Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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CADERNO DA CIDADANIA >

Traficantes de bits

Por Marcelo Burger em 01/04/2008 na edição 479

A Folha de S.Paulo publicou, no dia 27 de março, a notícia ‘Adobe lança versão gratuita do Photoshop na internet‘. À primeira vista, parece um gesto simpático e até ‘humanista’. Mas há muito aprendemos que no mundo capitalista ninguém dá nada de graça. Então qual seria a motivação por trás da aparente gentileza da empresa? Talvez precisemos voltar às origens da internet para responder a essa pergunta.


O advento da internet iniciou um movimento de troca de informações que logo chacoalhou os paradigmas que regiam questões como o direito autoral e a propriedade intelectual.


O Copyleft e o Creative Commons são algumas iniciativas de licenciamento criadas pelos próprios usuários para reforçar a natureza colaborativa que norteou o pensamento dos primeiros desenvolvedores da computação em rede, os hackers.


Sim, foi graças a uma meia dúzia de ‘ripongas’ libertários, hoje tachados de piratas e bandidos, que você hoje pode conversar com pessoas do outro lado do planeta num átimo, baixar músicas, filmes e livros de graça, ver as fotos da moça do Big Brother nua, e até acompanhar as referências presentes neste texto através de hiperlinks, e não por notas de pé de página.


Desde que os militares abriram mão da administração da rede, em 1995, as empresas privadas, as novas donas da cocada preta, tentam criminalizar qualquer tentativa de troca que não envolva capital. Só para citar um caso mais ruidoso, alguém se lembra do Napster?


Modismos empresariais


Mas as corporações de informática aos poucos estão percebendo que tal movimento cresce de maneira exponencial e incontrolável, e que se quiserem sobreviver terão que modificar sua estratégia. Principalmente por conta do desenvolvimento cada vez mais freqüente de softwares similares e ‘livres’ (‘free as in free speech, not as in free beer‘).


Embora os derivados dos GNU (projeto seminal de Richard Stallman de criar um sistema operacional totalmente livre, em 1984) ainda precisem tornar-se mais acessíveis aos usuários comuns e semi-analfabetos, como eu, as coisas estão melhorando, e rápido.


Atitudes como essa da Adobe (vulgo ‘tijolo de barro cru’) são cada vez mais freqüentes entre as empresas estrangeiras. Em vez de perderem uma imensa fatia do mercado para as versões piratas disponíveis on e off-line, elas preferiram adotar a tática do traficante: fornecer as primeiras doses (versões gratuitas de softwares) até o camarada começar a gostar da coisa, para então cobrar por elas (atualizações e upgrades dos programas). Para a maioria dos usuários comuns, o básico já resolve lindamente, com a vantagem de ser gratuito. Isso também é inclusão digital.


Esperamos que, assim como os demais modismos empresariais, a tendência de liberar o acesso irrestrito às suas notícias seja adotado pelos nossos grupos de mídia. Se até o New York Times liberou, o que os Marinho, os Mesquita e que tais estão esperando?

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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