Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > GUERRA URBANA

Violência, criminalidade e responsabilidades da mídia

Por Nelson Hoineff em 05/07/2007 na edição 440

Há uma premissa errada no comentário ‘A violência e os jornais do Rio e de São Paulo‘  estampada em O Globo de 29/6 e reproduzida neste Observatório: a de que situações de violência como as do Complexo do Alemão, no Rio, ou do Morumbi, em São Paulo, sejam acontecimentos locais.


Isso corresponde a dizer que a questão do Hammas seja um problema local de Gaza. Na verdade, a ação da criminalidade nas principais cidades brasileiras está no núcleo do rompimento do tecido social de todo o país. Não condiciona, mas reflete de maneira extraordinária a bandidagem que se instalou em todas as casas legislativas, no judiciário e, em larga escala, nos mais altos escalões executivos – com impacto direto na economia, na cultura e na qualidade de vida da população.


O cidadão brasileiro presencia todos os dias atos de violência que desafiam a imaginação de roteiristas de Hollywood. Não se sente seguro onde quer que esteja. Isso não pode ser comparado a um engarrafamento de trânsito na Marginal do Tietê.


O próprio jornal O Globo, que tem feito boa cobertura sobre a escalada do crime no Rio de Janeiro, publicou no domingo (1/7) uma esclarecedora entrevista do governador Sergio Cabral a Dimmi Amora. Cabral diz que o Rio tem que escolher entre ‘o caminho civilizatório e o da selvageria’ e que o custo do estresse da guerra vale para qualquer área do estado, inclusive as mais nobres.


Se não fosse o governador do Rio de Janeiro, ele poderia ter dito que esse custo vai ser compartilhado por toda a sociedade brasileira – e estaria certo. Na entrevista, Cabral lembra que ‘ao longo das últimas duas décadas (…) houve um fortalecimento do crime organizado no Rio’. Isso também é verdade e se deve, por um lado, a uma ação organizada de governos populistas, que poderia ser comparada à ação dos próprios traficantes; e, por outro, à omissão da mídia que em grande parte se comportou como se nada de anormal estivesse acontecendo no país. Como se o crescimento da criminalidade não fosse muito diferente de um acidente de trânsito na Avenida Brasil: um mero problema local.


Extremamente grave


Entre as ações populistas desses governos, uma das mais perversas é justamente a de procurar atrofiar a cobertura do que está acontecendo, atribuindo o noticiário a uma campanha sórdida da mídia contra o Rio de Janeiro. A estratégia de reduzir o caos urbano a teorias conspiratórias de terceira categoria tem dado certo. Ela acabou enfraquecendo a disposição da mídia em ir mais fundo no problema, diluindo ainda a percepção da população sobre a cobertura que acabou sendo realizada.


E, no entanto, a verdadeira campanha contra o Rio consiste em incentivar o crime e a desagregação social que daí emana. Essa é uma especialidade da máquina que se instalou no estado desde os anos 1980, sob a complacência da mídia. A má notícia é que a sociedade se enxerga pelo que está estampado nos jornais, pelo filtro das lentes da televisão.


Um menino arrastado vivo por sete quilômetros no Rio, e outro que presencia a execução da mãe e pai em São Paulo, não podem servir apenas como base para a análise morfológica da cobertura dos jornais. O tamanho da notícia é sempre circunstancial, O papel da imprensa, não. Trata-se de informar a população sobre uma situação extremamente grave vivida pelo país. Uma situação de guerra, que mata mais do que as principais guerras do mundo; que é fratricida, e na qual os inimigos não vestem uniformes.


Informação responsável


Para essa conscientização a televisão exerce papel fundamental, por muitas razões: ela é o veículo eminentemente nacional e massivo; e a ela se atribui (até constitucionalmente) um papel educacional. Tal papel pode não estar na natureza do veículo, mas ele certamente poderia incorporá-lo. Não educando as crianças como as escolas públicas deveriam fazer, mas educando os adultos a olhar para os lados e entender o que está se passando.


Dimensionar a natureza do crime – seja o que é praticado nas ruas ou no Congresso, por exemplo – faz parte do papel educacional que a Constituição atribui à televisão e que é obrigação de toda a mídia. Retirar do contexto maior a carnificina que se instalou no Rio e em São Paulo, ou instalar a competição sobre de que maneira a mídia de um estado está cobrindo o outro é, na melhor das hipóteses, ser cúmplice do seu crescimento.


Ajudar o Rio não é votar no Corcovado. Às vésperas dos Jogos Pan-Americanos, a melhor campanha que pode ser feita pelo Rio é informar de maneira responsável o que está acontecendo do lado de fora das quadras de vôlei.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/07/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    A mídia deve ser responsável, mas às vezes precisa ser responsabilizada porque, em razão de seu poder de persuação e alcance, ela pode se transformar numa VERDADEIRA ARMA DE DESTRUIÇÃO EM MASSA. A criminalidade é um fenômeno distinto da guerra os dois vocábulos como sinônimos . A ‘criminalidade’ deve ser combatida na forma da Lei (e só na forma da Lei), pois quando o Estado admite ilegalidades (como a execução de suspeitos, por exemplo) está FOMENTANDO e não combatendo a barbárie. A ‘guerra’ ocorre quando um Estado quer impor sua vontade sobre outro e não conseguiu isso pela via diplomática. A ‘guerra civil’ ocorre dentro de um Estado quando um grupo quer impor sua vontade sobre outro pela violência. Os criminosos não querem impor sua vontade ao conjunto da sociedade, querem apenas praticar crimes (muitas vezes para sobreviver). Portanto, os criminosos não tem condições de provocar uma ‘guerra civil’. Mas se o Estado abandona a legalidade para admitir o combate a ‘criminalidade’ de forma criminosa seus agentes se tornam agentes de uma ‘ quase-guerra civil’ contra uma minoria (cujos direitos ao processo, à defesa e a condenação por uma autoridade judiciária, garantidos pela Constituição passam a ser negados). Se a mídia desumanizar os favelados como se houvesse uma ‘guerra’ o nº de corpos vai aumentar (o de vítimas inocentes, também) sugerindo até a possibilidade de rebelião.

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