Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

CADERNO DA CIDADANIA > DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Uma semana de homenagens. E gafes

Por Ligia Martins de Almeida em 15/03/2005 na edição 320

‘Vocês já são a maioria da população brasileira, já são 52%, vocês já têm cargos de vereadoras, de prefeitas, de governadoras. Eu espero que vocês não sejam tão desaforadas e não comecem a pensar na presidência da República. Vai devagar com essa pressa de poder.’

A frase, como todos sabem, é do presidente Lula, e foi cometida no dia 8 de março, quando ele improvisou sua homenagem às mulheres. Mais uma vez o presidente ofendeu a concordância. Mas desta vez, ofendeu também as mulheres.

Pena que a primeira-dama não deu, no presidente, um cutucão à moda de Ana Cavalcanti, quando o pai discursou em sua terra natal, na primeira visita depois assumir a presidência da Câmara do Deputados.

As mulheres poderiam ter pedido direito de resposta ao presidente para mostrar que o humor pode ser muito perigoso – e mais perigoso ainda quando as palavras são mal escolhidas. A imprensa, pelo menos, poderia ter criado espaço para o direito de resposta, entrevistando mulheres sobre a fala do presidente, em vez de ficar apenas reproduzindo as cerimônias oficiais de homenagem.

Como disse a leitora Iáris Ramalho Cortês no caderno ‘Aliás’, do jornal O Estado de S.Paulo (domingo, 13/3), ‘longe de ser uma brincadeirinha carinhosa, como foi classificado por pessoas do governo, esse conselho é uma idéia que existe na maioria das mentes brasileiras’.

Sorriso amarelo

Fora a manifestação de Iáris e do conveniente discurso do deputado Severino Cavalcanti, quando disse que ‘é preciso tomar consciência plena da injusta desigualdade, para a assunção feminina às mais altas responsabilidades’, pouco se viu de sério sobre mulher na imprensa na semana de tantas homenagens motivadas pelo Dia Internacional da Mulher, transcorrido na terça-feira (8/3).

Homenagens que acabam ridicularizadas, como a iniciativa do Senado de inaugurar uma galeria de fotos das suas integrantes, como mostra a matéria do Estado de S.Paulo (11/3). Assinado por Rosa Costa, o texto destaca que a galeria tem 28 fotos, ‘algumas tão remoçadas que as fotos lembram álbuns de debutantes’. Metade das homenageadas, diz a matéria, ‘chegaram ao Senado sem receber um voto dos eleitores. São suplentes chamadas a substituir os titulares do mandato. Entre as eleitas, pelo menos cinco tornaram-se políticas graças à carona de parentes, ex e atuais maridos’.

Um exemplo dessa carona é a senadora Patrícia Gomes, que presidiu, em caráter excepcional, a sessão do Senado no dia 8 de março. Foi homenageada por seu ex-marido, o ministro Ciro Gomes, convidado especial na sessão do dia. A TV Senado mostrou o sorriso amarelo da senadora quando o ministro falou dela como exemplo de mulher lutadora e de grande valor, tanto que ‘não me cobra pensão’. Deve ter sido apenas mais uma ‘brincadeira carinhosa’ de um integrante do governo.

Chega de brincadeiras

Terminada a semana de homenagens, as mulheres vão retomar seu verdadeiro lugar na mídia. A deputada estadual Ana Cavalcanti terá espaço enquanto conseguir dar cutucões no pai. Algumas mulheres, como a coordenadora da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, serão chamadas a discutir aborto.

E as mulheres comuns, como uma monitora D.C.T., de 29 anos, da Febem de Franco da Rocha (SP), serão manchete quando, como aconteceu com ela, forem vítimas de violência.

Até o ano que vem, quando outra semana de homenagens inundar a mídia, a gafe do presidente já terá entrado para o folclore presidencial.

Mas antes que isso aconteça, gostaria de ver alguém fazendo uma brincadeirinha carinhosa com o presidente – como alguns setores têm feito em off – e dizer que desaforo é um operário ser presidente da República.

Se a imprensa divulgasse esse tipo de frase, seria, com toda a certeza, alvo de críticas e talvez até de processos. No mínimo para exigir o direito de resposta. Mas quando se trata de mulher, até nós, jornalistas, aceitamos o preconceito como coisa natural. E nos contentamos com a esfarrapada explicação do Planalto. Nem jornalistas nem o Palácio parecem se dar conta de que o preconceito geralmente se revela nas frases ditas com as melhores intenções.

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Jornalista

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