Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA URBANA

Uma aula de História contemporânea

Por Luciano Martins Costa em 02/07/2014 na edição 805

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 2/7/2014

O professor de História André Luiz Ribeiro, de 27 anos, é o protagonista de um episódio que resume de maneira dramática as condições em que vive a população das grandes cidades brasileiras. No caso, o cenário é o bairro de Parelheiros, na zona Sul de São Paulo, e o enredo envolve assalto, tentativa de linchamento, inoperância do sistema de segurança pública e uma curiosa inversão de valores por parte de agentes do Estado.

Segundo relato publicado na quarta-feira (2/6) pelo Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo, Ribeiro saiu de casa por volta de 19 horas da quarta passada (25/6), para correr pelas ruas do bairro, como fazia diariamente. Em determinado trecho do seu trajeto, ele foi interceptado por um grupo de moradores, liderado pelo dono de um bar e seu filho, que o acusaram de ter participado de um assalto ao estabelecimento. O professor foi acorrentado e atacado a socos e pontapés até ser resgatado por uma equipe de bombeiros, exatamente quando alguém ia buscar um facão para executá-lo.

O desfecho seria mais um desses casos de linchamento que se tornaram comuns na periferia de São Paulo, que, segundo estudo da socióloga Ariadne Lima Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, resultam de uma falência geral da educação social no Brasil.

Na contramão das opiniões generalizadas pela imprensa, ela entende que não é a ausência de agentes do Estado em bairros da periferia que facilita ou provoca essas tentativas de protagonismo policial por parte de cidadãos comuns. A causa, na perspectiva da pesquisadora, é a falta de consciência social de uma ampla maioria da população, incluídos aqueles que têm acesso à educação formal.

As notícias espetaculosas sobre linchamentos estimulam a repetição desses atos, conforme observou a socióloga ao estudar cerca de dois mil casos ocorridos entre 1980 e 2009. O mais recente deles e de maior repercussão teve como vítima a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, trucidada por uma multidão no dia 3 de maio, no bairro de Morrinhos, município de Guarujá, litoral paulista. Ela foi identificada como uma suposta sequestradora de crianças, mito urbano que sobrevive em boatos e nas redes sociais digitais.

Inversão de valores

O irônico, no caso do professor André Luiz Ribeiro, é que ele foi o único personagem da história a ser punido: passou dois dias na cadeia e foi indiciado, acusado de ter assaltado o bar. O dono do estabelecimento, líder da horda que tentou assassiná-lo, foi registrado como vítima.

Segundo consta, Ribeiro somente foi resgatado pelos bombeiros e escapou da morte porque foi capaz de dar uma rápida aula de História. E sobre que assunto discorreu o professor? Segundo as reportagens, ele foi obrigado a falar sobre a Revolução Francesa.

Recomenda-se ao leitor e à leitora que reflitam sobre o significado desse conjunto de fatos aparentemente simples e casuais, lembrando que não foram poucos os analistas dos movimentos de protesto que ocorrem no país desde o ano passado, que fizeram comparações entre a Queda da Bastilha e os grupos que se movem pelas cidades, causando depredações.

Qual seria a diferença entre os ativistas que pretendem mudar as instituições quebrando vitrinas e os celerados que tentam tirar a vida de alguém com base em mitos ou acusações levianas?

A semelhança entre eles é que ambos os grupos imaginam estar fazendo História, ou pretendem mudar a História, pelo caminho da violência.

Entre os ativistas das depredações há os que acreditam sinceramente que estão mobilizando a violência revolucionária em favor da sociedade. Entre os que deixam sua vidas pacatas para correr atrás de suspeitos com paus e pedras, há certamente uma maioria que acredita estar fazendo justiça.

Cabe ao Estado evidenciar que em ambos os casos estão sendo cometidos crimes, e dar aos perpetradores a oportunidade de se explicar à Justiça.

À imprensa deveria cumprir o papel de mostrar o absurdo que representa punir a vítima com dois dias de cadeia e o indiciamento, e deixar livres os autores da tentativa de assassinato. Mas os jornalistas não questionam a autoridade policial pelo fato muito mais grave – ainda que fosse comprovado que o acusado havia participado de um assalto.

Quanto ao professor, salvou-o a História.

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