Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Uma cobertura diferente, ma non troppo

Por Ligia Martins de Almeida em 11/03/2008 na edição 476

O noticiário sobre o Dia Internacional da Mulher (8 de março) neste ano fugiu do convencional. Em vez das tradicionais matérias sobre a luta feminina pelo voto e igualdade, os jornais divulgaram pesquisas – oficiais e não oficiais – sobre a situação da mulher. No entanto, a imprensa, para variar, não analisou os dados dessas pesquisas. Nem completou o quadro com os exemplos de casos particulares com os quais, em outras situações, abusa da paciência do leitor.

Alguma coisa mudou na situação da mulher. É para essas mudanças que a imprensa ainda deve análises e comentários.

Mulheres no Parlamento

‘O Brasil é o país da América do Sul com a segunda menor porcentagem de mulheres no Parlamento, à frente só da Colômbia. É o que apontam dados tabulados pelo demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Desde 1974, quando foi eleita apenas uma deputada federal, o percentual de deputadas tem aumentado quase que constantemente, até chegar, em 2006, a 8,8%. O avanço é pífio se comparado com a situação de outros países. Uma comparação internacional, atualizada anualmente pela organização internacional IPU (sigla em inglês para União Inter-Parlamentar, mostra que, de uma lista de 188 países, atualizada em 2007, o Brasil aparecia apenas na 146ª posição, pouco atrás da Índia e à frente do Congo. Um relatório divulgado em janeiro deste ano pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) mostra que a situação se repete quando a comparação é de mulheres no ministério. No Brasil, apenas 8% em 2006. Só o México tinha percentual menor (5%).’ (Folha de S.Paulo, 7/3/2008)

Mulheres no Executivo

‘A participação das mulheres em postos-chave do Executivo Federal não chega a 20%. Levantamento feito pelo Estado mostra que, dos 37 ministérios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo menos 11 não têm sequer uma mulher em cargos de relavância. O número de ministras também é considerado pequeno. São apenas quatro: Dilma Roussef (Casa Civil), Marta Suplicy (Turismo), Marina Silva (Meio Ambiente) e Nilcéia Freire ( Secretaria de Política para Mulheres). Segundo a professora Tânia Fontenele Mourão, autora do livro Mulheres no Topo da Carreira, Flexibilidade e Persistência, na base da pirâmide – onde o ingressos dos servidores é por meio de concurso – a relação de homens e mulheres é quase eqüitativa. O mesmo não se observa nos cargos de confiança. À medida que os cargos de decisão vão subindo, a participação da mulher é inversamente proporcional.’ (O Estado de S.Paulo, 9/3/2008)

Mulheres e trabalho

‘As mulheres predominam entre os trabalhadores sem ocupação, ganham menos e atuam mais do que os homens no mercado informal de trabalho nas seis principais regiões metropolitanas do País, segundo o estudo divulgado nesta sexta-feira, 7, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o estudo, da população ocupada de 21,2 milhões nas seis regiões em janeiro, 44,4%, ou 9,4 milhões eram mulheres. Já o rendimento das mulheres trabalhadoras com nível superior foi de R$ 2.291,80 em janeiro, ou 60% do valor de R$ 3.841,40 recebido pelos homens. Ainda assim, entre as mulheres trabalhadoras, 59,9% tinham 11 anos ou mais de estudo em janeiro de 2008, contra 51,9% dos homens. O porcentual de trabalhadoras com carteira assinada era de 37,8%, entre os homens ele já atingia 48,6% em janeiro deste ano. As mulheres também se sobressaem no desemprego. Em janeiro, a taxa de desocupação entre as mulheres foi de 10,1% e de 6,2% entre os homens. A pesquisa mostra ainda que, analisando a distribuição entre as atividades econômicas, em janeiro, 16,5% das mulheres ocupadas estavam nos Serviços Domésticos; 22% na Administração Pública, Educação, Defesa, Segurança, Saúde; 13,3% nos Serviços prestados à Empresa; 13,1% na Indústria; 0,6% na Construção; 17,4% no Comércio e 17% em Outros Serviços e Outras Atividades.’ (O Estado de S.Paulo online, 7/3/2008)

No comportamento, a maior mudança

Ao que tudo indica, a grande mudança foi mesmo na área dos relacionamentos pessoais. Segundo o PNAD (Plano Nacional por Amostras de Domicílio) do IBGE, a novidade é que aumentou o número de mulheres mais velhas casadas com homens mais jovens.

‘Entre 1996 e 2006, essas uniões passaram de 5,6 milhões para 7,6 milhões, o que representa um crescimento de 36%. A pesquisa constatou que nos casos em que a mulher tem idade superior à do homem e ainda é a chefe da família, ela tem um rendimento superior ao do marido em quase todos os arranjos, exceto na faixa de 1 a 4 anos de diferença, em que os homens recebem cerca de 9% mais que a mulher. O estudo constatou que o diferencial de rendimento entre o casal aumenta de acordo com o avanço da diferença de idade. Para as mulheres com uma diferença de idade de 30 anos ou mais em relação ao cônjuge, o rendimento deste ultimo representa apenas 25% do rendimento da mulher.’ (O Estado de S.Paulo online, 7/3/2008)

Com pequena participação política, trabalhando mais e ganhando menos (apesar da escolaridade maior), as mulheres passaram mais um 8 de março com pouco a comemorar. A menos que se acredite que casar com um homem mais novo (menos educado e com salário menor que o dela) seja um sinal de liberação ou uma grande conquista feminina. Vamos esperar que, depois de divulgar todos esses dados, a imprensa convoque especialistas para mostrar aos leitores o que realmente mudou na situação da mulher desde que, no século passado, o 8 de março entrou no calendário.

Em homenagem às mulheres, a imprensa poderia, ao menos, ter uma postura crítica com os atos demagógicos do governo, como a batida policial ‘Dia Internacional da Mulher’, que prendeu maridos devedores de pensão alimentar – para soltá-los assim que quitaram suas dívidas. Ou a cerimônia no Palácio da Justiça, quando sete mulheres receberam pensão vitalícia por terem sido prejudicadas pelos governos da ditadura.

Os jornais apenas esclareceram que foram escolhidas sete mulheres que tiveram seus processos concluídos. Mas que ainda faltam muitas. Quantas, e quem são, talvez só se saiba no dia 8 de março do ano que vem, quando faltar assunto para falar de mulheres.

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