Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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CADERNO DA CIDADANIA >

Uma atividade extraordinária e perversa

Por Fábio Fonseca Figueiredo em 22/02/2011 na edição 630

O Brasil está concorrendo a um Oscar com o documentário Lixo Extraordinário . Co-produção entre o Reino Unido e Brasil e vencedor de prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim em 2010, o filme tem tudo para trazer por primeira vez ao país a cobiçada estatueta dourada (ver aqui).

O documentário foi gravado no maior lixão a céu aberto do Brasil, o Jardim Gramacho (Rio de Janeiro). Diferentemente do documentário Estamira, que apresenta de maneira nua e crua o cotidiano dos catadores, Lixo extraordinário possui um roteiro simples e imagens impactantes para quem jamais esteve num lixão. Trata de um artista plástico que convence os catadores do local a cederem seus rostos para que sejam pintados em quadros e posteriormente vendidos. A arrecadação com a venda dos quadros será revertida aos catadores. Nas palavras de Vik Muniz, que pintou os quadros, ‘a proposta foi fazer do lixo uma arte a partir do lixo’. Aparentemente, o artista conseguiu seu objetivo, que se traduz em belos quadros que foram expostos e vendidos em Londres.

Para além do glamour cinematográfico, Lixo Extraordinário reacende a discussão sobre a problemática social vivida pelos catadores de lixo no Brasil. Trata-se de um universo de aproximadamente um milhão de pessoas (estatística não confirmada e que penso ser maior) que possuem como fonte de renda a coleta e separação de materiais para posterior venda a indústrias de reciclagem. Contando com quase nenhum apoio governamental, estes sujeitos invisíveis na sociedade brasileira são responsáveis por 90% da oferta dos materiais que atualmente são reciclados no país.

Ninguém é catador porque decidiu ser catador

As políticas assistencialistas tampouco têm conseguido mudar o status quo de miséria desses dos catadores, uma vez que diversos estudos científicos e algumas poucas e boas reportagens denunciam a maior precarização do trabalho destes sujeitos e, paralelamente, lucros crescentes e extraordinários conseguidos pelas indústrias de reciclagem no país. Entretanto, na perspectiva oficial, inclusão social implica a formação de associações e cooperativas de catadores, com vistas a aumentar a coleta de materiais destinados às recicladoras. Essa perspectiva pode ser vista na célebre frase do ex-presidente Lula durante a Expocatadores de 2009: ‘O governo está dando a vara para os catadores pescarem os materiais recicláveis.’

A inclusão social no Brasil é uma quase-inclusão, justificada pelo senso de benevolência e conformidade sociais ante a periclitante situação vivida pelos catadores. A noção é simplória: já que o catador está catando os materiais de uma maneira desordenada, a ideia é profissionalizar o catador de maneira que ele possa realizar a sua atividade de maneira produtiva, ou seja, fazendo com que o catador entre na lógica mercadológica da indústria da reciclagem. Dessa forma, o catador poderá conseguir maiores rendas a partir do trabalho organizado.

Mas… maiores rendas para quem? Para as indústrias de reciclagem? Para que o governo pose de bom moço por capacitar os catadores a coletar materiais recicláveis?

Conforme o discurso do Movimento Nacional de Catadores de Materiais recicláveis, as prefeituras devem contratar os catadores para a realização dos serviços de coleta e separação dos materiais. Se entendo, tal discurso trata de transformar catadores em garis. Isso é inclusão social ou apenas uma forma digna de se adentrar na economia politica do lixo? Não se pode esquecer que ninguém é catador porque decidiu ser catador, e sim porque as condições de exclusão social levam as pessoas a serem catadoras. Vale a pena a leitura do livro Metamorfose do Trabalho, onde André Gorz analisa a ressignificação do trabalho na sociedade. E também Vidas desperdiçadas, de Zygmunt Bauman.

Profissão promissora

Quem defende a inclusão social propõe como condição primeira a melhoria nas condições de trabalho e de vida dos catadores. O reconhecimento da atividade de catação pelo Ministério do Trabalho em 2002, a disponibilidade de financiamento público do BNDES e Funasa a entidades de catadores e a recém-criada política nacional de resíduos sólidos indicam a postura oficial no sentido de melhorar a situação daqueles sujeitos.

Os encaminhamentos oficiais e o apelo de parte da sociedade levam a crer que a atividade de coleta e separação dos materiais recicláveis será uma promissora profissão num futuro próximo. Nesse sentido, uma pergunta se faz importante: alguém que possui filhos menores gostaria que eles se tornassem catadores de materiais recicláveis, mesmo sabendo que este profissional possui todos os direitos trabalhistas reconhecidos, rendimentos interessantes e que a atuação laboral se desse em condições satisfatórias? A mesma pergunta serve para empregadas domésticas, coveiros, embaladores de mercadorias em caixas de supermercado, flanelinhas…

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Economista e doutor em Geografia, Natal, RN

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