Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > FIM DE SEMANA, 13 E 14/9

Veja

16/09/2008 na edição 503

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

A casa veio abaixo

‘Dias atrás, o Domingo Legal de Gugu Liberato armou uma operação de guerra num subúrbio da Grande São Paulo. O programa do SBT levou ao local uma equipe de pilotos de ‘corridas de demolição’ – a missão deles era esborrachar seus carrões contra a casa de uma família pobre. O proprietário acompanhou a destruição pela TV. ‘Não pára, não pára’, berrava, enquanto sua namorada e Gugu tentavam acalmá-lo. Explosões emocionais como essa são o combustível de um tipo de atração em alta nos programas de auditório: os quadros de reforma de casas. Esse filão faz sucesso no exterior há tempos – seu representante mais notório é o reality show americano Extreme Make-over: Home Edition. Nele, uma família que passa por alguma espécie de drama ou privação vê sua moradia ser transformada num ninho aconchegante por uma equipe de arquitetos, pedreiros e designers. O primeiro programa a trazer essa mesma idéia para a TV brasileira foi o Caldeirão do Huck, da Globo. Lançado em 2006, o quadro Lar Doce Lar se tornou um de seus carros-chefes, com picos de até 28 pontos no ibope. No fim do ano passado, Gugu também entrou na onda. No quadro Construindo um Sonho, os participantes ganham desde cirurgias plásticas até recauchutagens em seus carros. Mas o prato principal é mesmo a construção civil. Gugu já bancou reformas em casebres caindo aos pedaços e deu de presente até um salão de beleza. À base de marretadas, renovou sua fórmula popularesca.

Sob o mote da reforma da casa, o que se oferece é um expediente que sempre teve espaço na TV brasileira: o assistencialismo. Nos anos 70, Silvio Santos brindava crianças necessitadas com brinquedos no Boa Noite, Cinderela. No Porta da Esperança, outro de seus sucessos, espectadores ganhavam cadeiras de rodas e afins. Mais tarde, a prática renasceu nas atrações em que uma moça pobre tinha seu dia de princesa. Gugu passou a apostar as fichas na imagem de bom samaritano desde que sua reputação foi pelo ralo, em 2003, com a exibição de uma falsa reportagem sobre o PCC em seu programa. Um exemplo é o famigerado De Volta pra Minha Terra, quadro em que ele promove o retorno de uma pessoa a seu rincão de origem.

Os reality shows de reformas dão nova roupagem ao assistencialismo. O atrativo não está apenas em brindar alguém com uma casa decente – e sim no desafio de como produzir isso. A demolição é um momento de adrenalina – no Extreme Makeover, multidões assistem extasiadas à ação das escavadeiras. Além disso, há as lições de arquitetura e decoração. Em paralelo ao processo de reconstrução, seguem-se os passos das famílias. Enquanto aguardam pelo novo lar, elas praticam esportes radicais ou passam por experiências de transformação pessoal. No programa de Huck, um clã de obesos perdeu peso num spa.

Apesar do formato mais dinâmico, o novo assistencialismo é igualzinho ao antigo em sua proposta essencial, de explorar os dramas dos personagens. No Extreme Makeover, não raro se fala de famílias que enfrentam doenças. Recentemente, o Caldeirão do Huck tratou de uma mãe que ficou paraplégica ao ser atingida num tiroteio. A casa em que morava com o marido e os dois filhos foi toda adaptada para sua condição e ela ganhou uma cadeira de rodas motorizada. Esses quadros são, de fato, superproduções. Mobilizam-se dezenas de profissionais e bolam-se estratégias engenhosas para manter as famílias em suspense. No caso de Gugu, a gravação de cada história consome 200 000 reais, três vezes o custo dos outros carros-chefes do programa.

Os quadros têm semelhanças curiosas. Huck promoveu uma gincana com um balão? Gugu não deixou por menos: pôs uma família para voar de… balão. Previsivelmente, isso causa troca de farpas. A Globo cogitou até processar Gugu por plágio. ‘O espectador percebe o que é cópia e o que é original’, alfineta Huck. ‘O concorrente quis morrer quando viu que nosso quadro é mais criativo’, diz Homero Salles, diretor do Domingo Legal. Então fica combinado: ninguém aí ouviu falar naquele programa americano…’

 

 

 

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