Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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CADERNO DA CIDADANIA >

Uma realidade poliédrica ainda desconhecida

Por Regiane Santos em 19/05/2009 na edição 538

Todas as notícias que figuram nos veículos de comunicação são submetidas aos valores-notícia, critérios utilizados na produção noticiosa para selecionar informações que ganharão destaque no espaço público mediatizado.

Resultado de uma série de negociações conscientes, os valores-notícia baseiam-se em decisões dos profissionais de comunicação que compõem às redações, mescladas às regras editorais estabelecidas pelos diretores executivos ou proprietários dos media.

‘A necessidade de se pensar sobre critérios de noticiabilidade surge diante da constatação prática de que não há espaço nos veículos informativos para a publicação ou veiculação da infinidade de acontecimentos que ocorrem no dia-a-dia. Frente ao volume tão grande de matéria-prima, é preciso estratificar para escolher qual o acontecimento é merecedor de adquirir existência pública como notícia’ (SILVA, Gislene).

Na pós-modernidade, com a transformação da notícia em mercadoria, a mídia abandona o status de instrumento para difusão de lutas políticas, sociais e ideológicas e migra para o infotretenimento, fusão dos termos informação e entretenimento. ‘Produto industrial resultante de um processo empresarial organizado, perspectiva essa que tem por objetivo fazê-las moda e entreter o público’ (AGUIAR, Leonel Azevedo de).

Mercantilização da informação

Com o novo modus operandi de produção jornalística, no qual ‘a atividade privilegia o consumo rápido da informação em detrimento à reflexão crítica’ (AGUIAR, Leonel Azevedo de), considerável parte dos veículos de comunicação transmuta suas notícias em sedutores e rentáveis produtos vinculando-os a parâmetros como audácia, irreverência, distorção e deturpação.

Diante à falência das instituições tradicionais – família, religião, política e identidade coletiva – em função do individualismo e consumismo desencadeado pelo capitalismo, as notícias são embrulhadas no ‘papel do espetáculo’ para alavancar a audiência.

‘A prática sensacionalista é o grau mais radical da mercantilização da informação e também nutriente psíquico desviante ideológico e descarga de pulsões instintivas’ (AMARAL, Márcia Franz).

A desistência de Adriano

Assim, o jornalismo desvincula-se dos ideais iluministas de conscientização e mudança social para associar-se a novos e duvidosos valores-notícia capazes de atrair o público, vorazes consumidores de fait divers, uma vez que, através da fascinação exercida sobre o público, viabiliza-se economicamente a empresa informativa, cuja sustentabilidade permanece garantida por anunciantes que desejam proporcionar visibilidade às suas marcas para fomentar as vendas e, conseqüentemente, elevar substancialmente seus lucros.

‘A capacidade de entreter situa-se em uma posição elevada na lista de valores-notícia, quer como um fim em si mesma, quer como instrumento para concretizar outros ideais jornalísticos’ (AGUIAR, Leonel Azevedo de).

As notícias na pós-modernidade situam-se no âmbito do lazer. Para entreter, a indústria cultural ‘apela aos gostos das massas que representam tão somente degradação, tratam-se de produções culturais feitas para serem consumidas pelo imaginário e não pela razão, constituindo-se no caçoamento de toda forma pretensamente iluminista de fazer jornalismo’ (AMARAL, Márcia Franz).

Em meio ao desejo de distanciar-se da realidade através da descontração proporcionada pelos veículos de comunicação, um vasto público garante gigantescas e assustadoras audiências a notícias ‘espetaculares’ (denominação sinônima ao sensacionalismo utilizada por alguns teóricos), como a desistência do jogador de futebol Adriano Leite Ribeiro, conhecido como ‘Adriano, o Imperador’, em compor o tradicional time Inter, de Milão.

A farsa travestida de realidade

Valendo-se da premissa ‘quando algo não é compreendido em relação aos conteúdos consensuais do mundo da vida, então há notícia’ (JORGE, Thaís de Mendonça), marqueteiros e assessores de comunicação de ‘Adriano, o Imperador’ produziram um espetáculo midiático despachado via coletiva de imprensa e sucessivas entrevistas regadas a emotivas palavras regidas pela dor de não conseguir dar prosseguimento à sua meteórica e rentável carreira esportiva na Europa.

Deslumbrados com a possível repercussão da notícia e, conseqüentemente, a vasta audiência que tais informações proporcionariam, os veículos de comunicação sequer questionaram, em seus bastidores, a veracidade da notícia, esquecendo-se da ‘Apuração: Força Motriz do Jornalismo’ (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=535FDS012)

‘A falta de background reduz o acontecimento ao momento, ou seja, não há referências, não há recursos à técnica, nem hipóteses de simulação’ (MOTTA, Luiz Gonzaga).

Usada pelos espertos e articulados profissionais da comunicação esportiva, a mídia viu-se obrigada, dias depois, a comparecer, novamente, à coletiva de imprensa e a uma série de entrevistas para coletar detalhes sobre a contratação do atacante pelo time carioca Flamengo.

Infelizmente, os princípios norteadores do jornalismo, que deveriam embasar-se em uma concisa apuração jornalística, cedem espaço ao ‘espetáculo que procura no sensacionalismo e na rapidez, os ingredientes que fazem subir as audiências’ (CANAVILHAS, João). Temos, logo, a farsa travestida de realidade.

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Jornalista, blogueira, assessora de comunicação freelance e colunista do jornal Aqui, Pedro Leopoldo, MG

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