Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > FIM DE SEMANA, 26 E 27/05

Veja

29/05/2007 na edição 435

MAINARDI vs. LULA
Diogo Mainardi

O PAC tem de parar

‘A imprensa acoberta Lula. Quer ver como isso acontece? No último dia 17, o esquema de propinas da empreiteira Gautama foi desmantelado pela Polícia Federal. No mesmo dia, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou que a empreiteira Andrade Gutierrez se tornara a maior mantenedora do PT, tendo doado oficialmente ao partido, no ano passado, mais de 6 milhões de reais, 2 dos quais depois da campanha presidencial. Ninguém se deu ao trabalho de associar os fatos. Ninguém comparou as duas empreiteiras. As regalias que a Gautama ofereceu aos políticos de todos os partidos foram detalhadas pela imprensa. As regalias que a Andrade Gutierrez ofereceu a Lula foram caridosamente escondidas.

É só para isso que eu sirvo. Meu dedo está eternamente apontado para o peito de Lula. Eu sou a bússola do lulismo, o ponteiro magnetizado destes tempos ruins. Se a maior parte da imprensa acha que um presente dado por uma empreiteira a um secretário de Obras nos cafundós de Alagoas é diferente de um presente dado por uma empreiteira ao presidente da República, eu acho o contrário. A amizade entre os donos da Andrade Gutierrez e Lula é conhecida. Assim como é conhecida a generosidade com que eles sempre o trataram. A Gautama deu 20.000 reais ao sobrinho de ACM? Uma das donas da Andrade Gutierrez deu uma cirurgia plástica a Lurian. A Gautama ofereceu um passeio de barco em Salvador a Dilma Rousseff? Uma das donas da Andrade Gutierrez ofereceu uma estada de seis meses em Paris a Lurian. A Gautama entregou um pacote com 100.000 reais no gabinete de Silas Rondeau? A Andrade Gutierrez, por meio da Telemar, entregou bem mais do que isso à Gamecorp. E continua a entregar. Quanto? Oito milhões de reais? Doze milhões de reais?

Nos últimos meses, a Gautama corrompia políticos e servidores públicos para ter acesso ao dinheiro do PAC. A meta era fazer obras modestas em áreas distantes. A Andrade Gutierrez pertence a outra categoria de empreiteira. Disputa todas as maiores verbas do PAC, dos 2,47 bilhões de reais para construir navios petroleiros aos 3,7 bilhões de reais destinados à usina hidrelétrica de Belo Monte. Dois dias antes de ser afastado do ministério, Silas Rondeau declarou: ‘O PAC está muito acima de um prefeito, de um assessor. O PAC é maior do que a navalha’. Ele está certo. O PAC é infinitamente maior do que a Gautama. Maior e mais rico. Se uma empreiteira de fundo de quintal faz um estrago tão grande, subornando prefeitos do interior e assessores de ministros, imagine o que pode ocorrer nos maiores projetos. O PAC tem de parar imediatamente. O melhor caminho é decretar uma moratória das obras públicas, ao mesmo tempo em que o Congresso instala uma CPI e contrata uma auditoria independente para esquadrinhar os repasses do governo. É isso ou a Andrade Gutierrez aceita pagar para todos nós uma plástica no nariz.’

VEJA vs. RENAN
Policarpo Junior

O senador e o lobista

‘Desde que a Operação Navalha foi deflagrada, o senador Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, tem sido instado a explicar suas relações com o empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama. O senador tem dito que são apenas conhecidos, mas são mais do que isso. Em 1990, o empreiteiro bancou sorrateiramente a campanha do senador ao governo de Alagoas e, embora tenha terminado em derrota, a eleição serviu como marco de uma amizade sólida. Sólida mesmo, a ponto de o empreiteiro freqüentar a residência oficial do presidente do Senado. A situação de Renan Calheiros, porém, é mais complicada do que sua intimidade com Zuleido Veras. É que o senador tem outro amigo explosivo no submundo da empreita que, tal como Zuleido, freqüenta sua casa e, tal como Zuleido, é seu dileto amigo. O amigo de alta octanagem é Cláudio Gontijo, lobista da construtora Mendes Júnior, uma das maiores do país. Nos últimos anos, Gontijo, mais do que um amigo, tem se apresentado no papel de mantenedor do senador. VEJA apurou os laços financeiros entre os dois:

• O lobista da Mendes Júnior coloca à disposição do senador um flat num dos melhores hotéis de Brasília, o Blue Tree. O flat, número 2 018, é usado para compromissos que exijam discrição. Está em nome de Cláudio Gontijo.

• O lobista da Mendes Júnior pagou, até março passado, o aluguel de um apartamento em Brasília para o senador. O imóvel tem quatro quartos e fica em uma área nobre da capital federal. O aluguel saía por 4.500 reais.

• O lobista pagava 12.000 reais mensais de pensão para uma filha do senador, de 3 anos de idade. A pensão foi bancada por Cláudio Gontijo de janeiro de 2004 a dezembro do ano passado.

• O lobista ajuda nas campanhas do senador Renan Calheiros e nas de sua família. Já ajudou o próprio senador, seu filho e seu irmão.

Tal como Zuleido, Gontijo opera nas sombras. Oficialmente, ele é assessor da Diretoria de Desenvolvimento da Área de Tecnologia da Mendes Júnior há quinze anos. Na realidade, sua função é defender os interesses da empresa junto ao governo. A Mendes Júnior constrói aeroportos, metrôs, linhas de transmissão de energia e estradas. Tem fortes interesses no governo. Hoje, participa, entre outras obras, de um consórcio responsável pela construção do aeroporto de Vitória e fechou vários contratos com a Petrobras para a construção de tubulações e manutenção industrial. Tal como a Gautama, a Mendes Júnior também orbita no Ministério de Minas e Energia, do qual foi demitido o ministro Silas Rondeau. Foi a partir desse ministério que Gontijo estendeu sua área de influência a outros setores do governo nos últimos anos. Com a ajuda de Renan, chegou a indicar nomes para cargos públicos, como o do engenheiro Aloísio Vasconcelos Novais, que assumiu a Eletrobrás quando Rondeau deixou o cargo para ser ministro de Minas e Energia.

O senador Renan Calheiros caiu nas graças do lobista. Nos últimos três anos, a pedido de Renan, o lobista pagou os 4.500 reais de aluguel do apartamento de quatro quartos. No imóvel, até recentemente, morava a jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tem uma filha de 3 anos, que recebe a pensão do lobista. Todos os meses, a jornalista ia ao escritório da Mendes Júnior, no 11º andar do Edifício OAB, situado na Asa Sul, onde pegava um envelope branco, timbrado, com o endereço, os telefones e o nome de Cláudio Gontijo. O envelope era identificado com suas iniciais – MV. Dentro havia sempre 16.500 reais. Era o aluguel mais a pensão de 12.000 reais para a criança. VEJA teve acesso ao contrato de locação do imóvel. Nele, Gontijo assina como fiador. Seguindo orientação do senador, o lobista contratou uma empresa de vigilância para garantir a segurança de Mônica Veloso e sua filha. A direção da Mendes Júnior diz que isso tudo é ‘questão pessoal’ de Gontijo e que desconhece esses pagamentos. Procurada por VEJA, Mônica Veloso preferiu não se manifestar.

Cláudio Gontijo também cedia ao senador um flat no hotel Blue Tree, em Brasília. A VEJA, ele confirmou que conhece Renan Calheiros. ‘Ele é meu amigo, nada mais.’ Ele diz que classifica como maldade as insinuações de que freqüenta a casa do senador e que, por interesse, lhe presta favores. ‘Parei de ir à casa dele desde que ele virou presidente do Senado para evitar problemas’, disse Gontijo. O lobista admite que entregava dinheiro para quitar as despesas de Mônica Veloso, mas ressalva que o dinheiro não era nem dele nem da empreiteira. De quem era? ‘Só posso dizer que não era meu’, responde. O senador Renan Calheiros diz que ele mesmo era o dono dos recursos. ‘O dinheiro era meu’, afirmou. Se era seu, por que o lobista fazia a intermediação? Nesse ponto, Renan diz que não falará mais sobre um assunto que está sob segredo de Justiça. Renan ganha 12.700 reais brutos por mês como senador, que complementa, nas palavras dele, com ‘rendimentos agropecuários’. Pensão e aluguel, como se viu anteriormente, somam 16.500 reais. A vida íntima do senador Renan Calheiros diz respeito apenas a ele próprio. Não é um assunto público. Mas, quando essas relações se entrecruzam com pagamentos feitos por um lobista, o caso muda de patamar.

O lobista Gontijo nega que a Mendes Júnior tenha se beneficiado da proximidade com Renan Calheiros para conseguir contratos com o governo: ‘Não temos nenhuma obra sendo executada no governo federal’. Lembrado de que tem contratos com Infraero, Petrobras e Eletrobrás (todas áreas sob influência do senador), o lobista retruca: ‘Para nós, isso é obra privada’. Perguntado sobre o flat que empresta ao senador, encerra a conversa: ‘Não vou responder mais nada’. O lobista também ajudou a família Calheiros em campanhas políticas. Nas eleições de 2004, sempre por trás da contabilidade oficial, contribuiu com as campanhas de Renan Calheiros Filho (filho do senador), de Robson Calheiros (irmão do senador) e de José Wanderley (afilhado político do senador). Certa vez, o lobista chegou a reclamar que os pedidos financeiros de Renan Calheiros estavam exagerados. ‘Cláudio, arruma aí, pede emprestado’, solicitava o senador, de acordo com a versão contada pelo lobista a um interlocutor que conversou com VEJA. Não se sabe o tamanho da ajuda que o lobista deu. Renan Filho foi eleito prefeito de Murici, Robson Calheiros ganhou a suplência de vereador e o médico José Wanderley não se elegeu. No ano passado, emplacou como vice do tucano Teotonio Vilela, governador de Alagoas.

As relações empreiteiro-familiares do clã Calheiros também envolvem o deputado Olavo Calheiros, outro irmão de Renan. No âmbito da Operação Navalha, a polícia captou um diálogo entre Zuleido e Fátima Palmeira, diretora da Gautama, em que eles conversam sobre uma emenda que teria sido oferecida pelo deputado Calheiros, que beneficiaria a empresa. ‘É o seguinte: aqui, o Olavinho passou aquela emenda que ele tem para a gente’, diz Zuleido. ‘Empreiteiro é bravateiro, quer vender prestígio’, justifica Olavo Calheiros, informando que a emenda foi apresentada há dez anos. Pode ser mesmo uma bravata, mas o deputado Olavo Calheiros sempre atuou como uma espécie de abre-alas para empreiteiros amigos. Zuleido, quando tinha dificuldades para se encontrar com ministros para tratar de licitações de obras e liberações de recursos, acionava Olavo Calheiros. O deputado marcava audiência com o ministro e levava o empreiteiro na bagagem. Dois ex-ministros de Lula relataram a VEJA que receberam Olavo Calheiros em audiências às quais ele, de surpresa, apareceu acompanhado pelo empreiteiro Zuleido Veras.

As investigações sobre a Gautama de Zuleido Veras também mostram que os tentáculos do empreiteiro chegavam ao Tribunal de Contas da União. Em uma conversa captada pela polícia, Zuleido insinua ter acesso privilegiado a pelo menos dois ministros do TCU – Augusto Nardes e Guilherme Palmeira, parente de uma personagem importante do escândalo, Maria de Fátima Palmeira, diretora comercial da Gautama. Renan Calheiros também é íntimo de Guilherme Palmeira. Em 2004, Palmeira chegou a informar o senador a respeito do curso do processo que tramitava no Tribunal Superior Eleitoral sobre a cassação do então governador de Alagoas, Ronaldo Lessa – assunto que interessava a Renan Calheiros. A VEJA, o ministro Guilherme Palmeira confirma que é amigo de Renan, conhece Zuleido Veras, mas diz que nunca atuou em processos de interesse da Gautama. ‘Ao menos que eu me lembre, não!’ Conta que chegou até a receber algumas vezes Fátima no gabinete, mas encaminhou-a ao relator dos processos. O ministro, de fato, tem memória fraca. Ele foi relator do processo número 008 887/2002, que apura irregularidades num contrato da Gautama com a prefeitura de Porto Velho. Consultado por VEJA, mas sem conhecer o caso concreto, o advogado Roberto Caldas, membro da Comissão de Ética Pública da Previdência, diz que a relação financeira entre um parlamentar e um lobista de empreiteira é condenável. Diz ele, falando em tese: ‘Evidentemente, esse tipo de relação é inaceitável para alguém que ocupe um cargo público’.’

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Ser ou não ser teatral

‘No ar desde o último dia 14, a novela Eterna Magia vale-se de ingredientes incomuns numa trama das 6. Não, não há nada surpreendente na salada maluca da história – que mistura uma comunidade fictícia de origem irlandesa no interior de Minas Gerais, mitologia celta e esoterismo. O que chama atenção são certas interpretações marcadamente teatrais – como atestam as expressões de Irene Ravache no papel de uma megera. Ou então as ‘pílulas culturais’ que pontuam a novela. No primeiro capítulo, uma personagem apareceu num trem devorando uma edição da peça A Tempestade, de Shakespeare. Já se mencionou ainda a pintura de Rafael Sanzio, a música de Villa-Lobos – e por aí afora. Tudo isso tem a ver com uma presença nos créditos da novela: o paulistano Ulysses Cruz. Teatrólogo que ganhou fama com montagens das tragédias de Shakespeare, ele passou a integrar os quadros da Globo há dez anos, mas só com Eterna Magia ganha sua primeira incumbência como diretor-geral de um folhetim. Um caminho natural, diz ele: ‘Herdei o amor pela televisão de minha mãe, que não perdia uma novela’.

Antes de Cruz, a Globo já contava com diretores que dão um tempero mais experimental à teledramaturgia, como Luiz Fernando Carvalho, da minissérie Hoje É Dia de Maria, e Guel Arraes, de O Auto da Compadecida. Mas, enquanto ambos se fizeram na TV e no cinema, o diretor de Eterna Magia vinha de um currículo forjado apenas no teatro (a bem da verdade, tinha também outra experiência: dirigiu desfiles de escolas de samba nos anos 1980 e 90). Não foi uma transição sem dor. Dez anos atrás, depois de levar Hamlet ao palco, Cruz sentiu medo de se fechar num metiê estéril. ‘Eu já começava a me sentir amargo como meus colegas de profissão’, afirma. Em crise, destruiu dois cenários. ‘Entrei numa obsessão de só querer fazer Shakespeare, o que é inviável no Brasil’, diz. Cruz queria criar uma companhia para montar as 36 peças do autor inglês, mas desistiu depois de ouvir a reação do ator Antonio Fagundes a seu plano. ‘Ele ficou com os olhos cheios de lágrimas e me disse: ‘Você vai se matar fazendo essa companhia’, recorda-se.

Em 1997, Cruz conseguiu um estágio na Globo por indicação da atriz e amiga Cássia Kiss. Depois de ficar esquecido em seus quadros por uns tempos, caiu nas graças do diretor decano da casa, Carlos Manga. Passou então a dirigir infantis como o programa de Xuxa e o Sítio do Picapau Amarelo. Antes de sua promoção para a novela das 6, aliás, Cruz esteve à frente da versão modernosa do Sítio que foi um fiasco de audiência. Hoje, ele possui uma escola de teatro em São Paulo e uma vez por ano co-dirige uma montagem dos alunos. Mas garante que é só passatempo. A TV virou seu ganha-pão – coisa vista como heresia por muita gente do teatro. Entre os xiitas da classe, quem flerta com a televisão é tido como ‘vendido’. ‘Enquanto esse pessoal ficar olhando para o próprio umbigo, o teatro só vai perder público’, afirma Cruz. Ele não poupa de farpas seu ex-mentor, Antunes Filho. ‘Ele fala bobagens contra a TV por preconceito’, diz. ‘Mas ela é a única manifestação cultural digna de nota neste país.’

No que depender de Cruz, as pílulas culturais em Eterna Magia estão só começando. Nos próximos tempos se verá uma discussão sobre a música erudita do francês Erik Satie entre Eva (Malu Mader), a pianista que voltou ao lugarejo para roubar o noivo da irmã, e seu pai. ‘Não posso fazer uma novela sobre uma pianista clássica sem falar de música’, diz o diretor. Além disso, um personagem começará a circular com uma edição de Ulisses, o tijolão modernista do irlandês James Joyce. Cruz também estimula os atores a se mirar em exemplos grandiosos. Pediu a Irene Ravache que vivesse ‘uma mulher de Lorca’, em referência ao escritor espanhol.

A questão é que a palavra ‘teatral’ é um tabu na TV. Associam-se a ela cenas cheias de silêncio que podem ser fatais para o ibope – tanto que o próprio Cruz procura evitar o termo. Um temor que tem lá sua razão de ser. Embora ainda seja cedo para avaliar a reação do público, há na cúpula da Globo quem aposte que seu estilo é uma das causas da audiência baixa em relação à antecessora O Profeta – sua média no ibope está abaixo do patamar crítico para o horário, de 30 pontos. ‘Essas afetações só incomodam o espectador’, diz um diretor da emissora. Cruz é um novato à frente de novelas, mas já aprendeu o código nessas situações: ‘Estou aberto para fazer qualquer ajuste se não estiver agradando’.’

***

Furo na grade

‘Nesta semana, a Rede Record sepultará um programa em que apostou muitas fichas. A novelinha Alta Estação custou 11 milhões de reais e deveria cumprir um papel semelhante ao de Malhação, da concorrente Globo: ser a primeira atração em sua grade de folhetins. Mas ela acabou se revelando um tiro n’água. Em seu lugar, a emissora passará a transmitir uma série estrangeira com um personagem manjado, o Zorro. Essa mudança revela duas coisas. Uma delas é que séries estrangeiras continuam sendo um tapa-buraco providencial para quase todas as emissoras. Ela também diz muito sobre o momento por que passa a Record. A rede vem desbancando o SBT do segundo lugar no horário nobre com a proposta de construir uma grade de programação sólida, à maneira do que faz a Globo. Investiu pesado em jornalismo, nas novelas e numa grade relativamente estável – ainda mais se comparada com a do canal de Silvio Santos, na qual os horários mudam conforme o humor do patrão. O episódio mostra que ainda falta chão para a Record chegar lá.

A permanência de velhos seriados é um fenômeno curioso da TV brasileira. O SBT sempre recorreu a curingas – como são chamadas essas atrações que cobrem qualquer cratera. O mais conhecido deles é o humorístico mexicano Chaves. Seus 150 episódios são reprisados pelo SBT há 23 anos – e ficam invariavelmente entre as maiores audiências da rede. A Record tira vantagem de outro curinga: o desenho do Pica-Pau. O personagem, surgido nos anos 1940, já rodou pelo SBT, pela Globo e pela própria Record em outros tempos. Desde novembro passado, vinha sendo usado para recuperar o fôlego da emissora depois de Alta Estação. Exibido logo em seguida, ele ostentava até a semana passada 11 pontos de média mensal de ibope – o dobro da alcançada pela novelinha. Detalhe: seu custo por capítulo não chega a um décimo do investimento nela. Além do Pica-Pau, a emissora não dispensa um enlatado trash no começo da tarde: Xena, a Princesa Guerreira neste momento tem sua primeira temporada reprisada pela quarta vez. Produção americana filmada na Colômbia, o seriado do Zorro é o mais novo curinga do pedaço. Resta saber se a Record se aferra a ele – ou tenta reviver o seu genérico de Malhação.’

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Roberto Pompeu de Toledo

O ministro e a Zeca Feira

‘A disputa entre o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o cantor Zeca Pagodinho é mais um desses embates que revelam o que o país quer ser quando crescer. O ministro Temporão, da ala séria do governo Lula, assumiu, como uma das principais bandeiras de sua gestão, o combate ao abuso das bebidas alcoólicas. Entre outras medidas, anunciadas na semana passada no âmbito de uma Política Nacional sobre o Alcool, quer a proibição de venda de bebidas em bares de beira de estrada e a restrição dos anúncios de cerveja na televisão. Zeca Pagodinho, o mais notório garoto-propaganda de cerveja no Brasil, assumiu a bandeira oposta. ‘Por que o ministro não vai cuidar dos hospitais?’, disse. Se ganha o ministro, o país dará num passo no rumo da civilização. Se ganha Zeca Pagodinho, continuamos no lero-lero leniente e inconseqüente que caracteriza nosotros do Terceiro Mundo. Bernie Ecclestone, o chefão da Fórmula 1, uma vez comentou, na véspera de um Grande Prêmio do Brasil, a respeito da proibição de anúncios de cigarro nos carros de corrida: ‘Ora, isto é Brasil!’ Ele não acreditava que, num país mambembe como este, tal proibição pudesse pegar. Ganhe Zeca Pagodinho e ficará configurado que ‘isto’ continua sendo Brasil.

A cerveja escapou da legislação que, há alguns anos, restringiu a propaganda de outras bebidas, como cachaça e uísque, por causa de seu teor alcoólico menor. Ou melhor: constou que foi por isso. O que funcionou mesmo foi o poderoso lobby cervejeiro. A cerveja é uma das maiores anunciantes da TV. E nenhum outro produto, desde a saída de cena do cigarro, tenta como ela associar-se ao sucesso e à boa vida. Numa VEJA recente, Millôr Fernandes escreveu que, ao vislumbrar a mulheraça que caminhava à sua frente, no calçadão de Ipanema, de biquíni, na flor e na explosão de saúde de seus 20 e poucos anos, um passo para cá e outro para lá, a certa altura não se agüentou, tomou coragem, avançou, emparelhou com ela… e perguntou: ‘Por favor, que cerveja a senhorita está anunciando?’

A última dos publicitários de cerveja foi a invenção, nos anúncios da Brahma, da ‘Zeca Feira’. O gosto da expressão é duvidoso: juntaram o ‘Zeca’ do Pagodinho com o ‘feira’, que, para surpresa e graça dos estrangeiros, serve, na língua portuguesa, para distinguir os dias úteis da semana. Mas a intenção não é duvidosa: é convencer a população a devotar um dia a mais à bebedeira. A ‘Zeca Feira’ do anúncio é a quarta-feira. Uma pessoa aparece dizendo que toda quarta-feira chegava desanimada em casa. Mas aí… Aí vem o Zeca Pagodinho, risca do calendário a quarta-feira e escreve em cima: ‘Zeca Feira’. Viva! A quarta-feira está liberada! Dão-se como favas contadas, claro, a sexta e o sábado, quando não se trabalha no dia seguinte, e também, vá lá, o domingo, quando não se trabalha. A quinta, como é véspera da sexta, também já estava no papo. Faltava a quarta. Zeca Pagodinho decretou que não falta mais. Aguarda-se, nas próximas campanhas publicitárias, o avanço na segunda e na terça.

Haverá próximas campanhas? Eis a questão. A ‘Zeca Feira’ foi instituída já no curso da pregação do ministro Temporão. Vai ver é tática para ganhar terreno antes de ter de entregar os pontos. ‘Deixa o Zeca trabalhar. Deixa o Zeca ganhar o dinheirinho dele’, disse Zeca Pagodinho, num de seus acessos contra o ministro. O ‘dinheirinho’ são alguns milhões de reais. Enquanto ele o embolsa, que continuem livres e prósperos a cirrose, os transtornos psiquiátricos causados pelo álcool, as agressões, os tiros em briga de botequim, as muitas entre as 35.000 mortes anuais em acidentes de trânsito que têm causa na embriaguez do motorista. Zeca Pagodinho está deixando a vida o levar para a condição de porta-voz dos borrachos do país.

Não nos bastasse a Zeca Feira, este é ainda o país em que os motoristas serão gentilmente avisados dos locais em que há fiscalização de velocidade. Uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito que entrou em vigor na semana passada obriga que haja sempre, nas estradas ou nas cidades, sinais informando da existência de radares. Se o governo trabalha na direção da civilização na campanha contra o álcool, nesta toma o rumo contrário. Aliás, toma rumo contrário às próprias intenções da campanha contra o álcool, um de cujos alvos é diminuir a quantidade de mortos no trânsito no país. O carinhoso aviso ao motorista – ‘Olha aqui, daqui a 100 metros tem um radar, viu?’ – inscreve-se no capítulo das piadas de brasileiro. Brasileiro gosta de contar piada de português e de argentino, mas as de brasileiro são melhores. Uma das preferidas do colunista que vos fala é o aviso que certas companhias telefônicas adotaram: ‘Esta linha no momento está ocupada’. Para azar dos estrangeiros que não entendem a língua portuguesa, revogaram o sinal de ocupado universalmente adotado e entendido. Agora vem essa história do aviso nos radares. Os motoristas estão liberados para fincar o pé, nos intervalos entre um aviso e outro.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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