Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > RODA VIVA

Soluções mirabolantes para a educação

Por Ivo Lucchesi em 11/12/2007 na edição 463

Esclareço que, na edição anterior, formalizara minha despedida até 2008. Todavia, em razão de o programa Roda Viva, gerado pela TV Cultura e retransmitido pela atual TV Brasil, entregar seu precioso horário no qual a TV brasileira considera que o telespectador não é um indigente à exposição do educador-antropólogo mineiro Tião Rocha – programa exibido em 10/12 –, uma entrevista da qual se espera consistência, senti o ímpeto incontrolável de, antes do término de 2007, uma vez mais, ocupar o espaço do OI.


A condição de educador, com atuação diária, ao longo de 37 anos, conquistada da graduação ao doutorado na Faculdade de Letras da UFRJ, me permite o direito de sentir-me, no mínimo aviltado, por tudo que, como telespectador, me agrediu. Para começar, lamento que, no corpo de entrevistadores do programa, não houvesse nenhum nome à altura de representar a ‘esfera acadêmica’. A partir daí, sou obrigado a ouvir depoimentos que, em nome da crítica ao modelo acadêmico-educacional brasileiro – cujas fragilidades são conhecidas por todos (e não são poucas) – enaltecem as experiências desenvolvidas em Moçambique.


Tenho o direito de ao menos indagar que contribuições as experiências educacionais promovidas em Moçambique trouxeram, até a presente data, para a evolução da humanidade no campo da ciência, da filosofia, da tecnologia? Sinto muito: Tião Rocha não dá para ser o Paulo Freire II.


Na contramão do que preconiza o antropólogo-folclorista-educador Tião Rocha, o Brasil precisa, urgentemente, instituir um modelo educacional sério, disciplinado e rigoroso. Esse é o caminho para o potencial de inteligência nacional ser canalizado para resultados emancipatórios. Não se trata de ignorar o peso do folclore. O que não se pode é elevar o folclore ao estamento da sapiência libertadora.


Educação pela pedra


Não tenho a obrigação de ouvir frases do tipo ‘é preciso convocarmos a sociedade brasileira para que cuidamos da…’. Rigorosamente, estou cheio de ouvir ‘soluções mirabolantes’ (quando não exóticas) a respeito da transformação da educação no Brasil. Também não tenho mais paciência para aturar relatos estatísticos, sejam eles da gestão Paulo Renato (governo FHC), sejam outros da condução gestora de Fernando Haddad (governo Lula), dando conta da ampliação disto ou daquilo. De todos, o que fica é um quadro deplorável no qual o que, efetivamente, se constata é a crescente degradação da qualidade intelectual do cidadão brasileiro.


Se alguém, radicalmente interessado na redefinição do sistema educacional brasileiro, deseja contribuir para a qualificação do sentido da vida no Brasil, não tem o direito de legitimar posições assumidas, por exemplo, pela prefeitura do Rio de Janeiro (DEM), ao instituir aprovação indiscriminada para os alunos do município; e, menos ainda, referendar estratégias educacionais adotadas em Moçambique.


As culturas que, no mundo de hoje, dominam não são aquelas que elegeram o folclore como foco de ‘políticas transformadoras’. Por favor, Tião Rocha, não me venha com ‘educação pela roda’. Se é por esse caminho, fico com ‘educação pela pedra’, lição ensinada pela poética de João Cabral de Melo Neto. Vamos parar de ‘folclorizar’ o Brasil. Não pretendo irritar ninguém, mas não tentem tirar-me do sério.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/12/2007 ivo lucchesi

    Senhora pedagoga: ‘o senhor é o famoso ‘quem’? Quais projetos já apresentou? Em que fóruns? Quantos livros ou ensaios escreveu sobre o assunto?’ A frase entre aspas é sua e dirigida a mim. A senhora é que me cobrou a ‘notoriedade pública’. Quanto a trabalhos na área de Pe(r)dagogia, não os tenho. Não sou pe(r)dagogo. Todavia li com muita atenção a obra ‘O poder da educação’, de Theodore Brameld (1972) e muito me valeu. De resto, continue sua trilha com suas crenças e boa sorte.

  2. Comentou em 15/12/2007 ivo lucchesi

    Senhora pedagoga: ‘o senhor é o famoso ‘quem’? Quais projetos já apresentou? Em que fóruns? Quantos livros ou ensaios escreveu sobre o assunto?’ A frase entre aspas é sua e dirigida a mim. A senhora é que me cobrou a ‘notoriedade pública’. Quanto a trabalhos na área de Pe(r)dagogia, não os tenho. Não sou pe(r)dagogo. Todavia li com muita atenção a obra ‘O poder da educação’, de Theodore Brameld (1972) e muito me valeu. De resto, continue sua trilha com suas crenças e boa sorte.

  3. Comentou em 14/12/2007 Daniela Ferreira

    O Educador Tião Rocha( tem que ser grafado com letra maiúscula)tem uma trajetória pedagógica reconhecida universalmente. Se o professor tem uma proposta clara para os problemas que atormentam os que realmente se preocupam com a educação brasileira, poderia usar esse espaço para apreesntá-lo.Mas ao contrário disse vem a publico dizer que há 37 anos é professor. Não sabe sequer a diferença entre o professor( figura central no processo de formação) e o educador( que pensa esse processo e com metodologia rigorosa propõe ou não alternativas ao modelo) vigente. Desculpe-me, não o conheço como professor, mas como pedagogo não tenho qualquer prurido em perguntar: o senhor é o famoso ‘quem’? Quais projetos já apresentou? Em que fóruns? Quantos livros ou ensaios escreveu sobre o assunto? Se possível, indique as publicacões. Respondidas essas perguntas, podemos debater, Do contrário, o senhor me parecerá apenas um telespectador irritado que precisava escrever qualquer coisa sobre qualquer coisa, o que não condiz com a maturidade esperada de quem está no magistéro há quase quatro décadas
    Att.

  4. Comentou em 11/12/2007 Ricardo Camargo

    Caríssimo Ivo, como não assisti ao programa, não eria como avaliar a entrevista concedida pelo antropólogo. De qualquer sorte, concordo com o dado de que, muitas vezes, o que se verifica no Brasil em relação a muitos pontos – e a educação é seguramente um deles – a prescrição de terapêuticas com absoluta abstração feita do doente. Aliás, lanço mão desta metáfora até com uma certa dor, pela morte da esposa de um grande amigo, ainda ontem. A proprósito, não deixei de apresentar um texto nesta edição do OI.

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