Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

Um velho jornal sem novo papel

Por Nilson Mariano em 09/12/2008 na edição 515

Calaram-se as rotativas do jornal carioca que infernizou o último governo Getúlio Vargas e cutucou a ditadura militar por duas décadas. Prestes a completar 60 anos, a Tribuna da Imprensa sai de cena, some nas bancas de revista, mas ganha lugar na história da imprensa brasileira. O epitáfio foi publicado segunda-feira (1/12), na última edição. Em tom pesaroso, mas com a verve de sempre, o diretor-proprietário Helio Fernandes anunciou uma ‘interrupção momentânea’ da circulação:

– Pela primeira vez em 46 anos, acordo pontualmente às 6 da manhã e a Tribuna da Imprensa não está debaixo da porta.

Aos 88 anos, Helio Fernandes pode ser considerado o último rebelde de uma estirpe de jornalistas que se caracteriza pela contundência do texto – às vezes panfletário e sem medir as conseqüências, mas inegavelmente corajoso. Na edição em que se despede ‘temporariamente’ dos leitores, ele tomba atirando: acusa o Supremo Tribunal Federal (STF), mais especificamente o ministro Joaquim Barbosa, de adiar o julgamento de uma ação de indenização que rola por tribunais há 29 anos.

Desde 1962 dirigindo a Tribuna, Helio ingressou com o pedido de indenização para compensar as perseguições e os prejuízos sofridos durante a ditadura militar. Várias edições foram apreendidas, a tinta ainda fresca nas páginas. Os empastelamentos (inutilizar as oficinas gráficas) se sucediam. Anunciantes do jornal foram coagidos a retirar a publicidade que garantia o grosso da receita. Para culminar, um atentado a bomba destruiu a sede, na Rua do Lavradio, no centro histórico do Rio. O próprio Helio foi visitante assíduo nos porões de tortura.

Seria com o dinheiro da indenização (um jornal de São Paulo a calculou em R$ 10 milhões, mas Helio nega esse valor e diz desconhecer a quanto chegaria) que a Tribuna pretendia pagar dívidas, salários atrasados e continuar operando. O estranhamento dele aumenta porque outros jornalistas, como Carlos Heitor Cony, Ziraldo e Jaguar, já receberam polpudas compensações. Alguns dos contemplados com a bolsa-ditadura nem incomodavam tanto assim os generais.

Mar de lama

Com passagens pelas revistas O Cruzeiro, Manchete e jornais de destaque na sua época, Helio promete não se render. Enquanto sonha retomar o jornal de papel, manterá a Tribuna online. Ele, que começou com 13 anos catando as teclas de uma máquina de escrever modelo Underwood, agora cava trincheiras na internet. O esforço é para não deixar morrer um jornal que nasceu para ter posições – o que contraria a regra da tentativa de se manter imparcial. A Tribuna foi criada em 1949 pelo político e jornalista Carlos Lacerda. Apelidado de ‘O Corvo’ pela virulência dos seus artigos, cada palavra era como uma bicada em vísceras abertas, Lacerda foi implacável contra o governo Getúlio Vargas (1951-1954). O nome ganhou forma a partir de uma charge do cartunista Lan, publicada no jornal Última Hora.

A ira de Lacerda aumentou com o atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, na madrugada de 5 de agosto de 1954. O dublê de jornalista e político foi ferido no pé, enquanto o seu escolta, major Rubens Vaz, morreu no tiroteio contra o pistoleiro Alcino do Nascimento. Um inquérito indicou que o crime foi ordenado pelo chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato.

Ainda mancando, Lacerda usou o canhão da Tribuna da Imprensa para exigir a renúncia de Getúlio, cujo governo já se debatia no lodaçal da corrupção. Após 19 dias de crise, o presidente se suicidou, com um tiro que teve o poder de atingir o coração do país. Então, simpatizantes do mandatário invadiram o jornal e empastelaram a gráfica.

Balde de tinta

Em 1962, à beira da falência, Lacerda vendeu o jornal para Manuel Francisco do Nascimento Brito, o condutor do Jornal do Brasil. Estrelas do lendário JB, como Carlos Castello Branco e Armando Nogueira, reforçaram a Tribuna da Imprensa com suas colunas, mas o projetou fracassou. No final do mesmo ano, o JB repassou a publicação a Helio Fernandes.

Gerações de jornalistas que depois se projetariam nacionalmente deram os primeiros passos na Tribuna. Profissionais como Zuenir Ventura, Paulo Henrique Amorim, Evandro Carlos de Andrade e outros passaram pela chamada escola da Rua do Lavradio.

A principal herança da Tribuna da Imprensa foi ter contestado a ditadura militar. Com sua linha de extremos, cometeu pecados, como o de ter se alinhado ao governo de Leonel Brizola, nos anos 1980. Mas entrará na história, com seus acertos e equívocos, pela valentia editorial. Se Lacerda atenazou Getúlio à exasperação, Helio utilizou seus linotipos para combater o regime militar. Nos intervalos, protagonizou um episódio que enriqueceu o anedotário das redações. Enquanto corria ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, foi lambuzado por um balde de tinta, marrom (a cor do sensacionalismo), jogado pelo colega Zuenir Ventura. Helio confirma, mas parcialmente:

– É verdade. Mas não vi se foi ele. Provavelmente não, ele é muito covarde para isso. Ele mandou alguém – conta.

E fizeram as pazes, o senhor e o Zuenir?

– Nunca! Nem falo com ele.

Novo foco

A Tribuna da Imprensa e periódicos como O Pasquim, Movimento, Opinião e tantos outros, denominados alternativos ou carinhosamente de nanicos, se insurgiram contra a ditadura. O professor de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), Marco Antônio Villalobos, ressalta que simbolizaram a resistência no período.

– Avançando o sinal, sempre fechado pela intolerância, os nanicos na minha opinião foram os verdadeiros gigantes da imprensa – diz Villalobos, autor de A Guerrilha do Riso – Carlos Nobre x Ditadura Militar Brasileira.

Os alternativos mudaram o foco. Nascido no Rio de Janeiro, pai de quatro filhos (todos ligados ao jornalismo ou ao cinema), Helio se aflige com a possibilidade de a Tribuna da Imprensa acabar em tempos democráticos.

– Pode – admite.

E logo argumenta, indignado:

– Não vivemos sob uma verdadeira democracia.

***

‘O jornal impresso não vai acabar’

Num editorial em que se apresenta ‘com a mente revoltada e o coração sangrando’, o jornalista Helio Fernandes anunciou, na segunda-feira (1/12), a suspensão temporária da Tribuna da Imprensa – criada há 59 anos por Carlos Lacerda. O jornal que sobreviveu a duas décadas de ditadura militar sucumbiu às dívidas em tempos de democracia. No entanto, aos 88 anos, Helio promete manter a Tribuna da Imprensa por meio da internet, no jornal online. Dono de um texto mordaz e sem travas na língua, concedeu entrevista a ZH na quarta-feira (3/12), por telefone, desde sua casa no Rio de Janeiro.

***

Por que a Tribuna da Imprensa está fechando?

Helio Fernandes – Não está fechando, está deixando de circular, é diferente. A Tribuna está saindo diariamente no online. Meu artigo, minha coluna, os outros colunistas, como o Carlos Chagas, o Argemiro Ferreira, o Sebastião Nery, o Pedro do Coutto, todos eles estão no online. Na terça-feira, tivemos 118 mil acessos ao nosso jornal. A Tribuna online continua firme.

O que deixa de circular é o jornal de papel?

H.F. – Exatamente. Aliás, essa é a grande dúvida no mundo jornalístico: o jornal impresso vai resistir ao jornal da internet? No meu entendimento, o jornal impresso não vai acabar, de forma nenhuma. Ele vai é se localizar. O que é isso? Nas capitais e nas grandes cidades, ficará apenas um grande jornal. Isso já está acontecendo, de certa maneira. Para ficarmos no exemplo dos Estados Unidos, lá o The New York Times está em Nova York, o Washington Post em Washington D.C., e assim por diante. Isso não é só por causa da internet. Antigamente, as pessoas tinham quatro ou seis jornais à disposição, mas hoje não têm tempo para ler todos. Hoje, lêem um ou dois jornais e vêem mais notícias na internet.

Mas por quanto tempo a Tribuna da Imprensa de papel deixará de circular?

H.F. – É momentaneamente. Pode ser cinco dias, cinco meses, cinco anos… É momentâneo.

O senhor escreveu sobre o ‘imodesto’ ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estaria retardando o julgamento do pedido de indenização feito pela Tribuna da Imprensa. Culpa alguém pela situação?

H.F. – Nós entramos com o pedido de indenização em 1979. Em 1982, o juiz de primeira instância dividiu a ação em duas: a líquida e a ilíquida. Ela ficou de 1982 até agora, durante 26 anos, circulando por vários e vários tribunais, sem nenhuma decisão. Nada. Então, eis que o ministro Joaquim Barbosa aceita um recurso protelatório, e está há dois anos e meio analisando ele. Disseram que critiquei violentamente o ministro. Não foi assim. Lembrei uma frase dele: ‘Quem esperava um negro subserviente, vai encontrar um magistrado competente’. Então, deixei a alternativa para ele mesmo resolver: se vai ser um negro subserviente, recusando a indenização, ou se vai ser um magistrado competente, mandando pagar imediatamente.

O senhor espera uma indenização de R$ 10 milhões da União, em razão de perseguições durante a ditadura. O que faria com o dinheiro?

H.F. – Não, R$ 10 milhões, não. Isso foi o que a Folha de S.Paulo divulgou mentirosamente. Não tínhamos expectativa nenhuma. Não temos estimativas de quanto será.

Mas o que faria com a indenização? Investiria no jornal?

H.F. – Toda a indenização, se for paga, será usada para pagar as dívidas acumuladas pela Tribuna da Imprensa, por causa das perseguições sofridas.

Que tipo de perseguição?

H.F. – Várias. O jornal já teve 64 páginas cheias de anúncios publicitários. No entanto, o então diretor-geral da Receita Federal, Orlando Travancas, procurava os anunciantes da Tribuna para intimidá-los. Chegava a ameaçar as empresas anunciantes com auditorias. Se elas deixavam de anunciar, aí a auditoria era suspensa.

O senhor foi um dos jornalistas mais perseguidos pela ditadura…

H.F. – Não gostaria de contar a minha biografia. Mas sou o cidadão mais perseguido. Fui desterrado três vezes. Fui levado seis vezes para o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, o principal centro de interrogatório e tortura da ditadura). Fui preso várias vezes. Fui cassado em 1966, quando era candidato a deputado federal pelo MDB (embrião do PMDB). Um dia troquei cartas com o senador Pedro Simon, um político bravíssimo. Então, ele disse: ‘Helio, jamais conheci alguém tão oposicionista como você’. O meu irmão, o Millôr Fernandes, disse uma coisa que ratifico: ‘Jornalista que não é de oposição é melhor que abra um supermercado’.

Durante a ditadura militar, a Tribuna da Imprensa ficou 10 anos sob censura prévia. Como foi lidar com isso?

H.F. – De 1968 a 1978, foi terrível. Nós resistíamos. Muitas vezes, fazíamos uma edição meio alaranjada (morna), com algum artigo bobo, na Rua do Lavradio, a sede da Tribuna. E outra edição, esta duríssima, para valer, numa gráfica de Nova Iguaçu. Um dia, me chamaram na Polícia e reclamaram: ‘Os censores estão se queixando de que a Tribuna tem um restaurante, mas que o senhor não deixa eles nem tomarem um cafezinho’. Então, respondi: ‘Olha, só dou uma cadeira para eles sentarem, para não atrasar o jornal. Mas não vou alimentar quem está querendo matar o jornal’.

Como o jornal sobreviveu ao atentado a bomba de março de 1981, atribuído a grupos linha-dura da ditadura militar?

H.F. – A ditadura, já no chão praticamente, mas vingativa, destruiu toda a sede da Tribuna. Nós temos quatro prédios lá, de números 92, 94, 96 e 98, na Rua do Lavradio, onde o Carlos Lacerda fundou o jornal, em 27 de dezembro de 1949. É a rua mais antiga do Rio de Janeiro, que desemboca na Lapa, o centro boêmio. Foi tudo destruído, máquinas, prédio, tudo. Mas não entramos com ação de indenização por causa disso. A nossa ação ainda não julgada é de 1979. Poderíamos ter entrado com nova ação, mas não o fizemos. Não quisemos dar a impressão de ser exploradores de indenização.

Qual foi a reação ao atentado a bomba?

H.F. – Às 4h10min da madrugada, em frente à Tribuna em chamas, estavam o doutor Ulysses Guimarães, o Alceu Amoroso Lima, o Barbosa Lima Sobrinho, gente da maior importância. Depois, fui depor no Senado, que tinha uma CPI do Terror, presidida pelo Franco Montoro. Depus por seis horas, dando os nomes de quem tramou o atentado, tudo feito pelo SNI (Serviço Nacional de Informações).

Voltando à situação de hoje. É verdade que seu jornal estava vendendo somente 800 exemplares por dia?

H.F. – Mentira, e já respondi isso por escrito.

Mas qual é a real situação da Tribuna da Imprensa?

H.F. – Evidentemente que está endividada. Se não, não suspenderia a circulação. Mas não sei o valor, por causa de correção monetária, juros etc. Mas posso garantir que tudo que a Tribuna receber (do pedido de ndenização em análise no STF) será destinado a pagamentos de dívidas.

Como é para o senhor, que começou com a velha máquina de datilografia, migrar para o jornalismo na internet?

H.F. – É a mesma coisa. Inclusive, há computadores que funcionam como a máquina de escrever.

O que o senhor pretende fazer agora?

H.F. – Estou escrevendo, trabalhando normalmente. Espero que o processo de indenização seja resolvido rapidamente, para que a Tribuna de papel volte a circular.

******

Da Redação do Zero Hora

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