Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
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CADERNO DA CIDADANIA >

Um direito também dos surdos

Por Roberta Lage em 29/05/2007 na edição 435

A Organização das Nações Unidas (ONU) enfatiza, como fundamentais, o direito à informação e à comunicação, que são essenciais para o exercício da cidadania. A informação é um direito tão importante quanto os demais e deve ser oferecida igualmente a todos, de modo claro, impessoal, preciso, sem direcionamentos e sem interesses ocultos. Mas será que ela é oferecida igualmente a todos?

Analisando os meios de comunicação de massa, pode-se perceber que todos exigem bom funcionamento dos canais sensoriais. A televisão é um veículo constituído por imagens visuais e sinais auditivos; os jornais e revistas exigem atenção visual; o rádio pede pelo nosso canal auditivo e a internet acopla situações de leitura, audição e até fala. Mas e aquelas pessoas que apresentam alguma deficiência nos sentidos e não conseguem acessar o conteúdo oferecido pelos veículos de comunicação? Como se informam a respeito das notícias de sua cidade, estado, país e do mundo? Será que elas têm sempre que depender de uma terceira pessoa que possa explicar – de maneira adequada – os fatos que são divulgados nos telejornais, revistas, jornais impressos e internet?

Segundo o último censo, realizado em 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje há no Brasil cerca de 6 milhões de pessoas com problemas relacionados à surdez. Dessas, cerca de 170 mil se declararam surdas e apenas 15% entendedores da língua portuguesa. Essa porcentagem representa a minoria que consegue captar as notícias jornalísticas divulgadas pela mídia. A maioria, por não ser oralizada, fica excluída do mundo da informação.

Formato inadequado

Ler um jornal ou uma revista, por exemplo, é extremamente difícil para surdos que se comunicam apenas pela Língua Brasileira de Sinais (Libras). A Libras é um idioma próprio, que apresenta uma gramática completamente diferente do português. Para os surdos que usam sinais, a frase ‘vou para a casa dele’ se transforma em ‘casa dele vou’. Esse é apenas um pequeno exemplo da barreira que eles têm de transpor ao tentar ler e entender o português.

Para acompanhar os noticiários da televisão há possibilidade, em alguns televisores, de ativação de uma tecla que permite o acesso ao closed caption, sistema de transmissão de legendas via sinal de televisão. Ele descreve as falas dos apresentadores e também qualquer outro som presente na cena, como palmas, passos, trovões. Porém, muitas vezes, a captura do áudio não é a correta para o som da língua e ocorre uma distorção da mensagem falada, resultando na escrita de uma palavra errada na tela da TV. Além disso, a velocidade acelerada das legendas é mais um obstáculo para a compreensão da notícia.

Outra alternativa utilizada pelas emissoras de TV para a comunicação com o surdo, principalmente os que não entendem o português, é a janela de Libras. Seu formato corresponde a um espaço delimitado no vídeo onde as informações são interpretadas na língua brasileira de sinais. Entretanto, nem todos os programas televisivos contam com este recurso e, quando o disponibilizam, não o fazem em um formato adequado. Para compreender a Libras é necessária a visualização dos gestos das mãos e da expressão facial, mas, normalmente, a veiculação da imagem é feita em pequenas janelas no canto da tela, fugindo do modelo ideal.

O Telelibras

Algumas leis até já foram criadas com o objetivo de garantir à pessoa com deficiência o acesso à informação. Um exemplo é a NBR 15.29/2006, que dispõe que os programas políticos, eleitorais, noticiosos, jornalísticos, educativos, campanhas institucionais e informativos de utilidade pública devem conter janela com intérprete de Libras. Ainda assim, as ações para disponibilizar interpretação em Libras em conteúdos audiovisuais, como cinema, jornais ou novelas, são praticamente inexistentes. Nenhum telejornal veiculado na TV aberta brasileira, por exemplo, utiliza a representação na linguagem de sinais, reconhecida desde 2002 como meio legal de comunicação e expressão (Lei nº. 10.436).

Portanto, fica claro que o problema referente ao acesso às informações jornalísticas pelas pessoas com deficiência auditiva existe. Algumas providências já foram tomadas, mas muitas ainda precisam ser desenvolvidas.

Um exemplo de que é possível oferecer às pessoas com deficiência auditiva um produto jornalístico que as informe sobre as principais notícias do Brasil e do mundo é o Telelibras, primeiro telejornal inclusivo da internet brasileira voltado para a comunidade surda e para os interessados em aprender a Libras.

Braile e datilologia

Criado pela organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) Vez da Voz em abril de 2007, o noticiário semanal voltado para a comunidade surda tem cerca de cinco minutos de duração e aborda notícias variadas sobre esporte, cultura, lazer, política, ciência, economia, inclusão social, entre outros. Diferente do que acontece em outros telejornais, em que o intérprete aparece em uma pequena janela, no Telelibras o profissional divide a cena com o apresentador. Além da diversidade encontrada na equipe que apresenta os boletins, a novidade é que, em breve, o público poderá acompanhar a desenvoltura de repórteres com deficiência. Inúmeros e-mails de pessoas com deficiência auditiva elogiando a iniciativa têm motivado os profissionais a darem seqüência a este trabalho.

Há uma grande preocupação para que as mensagens sejam transmitidas de uma forma clara e adequada e, para isso, a Oscip conta com as orientações de um surdo que integra a Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida do Estado de São Paulo (Seped).

O Telelibras pode ser acessado em qualquer lugar através da internet, no site da Vez da Voz, mas a organização já tem planos de transmiti-lo em um canal de TV.

E este não é o único serviço oferecido pela Vez da Voz. Desde 2004, a Oscip mostra à sociedade que é possível integrar todas as formas de comunicação, independente das diferenças. Suas ações incluem a produção de materiais didáticos em braile e datilologia (alfabeto escrito para surdos); palestras em escolas e universidades; participação em eventos sociais; treinamentos em empresas e produção de vídeos inclusivos. Através da interação com seus membros, a organização descobre novas maneiras de suprir as carências expostas pelas pessoas com deficiência e foi assim que surgiu o Telelibras, prova de que é viável a construção de uma mídia democrática e inclusiva, na qual todos tenham acesso à informação.

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Radialista, jornalista e especialista em comunicação pública e responsabilidade social

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