. E o ‘Washington Post’ planeja uma tiragem total de 2,7 milhões, nas edições especiais.


NO CRAVO


Sites como Huffington Post e Politico já estão voltados à posse. Ontem, priorizaram o jantar ‘off the records’ entre o presidente eleito e colunistas conservadores como David Brooks (‘NYT’) e George Will (‘Washington Post’).


NA FERRADURA


Antes que a blogosfera liberal reagisse, Obama encontrou-se pela manhã com colunistas como Frank Rich e Maureen Dowd (‘NYT’) e E.J. Dionne (‘WP’), além de estrelas ascendentes como Rachel Maddow (MSNBC).


CÉLULA


Na manchete do ‘Diário de Notícias’ de Portugal, ontem, ‘Polícia nacional preocupada com mafia brasileira’. É o PCC, Primeiro Comando da Capital, que levou o governo português a buscar apoio brasileiro para evitar a ‘instalação de célula’ da organização nas prisões do país


DE NOVO


A manchete se espalhou pelos sites e portais, à noite, ‘Presidente do Supremo manda libertar Marcos Valério’, em nova decisão controversa mas já aguardada de Gilmar Mendes, nas férias do órgão. A decisão não saiu a tempo de constar nas escaladas de manchetes de ‘Jornal Nacional’ e ‘Jornal da Record’. No primeiro, mal foi noticiado.’


 


 


TECNOLOGIA
Folha de S. Paulo


Jobs diz que problema de saúde é mais complexo e sai de licença


‘O presidente-executivo da Apple, Steve Jobs, que na semana passada dissera que uma disfunção hormonal provocara a sua perda de peso, afirmou ontem que o seu problema de saúde é ‘mais complexo do que imaginava’. Ele afirmou ainda que vai sair de licença médica do comando da empresa de tecnologia até o final de junho.


‘Visando me retirar do centro das atenções e concentrar na minha saúde -e permitir que todo mundo na Apple se concentre em realizar produtos extraordinários-, eu decidi me ausentar de licença médica’, disse em e-mail aos funcionários.


No lugar dele estará Tim Cook, que é o atual diretor de operações e que ocupou o mesmo cargo em 2004, quando Jobs se ausentou do posto para tratar de um câncer. Jobs afirmou, no entanto, que continuará envolvido nas principais decisões estratégicas da empresa.


Na semana passada, Jobs, que visivelmente perdeu peso nos últimos meses, negou ter câncer e disse que o motivo do problema era uma disfunção hormonal que roubava as proteínas do seu corpo.’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo vai exportar formatos de programas


‘A Globo vai seguir os passos da Endemol (criadora de ‘Big Brother’) e da Freemantle (de ‘O Aprendiz’). Passará a vender no exterior formatos de programas e quadros que ela desenvolveu -muitos deles, adaptações de criações alheias.


Na Natpe, uma das maiores feiras de TV do mundo, que ocorre em Las Vegas no final deste mês, a Globo lançará um pacote com cinco formatos. Tentará emplacar no exterior adaptações de ‘Soletrando’ e ‘Lata Velha’ (quadros do ‘Caldeirão do Huck’), ‘Vídeo Game’ (do ‘Vídeo Show’), ‘Quem Chega Lá’ (concurso de piadas do ‘Domingão do Faustão’) e ‘Conexão Xuxa’ (‘TV Xuxa’).


A Globo já vendeu formatos (de ‘Você Decide’), mas nunca de forma sistemática. O negócio agora é a grande aposta da área internacional da emissora. ‘Pelo fato de a produção local estar crescendo no mundo todo, a gente acredita que alguns formatos podem dar resultado. São produtos baratos’, diz Ricardo Scalamandré, diretor da divisão internacional da Globo.


Segundo ele, as emissoras não querem mais comprar o produto pronto. Querem adaptá-lo com características e artistas próprios. Isso também ocorre com as novelas.


A Globo já se esforça para co-produzir versões de novelas, como ‘O Clone’, com a Telemundo, nos EUA. ‘A tendência é a lata [novela dublada] sair do horário nobre e ser substituída pela produção local’, afirma.


DEMOLIÇÃO


Vai durar poucos dias o muro que divide a casa e os participantes de ‘Big Brother Brasil’. O material será retirado no máximo até a próxima terça. O muro cai, mas a separação dos participantes em classes A e B continua. O reality show estreou anteontem com 37,2 pontos de média.


TROCA


Com 15 pontos, a nova temporada de ‘Troca de Família’ foi a maior audiência da Record na terça. ‘Os Mutantes’, outrora ameaça para a Globo, desabou para 9. E a emissora vai, sim, exibir o ‘Troca de Família’ em que uma das participantes se suicidou dia 7, logo após o término das gravações.


LAMA


No SBT, o último capítulo de ‘Pantanal’ deu 15 pontos.


CONJUTO VAZIO


Elisabetta Zanatti não é mais a quase-toda-poderosa da Band. Ex-diretora artística e de programação, cuidará agora só da produção. Hélio Vargas assume a programação.


ROJÃO


A Globo festejou ontem os 51 pontos de média do capítulo de terça-feira de ‘A Favorita’, recorde da atual novela das oito. Os tempos são outros. Há pouco mais de dois anos, 51 pontos era rotina das tramas das 21h. Na reta final, passavam dos 60.


VIRAL


A Globo produziu e postou no YouTube vídeos em que Juliana Paes e Márcio Garcia aparecem em posturas impressionantes de yoga. O material é montagem, com dublês e computação gráfica, para divulgar ‘Caminho das Índias’.’


 


 


Folha de S. Paulo


Produção exibe faceta alegre de Marilyn


‘‘Marilyn em Manhattan’, documentário que é exibido hoje pela GNT, tenta passar uma perspectiva mais otimista sobre a figura de Marilyn Monroe, talvez a mais fulgurosa estrela da história do cinema.


Símbolo sexual desde ‘Torrentes de Paixão’, de 1953, Marilyn (1926-1962) é enfocada na produção em um período posterior, quando, já famosa, vai morar em Nova York, em 1955. Na cidade, dedica-se a aulas de interpretação na Actor’s Studio, célebre escola de Lee Strasberg (1901-1982) por onde passaram outras lendas do cinema, como James Dean (1931-1955) e Marlon Brando (1924-2004).


Contando com depoimentos de pessoas que conviveram com ela e destacando-se principalmente por imagens raras de variados arquivos, Marilyn é vista sorridente e muito distante dos dias depressivos ou repletos de conflitos com a imprensa da época. O documentário traz detalhes do convívio da atriz com a família de W.J. Weatherby, o autor do livro ‘Conversations with Marilyn’. É interessante vê-la frequentando clubes de jazz, sua relação com o dramaturgo Arthur Miller e o trabalho em sua própria produtora, responsável pelos longas ‘Nunca Fui Santa’ (1956) e ‘O Principe Encantado’ (1957).


MARILYN EM MANHATTAN


Quando: hoje, às 21h


Onde: no GNT


Classificação indicativa: não informada’


 


 


 


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Direto da Redação


Quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


 


CESARE BATTISI
Rui Martins


Resposta a Mino Carta


‘Berna (Suiça) – Caro Mino Carta,


Não sei porquê você tomou a peito apoiar a embaixada italiana, desejosa de obter de toda maneira a extradição do ex-militante de um pequeno e inexpressivo grupo armado italiano de uma época já tão distante. Infelizmente, e isso pode acontecer com todos nós jornalistas, você pisou na bola. Não chega a ser tão grave, porque um pequeno grupo decidido de simples cidadãos, juristas e políticos com o apoio do ministro da Justiça resolveu a parada, mas podia ser muito grave.


Foi-me difícil decidir escrever este comentário, porque sua trajetória é praticamente inatacável e sua contribuição ao restabelecimento da democracia no Brasil ficou evidente nas denúncias que corajosamente fazia, como editor de suas revistas, enfrentando os ditadores militares.


Evidentemente respeito sua opinião, talvez baseada num bom informante quanto à decisão do ministro da Justiça de dar refúgio a Battisti, mas péssimo quanto à real participação do Battisti naquele momento político italiano. Você vive felizmente numa democracia no Brasil e eu numa outra democracia exemplar na Suíça, e sabemos que o debate franco como este, é que nutre essas duas sociedades na livre expressão.


Ora, escrevo porque sua influência como editor da revista Carta Capital poderia ter sido bastante nefasta e significar para um homem, batido pela vida, em nada diferente dos ‘subversivos’ brasileiros que você tanto entendeu, o retorno à Itália na condição de um condenado a apodrecer na prisão.


Marina Petrella, também italiana e muito mais envolvida na luta contra o establishement daqueles anos de chumbo, estava morrendo de desgosto e de tristeza num hospital parisiense, já em estado semi-comatoso, sem querer se alimentar, nos dias que precediam sua extradição para a Itália. Depois de trinta anos de vida normal, depois de ter abandonado o extremismo, ia ser separada de suas filhas, do marido, de seus alunos, para ir envelhecer e morrer numa prisão. Porém, foi graças à compaixão da esposa do presidente francês Sarkozy, e sua irmã, atriz conhecida aqui na Europa, ambas italianas, que se decidiu perdoar, porque a nova vida de Marina Petrella, dispensava uma tão tardia punição.


Quando em março, publiquei nos pequenos jornais e sites que escrevo, (proibido que fui e sou de participar da grande imprensa já depois da ditadura), um artigo em favor de Cesare Battisti, contando para os brasileiros a triste sina desse foragido, que quase foi sequestrado, em 2004, pelos italianos, mesmo sendo um simples zelador de prédio e pequeno escritor de romances policiais, alguns amigos, companheiros como se diz, se senbilizaram.


Entretanto, quando Carta Capital publicou aquela reportagem tendenciosa e nada imparcial, tudo se comprometeu. Porque sua revista, que se poderia dizer de centro-esquerda, as vezes mesmo bem de esquerda, serve de orientação para muitos jovens e para muitos militantes de esquerda. E ficaram na dúvida. Quem sou eu, simples jornalista expatriado, que como um Joris Ivens terá de sobreviver com seus frilas, enquanto lúcido e não enfartado por não ter mais lugar na grande imprensa, para competir com Carta Capital ? Como ganhar a confiança de meus amigos e companheiros com minhas colunas benévolas diluídas na selva da imprensa brasileira ?


Mas, como dizem os crentes, milagre acontece. E a imprensa nanica de esquerda, Caros Amigos, Brasil de Fato, bons informantes na França e na própria Itália, o senador Suplicy, os juristas Dallari e Greenhalgh, o deputado Gabeira e a incansável escritora francesa Fred Vargas que, por cinco vezes esteve no Brasil para encontrar políticos e juristas, foram aos poucos mostrando ser necessária uma decisão franca e clara da esquerda brasileira em favor de Cesare Battisti. Um encontro virtual com o combativo Celso Langaretti, ex-preso político, nos permitiu unificar e agilizar a linha de frente da informação alternativa e assim foi possível se acabar com a indecisão de tantos, até ali paralizados pela versão tendenciosa da Carta Capital.


Veja bem, alguns amigos de direita, que respeito e que ouço porque o diálogo é próprio da democracia, me confidenciaram divergir da maneira como se defendia Battisti, mas que, do ponto de vista humano, estavam de acordo, porque se tivesse sido culpado já havia pago, e de sobra, seus crimes. Isso se chama sentimento humanitário.


Porém, para nós, para Fred Vargas, que minuciosamente, por vício de sua formação de arqueóloga, levantou todos os autos e acusações italianas contra Battisti, o processo ou processos foram viciados e nosso próprio ministro da Justiça, Tarso Genro, levanta no seu arrazoado, a questão da dúvida após tantos vícios processuais.


Não houve, como você diz, cidadãos de boa fé enganados por uma esquerda festiva, linguagem que se usava na major Quedinho, na sua época do JT . Mas gente decidida a impedir que se cometesse uma arbitrariedade para se satisfazer a um Romano Prodi, como você diz de centro-esquerda como a Carta Capital, em queda livre e fazendo de tudo para ficar no poder. Ou para ser uma simples cereja a mais no doce a ser servido ao dono atual da Itália.


Um homem ia ser sacrificado, e ao final o próprio presidente francês, que já perdoara Marina Petrella, se desinteressou do caso, mesmo se na época eleitoral pediu para se prender Battisti no Rio de Janeiro.


O nosso ministro da Justiça, Tarso Genro, ao conceder o refúgio humanitário a Cesare Battisi, foi digno, justo, lúcido e humano. E todos os cidadãos brasileiros que de uma ou outra maneira viveram ou sofreram a ditadura militar souberam e sabem apreciar sua coragem de ousar ir contra a corrente, contra o diktat da grande imprensa e de um outro país, que, pelo que leio na imprensa italiana, quer exigir que Lula anule a decisão de nosso Tarso Genro.


Lamento esse longo texto, mas seu comentário foi a gota d´água, mesmo se sempre admirei e admiro sua figura e sua posição em numerosas outras questões. Faço-o em termos democráticos, por questões conceituais e não pessoais.’


 


 


 


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