Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > TROPA DE ELITE

Sobre a intimidade com monstros

Por Muniz Sodré em 09/10/2007 na edição 454

É de Friedrich Nietzsche a advertência: quem combate monstros deve tomar cuidado para não se tornar, ele próprio, um monstro. É uma reflexão oportuna no instante em que a imprensa diária e semanal vem dedicando um considerável espaço continuado à discussão sobre o filme Tropa de Elite. Nunca um produto da cinematografia nacional suscitou tanto debate, e não apenas entre a crítica especializada, mas sobretudo junto à sociedade global, inclusive por parte daqueles que nem sequer ainda assistiram ao filme.

A pergunta estampada na capa da revista CartaCapital desta semana (7/14 de outubro) resume a questão: por que a maior parte do público vê como herói o ‘capitão Nascimento’? Este, só para rememorar, é o personagem vivido na tela pelo ator Wagner Moura. Trata-se da representação de um oficial do BOPE, unidade de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que encarna, ideológica e praticamente, a divisa daquele grupo: rejeitar a corrupção policial e ‘deixar corpos no chão’ após suas incursões em favelas.

A discussão, do mesmo modo que uma análise freudiana, será provavelmente interminável junto à sociedade global, mas certamente terá um fim inconcluso por parte da mídia, uma vez que, como bem se sabe, as notícias ou os assuntos obedecem a um ciclo temporal com picos e quedas, na medida do desgaste da atenção que suscitam.

Formas de cidadania

Agora, entretanto, ainda no aceso da questão, é possível flagrar, num ensaio de análise de recepção, dois grupos de opiniões junto ao público. O primeiro corresponde à geração ‘cinquentona’, que vivenciou a ditadura militar e, convicta quanto à crença no universalismo dos direitos humanos, permanece atenta aos riscos de quebra dos padrões da democracia clássica. O segundo grupo corresponde aos jovens, pós-ditadura, educados pela nova democracia social, cujos valores têm basicamente a ver com o consumo.

Registram-se aí, na verdade, dois sentidos diversos de cidadania, que é um conceito-chave para a experiência democrática. Foi T.H. Marshall quem o generalizou, a partir do caso inglês, no início do século 20. Para ele, a cidadania tem como elementos constitutivos os direitos de primeira geração (civis e políticos), frutos dos séculos 18 e 19, e de segunda geração (sociais), conquistados no século 20. Os civis, preconizados pelo liberalismo clássico, correspondem aos direitos individuais de igualdade, propriedade, liberdade, expressão etc.; os políticos, direitos individuais exercidos coletivamente, referem-se à liberdade de associação e reunião, ao sufrágio universal, à organização política e sindical etc. Por sua vez, os direitos sociais dizem respeito à garantia de acesso ao bem-estar coletivo, traduzido em recursos como trabalho, educação, saúde, etc.

Estas várias formas de cidadania estão politicamente conectadas, e podem ser resumidas, a exemplo do cientista político Carlos Nelson Coutinho, como ‘a capacidade conquistada por alguns indivíduos, ou (no caso de uma democracia efetiva) por todos os indivíduos, de se apropriarem dos bens socialmente criados, de atualizarem todas as potencialidades de realização humana abertas pela vida social em cada contexto historicamente determinado’.

Magnitude destrutiva

Ora, para os membros do segundo grupo a que aludimos acima (os mais jovens), cidadania de hoje se comprova no exercício pleno dos direitos sociais, dentre os quais se acha particularmente ameaçada a segurança individual, ou seja, a liberdade de ir e vir. Os mais pobres, nas favelas, estão submetidos à mais absurda das ditaduras, exercida por traficantes ou então por milicianos, que consiste na prática em imposição de toque de recolher e de formas particulares de conduta. Os mais abastados têm a sensação de que a cidade, repartida em zonas de perigo, lhes foi expropriada pelos bandos ilegalistas.

E não se trata de meras ‘sensações’. O pensador alemão Jurgen Habermas sustenta que ‘para tutelar a integridade dos sujeitos jurídicos, o sistema deve também equiparar e tutelar com rigor – sob o controle dos cidadãos – os contextos de vida que garantem a sua identidade’. Em outras palavras, quando o Estado perde o domínio prático dos territórios sobre os quais exerce formalmente a sua soberania, esboroam-se as ficções jurídicas que sustentam a sua autoridade, tornam-se letra morta os dispositivos da democracia liberal.

Isso acontece normalmente em situações de guerra. Enfatizamos o ‘normalmente’, porque, embora não haja situação bélica formalmente declarada nas megalópoles brasileiras (Rio de Janeiro e São Paulo são megalópoles, não mais velhas metrópoles), a situação real é de guerra, evidenciada na magnitude destrutiva das armas usadas, nas torturas, na impiedade de parte a parte. São estas as aparências encenadas pelo filme Tropa de Elite.

Suja e triste

‘Fascismo’ não é um termo esclarecedor do comportamento dos personagens, apesar de sabermos o quanto o perigo do totalitarismo ronda as exceções da lei. O que há mesmo é a realidade de uma guerra cotidiana não formalmente declarada e não suficientemente ponderada pelas elites pensantes. O alemão Hans Magnus Enzensberger sugeriu o conceito de ‘guerra civil molecular’ para esse tipo de conflagração, e talvez seja o caso de prestar mais atenção à idéia.

Nesse tipo de guerra, são socialmente responsáveis os administradores de cidades que respondem com um ‘ilegal, e daí?’ à desagregação territorial urbana; os que acham ‘inocente’ ou ‘descomprometido’ com a violência o consumo de drogas; os que assistem indiferentes à depredação dos equipamentos públicos; os dirigentes que subestimam ou subestimaram o problema da segurança individual. Partilham, queiram ou não, da monstruosidade do ‘capitão Nascimento’.

Em meio à falta de valores públicos, não é de se estranhar que o público jovem de Tropa de Elite possa acabar aplaudindo o ‘capitão Nascimento’ – uma encarnação da antidemocracia, certo, mas alguém ainda capaz de proclamar uma diferença entre o certo e errado, semiotizado como herói de guerra.

Um novo tipo de guerra – miúda, mas suja e triste – do cotidiano nacional.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/10/2007 Marciel da Silva Ribeiro

    Falta falar sobre os verdadeiros monstros, a mediocridade brasileira que mata as pessoas as jogando em uma vida sem futuro.
    Tenho matérias muito boas no meu blog, o http://jornaloide.com

  2. Comentou em 10/10/2007 Octavio Hollemberg

    Alguém disse abaixo que o filme faz sucesso porque, dentre outras, retrata uma demanda reprimida, um desejo por uma pena de morte que não existe no país, e não porque o povo, democraticamente, assim o quer, mas porque as elites (e nesse ponto sejamos justos, tanto a elite branca como a negra), se recusam a colocar o tema num plebiscito ou num referendum popular. As pessoas, certamente as menos esclarecidas, vibram e aplaudem a tortura e o morticídio, não por nada, mas como vingança. Já que não existe pena de morte no país, depositam nas mãos do matador Nascimento (aliás, como fez o culto Luciano Huck) a solução do problema. Estou com o Dines quando afirma que os que aplaudem são os mais jovens, e não preciso pedir para acender a luz do cinema para confirmar isso. Basta entrar numa lan-house qualquer do país e ver que tipo de jogo os adolescentes e os mais jovens estão jogando, um tal de Counter-Strike onde a ordem é matar, e onde o fregues escolhe se quer jogar como mocinho ou como bandido, como guerrilheiro ou como exército regular, como traficante ou como tropa de elite.

  3. Comentou em 10/10/2007 Anderson Porto

    O tráfico de drogas é uma espécie de *almofada* para conter a violência urbana. A sociedade sente a pressão, se acabar os bandidos descem pro asfalto, a sociedade passaria a conviver com níveis muito maiores de violência. Aí, para formar o coro da catarse imediatista, a sociedade aplaude assassinatos, como se se vingasse.

  4. Comentou em 10/10/2007 Anderson Porto

    O tráfico de drogas é uma espécie de *almofada* para conter a violência urbana. A sociedade sente a pressão, se acabar os bandidos descem pro asfalto, a sociedade passaria a conviver com níveis muito maiores de violência. Aí, para formar o coro da catarse imediatista, a sociedade aplaude assassinatos, como se se vingasse.

  5. Comentou em 10/10/2007 Marco Antônio Leite

    A escol do momento usa o proletariado para fazer aquilo que ela poria em prática somente para sentir o prazer diretamente em ver sangue escorrer pela boca desalmado “bandoleiro”. Joga os pobres da polícia contra os da periferia, produtos produzidos pelo sistema das desigualdades sociais. Já aqueles que não estão implicados diretamente com um desses grupos, torce para que a polícia derrube corpos nos guetos desta terra de ninguém, isso provoca um frisson grande nessa classe média decadente, que acha que faz uso da razão imaginando não fazer parte dessa história. Ledo engano, ela é quem patrocina o tráfico de dogras, isto quando não esta envolvida com o comércio de armas. Desta ou daquela forma todos nós pagamos um preço alto pela nossa desunião, a qual é produzida pela a elite, pois enquanto estamos questionando essa questão, cuja responsabilidade é dos governos Federal, Estadual e Municipal, pois pagamos impostos para que ele leve condições de infra-estrutura para todos, eles estão gozando a vida às mil maravilhas. Não aqui nesta terrinha arcaica, mas em países de primeiro mundo. Etá gente parva?

  6. Comentou em 10/10/2007 Lirio guterra

    Levantados e expostas várias opniões sobre o tema abordado em Tropa de Elite, vale lembrar que quantos filmes, reportagens e documentários ja existem mostrando não somente as violências policiais, de traficantes e dos governos, mas também de quem está no meio da guerra e não sabe como se proteger.
    Pode-se colocar também, com a devida importancia o valor financeiro, o que rerndeu para a mídia e principalmente para a Globo ter o protagonista do filme, protagonista da novela Paraiso Tropical.
    Claro, sem menosprezar a parte técnica do filme.

  7. Comentou em 10/10/2007 claudio huguet

    Sobre o debate de agora na TV e sobre o ultimo comentario de Sodré: interessante o ato falho de Renato Janine. Parece-me que queria fazer uma crítica à equiparação no fim do filme entre policiais e criminosos, mas acabou falando bandidos e criminosos. É para pensar.
    Uma pergunta: como, a partir da sacudida do filme e das reações de muitos jovens ao mesmo, encaminhar uma discussão e propostas em relação a um cenário em que lideranças políticas, salvo exceções, tem mostrado de forma recorrente e massificante significativa dubiedade moral e do serviço ao público.
    Parece que no atual vácuo de valores, convicções e nortes seguros, ou minimamente (potencialmente) organizadores, aquele que demonstra ter uma convicção clara e assumida acaba tendo grande propensão a exercer liderança e a atender aos anseios identificatórios de jovens perdidos no supracitado vácuo. Ainda mais quando esta convicção volta-se contra o mal endêmico e solvente de valores – a corrupção.

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