Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > SUPERINTERESSANTE

Sobre a superficialidade e o racismo

Por Francisco Moreno Carvalho em 20/04/2004 na edição 273

A revista Superinteressante submeteu a seus leitores, no site da edição de março de 2004 (http://super.abril.com.br/index_super.shtml), seção ‘Superenquetes’, a seguinte pergunta: ‘Você acha que os judeus devem ser culpados pela morte de Jesus?’.

Enquete pressupõe que estejamos diante de duas alternativas válidas, de duas possibilidades legítimas. Ninguém pergunta ao público algo como ‘você acha que se deve suspender o time X por um jogo ou matar todos os seus jogadores?’. Se o fizer, será com certeza acusado de incitar o assassinato.

Ao fazer a pergunta, a revista evoca o cerne do anti-semitismo, que se desenvolveu no mundo ocidental sob o pressuposto de que os judeus mataram Jesus, que na visão cristã é Deus feito carne. Ao contrário dos cristãos, que assumem que sua morte teria sido um ato redentor, os judeus negam esta premissa. Por isto seriam pérfidos, teimosos, inimigos de Deus e tudo de ruim que se queira. Gerações de pregadores dedicaram-se a disseminar esta idéia. O preconceito e o ódio foram se sedimentando. E, então, temos os primeiros grandes massacres na época das Cruzadas (século 11); as acusações de crime ritual, de que judeus matavam criancinhas cristãs para celebrarem a Páscoa (o Pessah. séculos 12 e 13); os massacres e expulsões durante a Peste Negra (século 14); as expulsões e conversão forçada de Espanha e Portugal (século 15), o Tribunal do Santo Ofício naqueles países perseguindo os que professavam o que se definia como ‘heresia judaica’ (séculos 18 ao 19); as discriminações à integração dos judeus enquanto cidadãos nos Estados nacionais modernos (séculos 18 ao 20) e, depois de tudo, o genocídio nazista. Um fio condutor de eventos que se alinhavam em torno da acusação de que os judeus mataram Jesus.

Depois do genocídio – Shoá em hebraico, Holocausto como é mais conhecido (interessante que este termo foi cunhado por cristãos) –, a cristandade ocidental tratou de rever suas posições, de fazer sua mea-culpa ante a barbárie. Foi quando começou um processo de se negar tal acusação e de uma aproximação com os judeus.

O libelo de Borges

Os católicos deram significativo passo com o Concílio Vaticano II. Depois dele, não é mais doutrina católica a acusação contra os judeus pela morte de Jesus. Foram seguidos e acompanhados por outras confissões cristãs. Procura-se criar um mundo onde todos os preconceitos, incluindo o anti-semitismo, sejam sepultados de vez. As barreiras religiosas, étnicas, de cor de pele, de preferências sexuais, todas devem ser derrubadas. É como se depois do que ocorreu, competisse a nós, humanos, criarmos o anti-Aushwitz, a negação da barbárie para vivermos a civilização.

Dois escritores, entre tantos, valem ser citados por terem abordado o tema da culpa imputada aos judeus pela morte de Jesus, sua própria contradição interna insuperável, e o horror a que ela levou.

O israelense Uri Tsvi Grinberg, no conto ‘Eles mataram seu deus’, traz Jesus voltando à Terra na Polônia ocupada pelos nazistas. Ele procura seus irmãos, aqueles com os quais viveu, o povo do qual era oriundo. Vendo as sinagogas e as casas de estudo queimadas, os cemitérios profanados, os judeus desaparecidos, Jesus chora o destino de seu povo. As autoridades ocupantes o prendem, prontamente o identificam como judeu e o deportam, num dos trens destinados às câmaras de gás e fornos crematórios. E assim, Jesus encontra de novo sua morte como judeu, em meio aos milhões de sua própria gente.

Enquanto os fornos ainda ardiam, outro escritor, Jorge Luis Borges, escreve na Argentina um dos mais interessantes libelos contra a hedionda acusação de deicídio. Levando ao extremo a idéia contraditória de um deus que pode ser morto, escreve no seu ‘Três versões sobre Judas’ que, sendo o processo da salvação definido de antemão, pré-determinado, não há lugar para inocentes ou culpados, já que todos foram peões num jogo maior. Puxando mais ainda o fio da contradição, aponta Judas Escariotes, e não Jesus, como o Verbo encarnado, como aquele sem o qual o drama da salvação não teria ocorrido.

No bonde andando

Estas são, contudo, reflexões e apontamentos muito distantes da Superinteressante e do seu desejo marqueteiro de vender revista em cima de assuntos ‘da hora’, junto com um linguajar que rebaixa a inteligência, ao colocar o prefixo ‘super’ em todas as seções e em todos os assuntos.

Claro que o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, é um tema do momento, impulsionado tanto por aqueles que vêem anti-semitas embaixo do tapete como por críticos de cinema que parecem acreditar que posicionar a câmera de ponta-cabeça e girá-la de alguma forma diferente é sinal de bom cinema. Colabora também para seu sucesso uma máquina mercadológica de fazer montanhas de dinheiro, transformando um filminho B, daqueles que passavam nos cinemas de bairro na Semana Santa, em ‘obra de impacto’. Registre-se que o próprio Gibson jamais declarou que os judeus são culpados pela morte de Jesus. O próprio filme pode ser visto sem que esta idéia esteja presente.

Mas, como todos dizem e falam sobre… a Superinteressante pega o bonde andando e resolve fazer uma ‘enquete’. Termo mágico, que dá a impressão e mostra a pretensão de se fazer uma publicação participativa. Só que ao colocar a própria essência do anti-semitismo como assunto a ser inquirido dá-lhe validade, torna-o objeto legítimo.

Superleviandade

Racismo não pode ser objeto de enquete. Racismo deve ser condenado e isolado, como um câncer que deve ser extirpado. Colocar a questão da ‘culpa’ ou não dos judeus pela morte de Jesus em consulta popular via internet é mais do que mera irresponsabilidade jornalística. É praticar a super-idiotice.

E já que a revista gosta de super-idéias, darei agora uma super-sugestão, que ficará super-boa, numa super-enquete para uma futura super-edição. Aqui vai:

Nos séculos 19 e 20, em especial na primeira metade deste, integrantes da elite brasileira defendiam a idéia de que nosso país era atrasado pelo fato de ter excesso de negros na sua população. Tal premissa racista esteve envolvida na política de ‘branqueamento’ da população, por meio do incentivo à imigração de europeus. Em livros de divulgação do país, que circulavam pelas embaixadas brasileiras no exterior, em torno de 1903, o texto sublinhava o ‘decréscimo da população negra’ no país como elemento promissor para seu futuro.

Esta ‘tese’ é tão cheia de fundamento quanto a de que os judeus são culpados pela morte de Jesus. Logo, sugiro que a Superinteressante publique uma matéria sobre este tema e faça uma enquete do tipo ‘você acha que o Brasil é subdesenvolvido por causa da presença dos negros?’ Com mais uma enquete racista como esta, do tipo da acima referida, aumentará o número de cidadãos unidos para darem um basta ao racismo travestido de superleviandade.

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Médico e historiador

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