Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CADERNO DA CIDADANIA >

The Economist, as novelas e o pobre cidadão

Por Valmir Perez em 24/03/2009 na edição 530

Em matéria de 13 de março de 2009, intitulada ‘Para Economist, telenovelas exerceram influência positiva no Brasil’, o jornal online da BBC nos informa que a revista britânica acredita firmemente que ‘as novelas da TV Globo podem ter exercido uma influência positiva nos hábitos e comportamentos dos brasileiros’.

Segundo o jornal, essa afirmação tem sua origem num artigo publicado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) cujo título é ‘Soaps, sex and sociology‘ (‘Novelas, sexo e sociologia’, em tradução livre).

Para o BID, com a chegada do sinal de Rede Globo a algumas regiões, houve um aumento dos índices de natalidade e de divórcios.

A revista afirma que o fato de a Globo mostrar em suas novelas uma realidade bem diferente da vivida pela maioria dos brasileiros – ‘com famílias menores e mais ricas que a média’ – teria estimulado modificações nestes dois importantes indicadores sociais.

Revela ainda que a venda de televisores foi estimulada pela ditadura, que queria construir ‘um senso de nação’ num país de analfabetos e que muitos dos profissionais da televisão aproveitaram a oportunidade para atingir as massas.

Para finalizar, a BBC ainda nos repassa a informação de que The Economist brinca, afirmando que ‘se a Globo pudesse lançar agora uma novela sedutora sobre reforma tributária, a transformação do Brasil estaria completa’.

Natalidade e divórcios

Bem, se agente ler a matéria rapidamente e sem nenhum senso apurado de questionamentos, fica parecendo que realmente as novelas da Rede Globo fizeram e fazem muito bem aos brasileiros. Vindo do BID, eu duvido! Por que o banco lançaria um artigo desses? À toa?

E por que propagandear esse artigo, à primeira vista ínfimo, numa revista inglesa tão importante?

E por que ela foi parar num jornal online inglês feito para nós, brasileiros?

Questionando algumas coisas que estão sendo afirmadas, poderemos ter uma visão bem diferente do que eles chamam de ‘influência positiva no Brasil’.

** O aumento de natalidade (e nesse caso acima da média em determinadas regiões, que inclusive não foram citadas) interessaria a quem? Às famílias ou ao próprio sistema capitalista?

** O aumento de divórcios é positivo em que sentido? No sentido de deixar milhares ou milhões de crianças órfãos de pai ou mãe, e em certas condições dos dois? Ou de trazer à tona algo que não estaria funcionando direito dentro das famílias brasileiras?

Voto adianta alguma coisa?

** Se a Globo vem mostrando uma realidade bem diferente da maioria da população, pergunto que tipo de cultura disseminada é essa? Ela serve a quem? Porque fica claro que a população (que gostaria de ter sua cultura, gostos e modos de vida respeitados) está então sendo enganada e roubada em seu patrimônio cultural.

** O artigo revela ainda que os televisores foram estimuladas pela ditadura. Mas para que? Para levar cultura e conhecimento à população ou para exercer o tipo de escravidão cultural e de valores a que até hoje estamos submetidos? Sim, porque, como afirmam no artigo, se alguns profissionais aproveitaram para atingir as massas, os militares, treinados na época pela CIA, também não estavam fazendo o mesmo, mas com outras intenções?

** Se a transformação do Brasil seria completa caso a Globo lançasse uma novela provocando a reforma tributária, não estaria aí então a prova cabal de que somos governados pela mídia, e não pelos políticos nos quais votamos?

Se for assim então, é preciso deixar bem claro que o voto não adianta nada e que o que adianta mesmo é uma boa novelinha no início da noite.

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Lighting designer, Unicamp, Campinas, SP

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