Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > PROFISSÃO PERIGO

Um tributo para Sahar Al-Hadeiri

Por Larissa Grau em 10/07/2007 na edição 441

Sahar Hussein Al-Hadeiri, 44 anos, está morta. Foi alvejada por um grupo de pessoas quando saía de sua casa. Era casada e tinha quatro filhos. Morena, cabelos encaracolados, mais ou menos curtos – na altura dos ombros –, olhos grandes e amendoados, nariz proeminente e uma pinta na face esquerda. Nasceu na cidade de Mosul, norte do Iraque, e era jornalista. Hadeiri foi assassinada em seu país convulsionado pela guerra e por conflitos internos pelo simples fato de exercer a profissão de repórter. Porque no Iraque, viver, trabalhar, produzir informação e distribuí-la é negócio muito perigoso.

A perseguição aos profissionais da mídia iraquiana tem sido proposital e objetiva. Por lá, são muitas as forças em ação que não se interessam por uma imprensa atuante e pela livre circulação de notícias. Repórteres se tornaram alvos preferenciais de grupos extremistas e o grau de periculosidade aumenta se o jornalista em questão for do sexo feminino. Por vezes, é duro nascer sob a condição de ser mulher.

Hadeiri fez do Iraque, e especialmente da região de Mosul, sua zona de combate particular. Não usava para isso os artefatos bélicos, mas os tradicionais ‘pena e papel’. Mosul era sua casa, sua alma, seu ponto de partida e de chegada. Nasceu e morreu nessa cidade pela qual deu sua vida. Já em seus últimos meses estava preocupada com a sua segurança e a de sua família. Começou a escrever sob pseudônimo para alguns dos veículos para os quais trabalhava. Seu marido e seus filhos mudaram-se para Damasco, capital da Síria, e ela mesma decidiu segui-los. Entretanto, seu trabalho estava no Iraque atolado por toda sorte de problemas advindos de uma nação dividida. Em uma de suas breves visitas à cidade para coletar e produzir informação, encontrou o seu trágico destino no dia 7 de junho de 2007, quando foi baleada.

Nuances e complexidades

A imprensa torna público o que era antes somente privado. Se contiver algum valor de notícia, a dor da morte e da perda vai para as páginas de jornais e para as telas das televisões. Mas jornalistas são tratados por seus pares como soldados em campos de batalha. Suas mortes não são devidamente anunciadas. Suas baixas fazem parte da natureza de sua profissão. São os ossos de seu ofício. Seus feitos são esquecidos, exceto por aquele pequeno círculo de parentes, amigos e colegas de profissão que se fez durante sua pobre vida. Assim é para todos, jornalistas ou não.

A morte de Hadeiri foi lamentada por alguns veículos noticiosos. Anthony Borden, do Washington Post, por exemplo, a descreveu como ‘destemida’ e comentou seu mais recente trabalho: uma reportagem com elementos do clássico Romeu e Julieta de Shakespeare, onde ela contou a história de Duaa Khalil Aswad, uma garota yezidi, de 17 anos, que foi apedrejada até a morte por ter se apaixonado por um garoto que não pertencia a essa antiga seita, mas era muçulmano (ver aqui). O apedrejamento de Aswad, no dia 7 de abril deste ano, foi aplaudido pela turba ensandecida e filmado em seus telefones celulares. Hadeiri contava essa e outras tantas tristes histórias. Deu voz não às fontes oficiais, mas ao povo iraquiano. Ia onde não havia ninguém para reportar a tragédia das vidas comuns; ouvia quem não era escutado. Por meio de seu trabalho, Hadeiri revelava as nuances e as complexidades de seu país, estereotipado na figura de um ditador sanguinário e pela guerra em curso. Seu trabalho, embora tragicamente interrompido, foi vasto, intenso, informativo e elucidativo. Ela foi a primeira jornalista a alertar sobre o perigo de uma insurreição extremista na cidade de Mosul. Em outra reportagem, havia denunciado que militantes da mesma cidade estavam assassinando professoras e deixando sem escola centenas de crianças (ver aqui).

‘Falar de sua aldeia’

Uma dessas professoras foi Kathwar, que foi vista pela última vez quando tomou um táxi na porta de sua casa. Quando foi encontrada, tinha seu corpo mutilado dentro de um barril de plástico, perto da escola em que trabalhava. Seu abdômen estava rasgado por balas e seus olhos haviam sido arrancados. Nesta mesma reportagem escreveu que a morte havia se ‘tornado uma companheira para os habitantes da região norte da cidade (Mosul)’ e completou que a vida para as mulheres havia se tornado particularmente dura naquela região.

Hadeiri se tornou presa fácil e alvo preferencial. Devido ao teor de suas denúncias, a jornalista havia se convertido em uma ameaça aos seguidores da Al Qaeda.

A jornalista contribuía assiduamente para o Institute for War and Peace Reporting (IWPR), um site de notícias independente que congrega diversas fontes de informação de vários países e se diz comprometido com a ‘construção da democracia em zonas de conflito e com as mudanças possíveis de serem conquistadas através do poder do jornalismo profissional’. No site, é possível ler várias das reportagens realizadas por essa mulher que dedicou sua vida a ‘falar de sua aldeia’, sendo por isso universal. Na última delas, nos conta sobre casos de mulheres iraquianas à procura de trabalho e enganadas por agenciadores que as levavam para a escravidão sexual.

Algumas eram traficadas para países estrangeiros. Uma delas é Asma, cuja mãe é cega e cujo pai é deficiente.

Bocas cerradas

As histórias de Hadeiri não eram alegres e não tinham finais felizes. Em uma outra, narra a desoladora perseguição às minorias étnicas e religiosas – shabaks e cristãos – no nordeste de seu país, na província de Nineweh, ‘uma das mais violentas do Iraque’ (ver aqui).

Com um destino semelhante ao de seus retratados, Hadeiri não está só. Nesta longa lista de pessoas perdidas, ela ocupa a 106ª posição dos jornalistas mortos no Iraque desde o ano de 2003 e, segundo dados do Committee to Protect Journalis, a 84ª entre os profissionais da mídia iraquiana. Seu número frio nessa triste estatística esconde uma verdade irreparável. Hadeiri trabalhava para seu país. Acreditava em sua reconstrução e na importância de uma imprensa livre neste processo. Contava histórias de um povo distinto e distante com a descrição de particularidades somente percebidas por quem ali nasceu e cresceu.

Como escreveu Susanne Fischer, diretora da IWPR no Iraque, ‘Sahar al-Hadeiri morreu porque era jornalista – uma jornalista iraquiana que ousou fazer perguntas e que deu voz aos iraquianos que não queriam que seu país fosse dividido pela violência sectária e pelo terror imposto pelas organizações ligadas à Al-Qaeda’. Em um programa de rádio, é a voz de Hadeiri que é ouvida e que clama por Deus e deseja que Ele possa fazer alguma coisa para proteger as mulheres que exercem a profissão de jornalista no Iraque. Mulheres que trabalham temendo por suas vidas por praticarem o crime de somente dizerem a verdade. Mulheres que estão tendo suas bocas cerradas para sempre.

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Estudante do último período de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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