Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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CADERNO DA CIDADANIA >

Um reality show sobre a sociedade de consumo

Por Flavia Arcanjo em 09/06/2009 na edição 541

O filme O Show de Truman: o show da vida, dirigido por Peter Weir, traz em suas primeiras cenas a vida do vendedor de seguros Truman Burbank, que reside na cidade de Seaheaven, um paraíso terrestre.

Truman é um homem comum, com aproximadamente 30 anos, casado com Meryl e aparentemente feliz. No entanto, no desenrolar do longa, gradativamente notamos que Truman não possui uma vida normal. Há algo estranho, fora do normal. Em uma determinada cena, através de um flashback, recebemos a informação de que Truman é órfão de pai, devido a um acidente de barco. O qual gera trauma no pequeno garoto.

Certa manhã, no percurso para o escritório, Truman Burbank cruza com um desconhecido e misterioso homem, que após segundos o reconhece. O indivíduo é seu falecido pai, Kirk. Ambos tentam se comunicar, porém pessoas surgem e levam Kirk embora.

Este fato ocasiona uma série de lembranças e questionamento no personagem. Em meio a estes sentimentos, outro flashback surge. O filme mostra a época em que Truman cursava o colegial, quando conhece Sylvia, com quem tem um ligeiro e inesquecível romance. A moça tenta alertar Truman sobre a falsidade que há em torno de sua vida. Porém, antes que tente se explicar, é levada por um homem que se diz ser seu pai.

Um produto na prateleira

A partir deste momento, tomamos conhecimento de que Truman Burbank é a estrela de um reality show, porém sem possuir ciência. Um personagem real em um mundo falso. Todos seus familiares, amigos, colegas e vizinhos não passam de atores. Truman foi adotado legalmente por uma empresa e desde seu primeiro instante de vida é vigiado por câmeras. O astro leva alegria e esperança para milhões de telespectadores em todo o mundo.

Sendo assim, o filme possui duas perspectivas: o mundo conhecido por Truman e o mundo conhecido pelos telespectadores.

No filme, o personagem tem sua vida dirigida tal como uma ficção. O diretor Christof controla sua vida em todos os aspectos: sentimentais, familiares e até mesmo psicológicos. Christof argumenta que o programa foi criado para atender à sociedade, que já estava cansada de programas que exibiam atores com sentimentos falsos. Almejavam algo real. Entretanto, na realidade, o programa é uma cria da indústria cultural. Que visa apenas ao lucro e à divulgação de marcas e conceitos que financiam toda aquela encenação sem se importarem com a qualidade, ética, princípios morais e a humanidade.

Com base na teoria crítica, a indústria cultural instaura na audiência a reação automática e irreflexiva perante aquilo a ser consumido. Há um empobrecimento no conteúdo para que possa atingir a massa. Tornamos-nos uma sociedade de consumo, do amontoamento e da abundância. O homem se torna materialista, passando a ser valorizado pelo que tem, e não pelo o que é. O capitalismo tira a razão do viver. A vida se torna algo banal. A indústria cultural expõe o ser humano como mais um produto na prateleira.

Uma difusão narcótica

Truman não passa de uma mercadoria, vítima de um sistema dominador. Os telespectadores não percebem que ele é um prisioneiro. E o acham uma pessoa especial, por ser mundialmente conhecido e famoso. Simplesmente o consomem. Ou seja, deixam de viver suas vidas, a realidade, para vivenciarem a vida alheia. Um exemplo é a cena em que aparece um bebê chorando ao fundo e sua mãe não se dá conta do pranto do filho devido ao fato de estar concentrada e fixa na entrevista em que o diretor Christof relata o sucesso do reality show. Além das garçonetes, os policiais, as duas senhoras idosas e o rapaz da banheira, que estão constantemente assistindo ao show.

Os produtores do show fazem de tudo para que Truman nunca queira sair de Seaheaven, a cidade criada no maior cenário cinematográfico. Tentam instaurar o medo através da televisão, do rádio e até mesmo por meio de cartazes.

Porém, Trumam desperta dentro de si a autonomia. Ciente de que sua vida é uma mentira, parte em busca da liberdade. No momento em que o diretor percebe que seu astro fugiu imediatamente convoca todos os atores para uma caça ao protagonista de seu programa. Neste momento, Christof também ordena que a transmissão seja cortada. É notável a desordem que se instala na sociedade: os telespectadores ficam sem orientação. É como se o reality show fosse uma difusão narcótica e os indivíduos estivessem com sintomas de abstinência.

Manipulação dos meios de comunicação

Devido ao grande número de câmeras instaladas na cidade, cinco mil, a produção rapidamente encontra Truman, sendo assim a transmissão restabelecida. O personagem encontra-se em alto mar, velejando em direção à sua emancipação. Neste momento, o diretor, levado pela ganância, exige que seja criada uma violenta tempestade em seu cenário. Em momento algum o fato de que Truman Burbank possa morrer ao vivo o impede de tentar manter vivo seu programa. A única coisa que ele visa é ao lucro.

Após sobreviver a uma imensa tempestade, Truman, enfim, chega ao portão de saída. Porém Cristhof não desiste e tenta persuadi-lo pela última vez. Seus argumentos, entretanto, são em vão. O personagem real liberta-se do sistema de consumo desenfreado e irreflexivo. Despede-se do programa com sua famosa frase: ‘Caso não os veja de novo, tenham uma boa tarde e uma boa noite.’

O Show de Truman: o show da vida é um excelente filme que aborda a manipulação exercida pelos meios de comunicação de massa, com base na teoria crítica e na indústria cultural.

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Estudante de Jornalismo, São Paulo, SP

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