Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / ANA OLMOS

‘Um bom programa deve reunir entretenimento, humor e elegância’

13/04/2004 na edição 272

Psicanalista infantil há 30 anos, Ana Olmos verifica no seu dia-a-dia o impacto que a televisão vem exercendo no cotidiano de crianças e adolescentes. A constatação não é nada boa. Segundo ela, a programação da TV aberta é extremamente nociva ao desenvolvimento do público infanto-juvenil. ‘A televisão’, afirma, ‘em nada estimula a capacidade de pensar. Na prática, ela apenas vende produtos, idéias e atitudes, criando uma dependência baseada no consumo e na violência’.

Membro do Conselho de Acompanhamento da Mídia da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e presidente da ONG TVer, Ana Olmos defende a criação de um código de ética para a programação televisiva. Além disso, acredita que os pais e a escola têm papel decisivo: ‘Eles deveriam limitar o número de horas que as crianças passam em frente à televisão. Isto não é censura. É dever. Os pais e as escolas devem, sim, oportunizar outras atividades para seus filhos’.

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Como você avalia a relação entre as crianças e a televisão?

Ana Olmos – Percebo que a programação da TV aberta é, atualmente, extremamente nociva ao desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Ela em nada tem estimulado a capacidade de pensar do público infanto-juvenil. Na verdade, ela vende produtos, idéias e atitudes, criando uma dependência baseada no consumo e na violência. Por conta de uma grande exposição à TV, as crianças e os adolescentes têm, hoje em dia, respostas mais emocionais do que racionais e mais impulsivas do que reflexivas. Diante disto, perdem a capacidade de pensar, de estabelecer relações e de fazer deduções. O hábito cria a necessidade. Tudo para elas é fugaz, superficial e fragmentado. A TV cria estereótipos que negam a realidade das crianças e dos adolescentes. E não é só isso: a TV vem mudando a organização do tempo e do espaço familiar. O dia-a-dia da família, muitas vezes, acaba sendo ditado pela programação da TV.

Podemos dizer então que a televisão não tem nada de positivo?

A.O. – Não quero satanizar a televisão. Pelo contrário, o veículo pode ser totalmente positivo para o crescimento e a formação de crianças e adolescentes. O problema é o uso que se faz deste veículo. Não podemos esquecer que a TV, no Brasil, é uma concessão pública. Portanto, deve ter um código de ética. A TV vista como uma mercadoria sem um código de ética faz e pode fazer qualquer coisa. Em alguns países da Europa, por exemplo, as propagandas de produtos para as crianças são voltadas para os pais das crianças e depois de um determinado horário.

Como deveriam ser produzidos os programas voltados para as crianças e os adolescentes?

A.O. – Eles deveriam mostrar a realidade do dia-a-dia das crianças e dos adolescentes. Quando isto acontece, a capacidade de pensar é estimulada. Um bom programa deve reunir entretenimento, humor e elegância. O problema da atual programação é que o entretenimento está ligado, na maioria das vezes, à violência. E isto é o que mais me preocupa. A violência retratada pela mídia – e que está presente nos programas voltados para o público infantil – é vista e abordada como solução de conflito. A TV, portanto, acaba banalizando a violência, justificando e defendendo-a.

O que a senhora aconselharia aos pais das crianças?

A.O. – Os pais devem limitar, por exemplo, o número de horas que as crianças passam em frente à televisão. Isto não é censura. É dever. Os pais, assim como as escolas, devem oportunizar outras atividades para as crianças. O que na realidade de muitas famílias brasileiras é muito difícil. A TV é o principal lazer das crianças das classes mais pobres. Por conta disto, a sociedade deve exigir, de uma vez por todas, uma programação de qualidade, especialmente para a TV aberta.

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