Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > TELEVISÃO

Sítio do Picapau Amarelo ganha desenho na Globo

15/03/2011 na edição 633

Folha de S. Paulo, 13/3

Keila Jimenez

Sítio animado

Se Monteiro Lobato criasse sua obra infantojuvenil nos dias de hoje, em que formato seria? Game com sensor de movimento em que Pedrinho corre da Cuca, 15 aplicativos diferentes de Narizinho no iPad, videolog da Emília, Facebook da Dona Benta… Ah, e um moderno desenho animado em HD dessa turma.

A Globo começou por aí. Fruto de parceria da emissora com a produtora Mixer, a ressurreição do eterno ‘Sítio’ virá pelo caminho mais direto da TV para falar com as crianças: a animação.

Depois de dois anos de negociação, Globo e Mixer começaram a produzir os 26 episódios da primeira temporada do desenho animado do ‘Sítio do Picapau Amarelo’, que estreia em 2012.

Sucesso em suas várias versões dramatúrgicas, a mais recente de 2001, o ‘Sítio’ nunca foi desenho até agora. O sonho de uma década da Globo só vingou por conta da aposta da Mixer na produção de animação no país, como o ‘Escola Pra Cachorro’ (Nickelodeon e TV Cultura) e pela forcinha de um incentivo fiscal.

A animação do ‘Sítio’ terá isenção de R$ 3 milhões por meio da Lei do Audiovisual, que permite a canais a dedução de parte do imposto pago pela compra de direitos de atrações internacionais em parcerias com produtores brasileiros independentes. O custo de cada temporada do desenho é de R$ 4 milhões.

‘Difícil foi transformar histórias de 40 minutos na TV em episódios de 11 minutos, tempo médio da animação’, conta Tiago Mello, diretor executivo da Mixer. ‘Mas deu certo. Os personagens já têm suas versões em animação, e a família de Monteiro Lobato está aprovando as sinopses dos episódios.’ Visconde, Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, Rabicó e a Cuca protagonizarão as histórias.

‘A obra não perderá suas características tão bem delineadas, mas foram criados novos desenhos adequados à linguagem visual atual’, diz Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da Globo Filmes e um dos criadores do projeto.

‘Além da comercialização de produtos, a vantagem da animação é o mercado internacional. O desenho pode ser dublado em qualquer língua’, afirma João Daniel, presidente da Mixer.

 

‘Sítio’ muda para evitar polêmicas

Ainda sem data de estreia, a animação do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ nasce fugindo de polêmicas.

Entre as adequações da obra aos tempos atuais, a versão em desenho do ‘Sítio’ deixará de lado qualquer resquício escravocrata em referência a Tia Nastácia que faz parte de alguns livros de Monteiro Lobato.

A mudança coincide com a sugestão no ano passado do Conselho Nacional de Educação para que o livro ‘Caçadas de Pedrinho’ não fosse distribuído a escolas públicas por ser racista.

‘As pessoas se esquecem da importância da Tia Nastácia. Ela é criadora dessa mitologia toda de Monteiro. Fez a Emília e o Visconde de Sabugosa’, diz Tiago Mello, da Mixer. ‘Mas não vamos mexer com escravidão no desenho. Será tudo bem leve.’

O pó de pirlimpimpim também vai sumir. Ou melhor, mudar de consistência. Deixará de ser pó -para não haver qualquer ligação com substâncias alucinógenas- para virar uma espécie de mágica que transportará personagens de um lugar para outro.

Na versão original, Emília e sua turma aspiravam o pó e ‘viajavam’. Na versão dos anos 1980, eles jogavam o pó uns sobre os outros.

‘A função do pirlimpimpim será a mesma, só não terá o pó’, explica João Daniel, presidente da Mixer.

‘Temos de ver que a obra foi escrita em outra época, com outros valores. Temos de adequá-la às conotações que as coisas têm hoje.’

A primeira temporada do novo ‘Sítio do Picapau Amarelo’ terá histórias dos livros ‘Reinações de Narizinho’, ‘Viagem ao Céu’ e ‘Caçadas de Pedrinho’.

BAÚ

Longe de polêmicas, a volta do universo de Monteiro Lobato tem uma mina de ouro à vista: os licenciamentos de produtos.

Cadernos, bonecos, brinquedos, jogos, DVDs… Mesmo fora da Globo desde 2007, o ‘Sítio’ seguiu tendo itens licenciados e vendidos no site da emissora durante todo esse tempo.

A Mixer desconversa. Mas a Globo não esconde a ansiedade para que o infantil emplaque além da primeira temporada. Sabe que a volta da atração, modernizada, aquecerá mais o negócio.

‘A marca do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ sempre atraiu interesse de empresas de diversos ramos. Estamos sempre avaliando novas propostas’, conta José Luiz Bartolo, diretor da Globo Marcas, braço que cuida dos licenciamentos da Globo.

 

Rafael Cariello

Primeira versão carregava nostalgia pelo mundo rural

As meias coloridas e a roupa ‘disco’ habilitariam Emília para integrar o grupo dançante das Frenéticas no final dos anos 70.

Mas não era só na indumentária da boneca de pano que a primeira versão do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ produzida pela Rede Globo encarnava um certo espírito do tempo.

Quem foi criança entre 1977 e 1986, período em que as histórias rurais-delirantes adaptadas da obra de Monteiro Lobato foram ao ar, ainda não estava tão distante da roça assim.

Parte significativa da geração anterior havia migrado de pequenas cidades para estudar ou trabalhar nas grandes metrópoles.

E não era improvável que os avós dos pequenos telespectadores tivessem, eles próprios, algum sítio ou uma fazenda -quando não houvessem trabalhado diretamente no campo.

Dona Benta, Tia Nastácia e os agregados do Sítio eram, portanto, figuras da família, ou quase. Viviam num lugar que se conhecia das histórias contadas pelos mais velhos ou que se visitava nas férias escolares.

Ao mesmo tempo, o rápido processo de urbanização por que o país passara nas décadas anteriores chegava ao final ou, pelo menos, perdia fôlego justamente naquela época.

A grande cidade, antes promessa de progresso e ascensão social, se tornava cada vez mais inchada, conflituosa, violenta.

Era preciso fazer como Pedrinho e fugir para o Sítio.

RECONFORTO

Outros programas, na mesma época, deram vazão a essa nostalgia por um mundo rural pouco produtivo, economicamente atrasado, mas que, em contraste com São Paulo ou o Rio de Janeiro, parecia reconfortante do ponto de vista social, mesmo para quem não pertencesse à ‘casa-grande’.

No ‘Som Brasil’, lançado em 1981, Rolando Boldrin fazia da música caipira a trilha sonora das casas brasileiras nas manhãs de domingo. Na mesma toada tivera início, no ano anterior, o excelente ‘Globo Rural’.

Programa que sobreviveu e conseguiu fazer a ponte entre a nostalgia do mundo caipira e a modernidade do agronegócio, com seus recordes de safra, multinacionais do etanol e magnatas da soja.

Um admirável mundo novo que, em 1977, pouca gente, além da boneca Emília, teria sido capaz de imaginar.

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